COSMOVISÃO DAS COISAS
COSMOVISÃO DAS COISAS
Manifesto
I
Sobre
a escrita e o seu referente
A
propósito da pintura e da arte
O
Caso Particular das Influências na Arte
A
literatura cabo-verdiana
Manifesto
II
A
propósito dos Programas Televisivos
Sobre
o Crioulo, a sua oficialização e ensino
Sobre
a minha escrita em crioulo e português
Acerca
da crítica e dos críticos em Cabo Verde
A
propósito da Vida, do Mundo e das pessoas
Manifesto
I
Sobre a escrita e o seu referente
Escrever
para mim é uma busca e uma forma de me encontrar comigo mesmo.
É uma forma de reflectir sobre a vida e o mundo, é um
meio através do qual tento atingir uma certa beatitude, o
êxtase ou o nirvana. É uma forma também de
equacionar e resolver problemas e conflitos espirituais e deles
distanciar-me. É um refúgio e uma maneira de fugir da
solidão, da tristeza, da desilusão e do desespero.
Quando
escrevo, nada mais existe, senão a sinfonia das palavras, dos
sentimentos, das cogitações, e do pulsar total, de todo
o meu eu.
A
escrita para mim representa ainda uma forma de comunicação
comigo mesmo e uma ponte, transitava, entre o meu interior e o
exterior e vice versa. É uma forma de sentir os outros e o
mundo e de com eles relacionar-me, conviver e comunicar-me. Escrever
para mim é viver.
Para
além da criatividade, o domínio da imagem, das
metáforas, é fundamental no meu fazer poético,
enquanto que na ficção se impõem o enredo, a
surpresa e a linguagem fluida e coloquial com imagens elegantes e
equilibradas.
Mas
creio que tenho um estilo próprio dentro desses parâmetros.
Não me filio em nenhuma corrente estética e sou um
paladino da liberdade total de escrita, desde que se consiga a
qualidade estética, baseada na subjectividade e capacidade de
possibilitar uma multiplicidade de leitura.
Há
temas e assuntos variados na minha escrita, desde questões
metafísicas e existências até à condição
humana. Eu tenho uma escrita lírica, mas também
satírica, romântica, dramática, trágica,
erótica e sublime. Escrevo sobre as grandes questões
humanas, mas também sobre os pequenos nadas e o quotidiano. Às
vezes sigo a linha do maravilhoso, do onírico, ou do absurdo e
outras vezes sou místico e utópico. Tanto posso
escrever por uma inspiração momentânea, “como
se os Deus o dessem”, como premeditar o que vou escrever e
idealizar todos os trâmites do que vou escrever e de como vou
escrever. Levanto-me no meio da noite e escrevo; escrevo enquanto
caminho na rua ou viajo; escrevo no meio de uma conversa ou reunião;
escrevo na paródia ou escrevo deitado na cama, ou sentado na
minha secretária, ouvindo música e fumando cachimbo.
Posso ser motivado por uma cena qualquer do quotidiano, ou por uma
flor desabrochando; por uma situação insólita ou
brejeira, por um filme ou um livro, ou por uma feiticeira ou deusa de
saia, enfim por uma infinidade de coisas.
Às
vezes sou subversivo, obsceno, ou impertinente, às vezes sou
simples e directo, puro e meigo, ou doce como o mel
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A propósito
da pintura e da arte
Eu
defino a minha pintura, ou o meu estilo pictórico como pintura
defluisionística, pois a técnica que uso para pintar,
creio eu, é um pouco diferente da norma , da forma como
normalmente se pinta. Os meus quadros são baseados numa
diluição e ao mesmo tempo fusão de cores, o que
é muito difícil de se conseguir, e, dada essa simbiose
subtil e profunda de cores, que se repercute na óptica do
observador, emprestei esse termo do mundo da música(que vem
das palavras defluir – abstracções emocionais e
fusão) para designar esse meu estilo. Entretanto, há,
geralmente, uma explosão e uma reverberação de
cores quentes e vivas nos meus quadros, que dão às
vezes a impressão de mundos e coisas estilhaçadas e
reorganizadas, dispersas e reunidas; às vezes um pouco
violentas, às vezes suaves, o que me aproxima um pouco dos
“fauves” e do abstraccionismo, às vezes
expressionista, que é a forma mais fiel de retratar o meu
interior, a minha alma, o meu eu mais profundo e inconsciente.
Eu
sou um Poeta de cores. Os meus quadros são essencialmente
poéticos, assim como os meus poemas são verdadeiras
pinturas em forma de palavras e de versos. Eu os concebo e idealizo
como artes supremas em que o subjectivismo, o êxtase, a
relatividade e uma certa fugacidade eterna se manifesta.
Tanto
a minha escrita como a minha pintura são para serem sentidas,
antes de serem entendidas, pois são ao mesmo tempo delírio
e equilíbrio em pleno voo.
Relativamente
aos temas dos meus quadros, eu defino a minha pintura como pintura
cósmica, que tem muito a ver com a minha intuição,
na medida em que, para além do incomensurável universo
da minha interioridade que expresso em pintura, há também
uma grande procura da parte invisível das coisas, e do mundo,
enquanto fulcro de algo mais vasto, menos preciso, mais fluído,
menos perceptível, e que no, entanto, pressentimos, possui uma
ordem e uma lei precisas. É assim algo onírico, mas
latente, enquanto forma e não-forma, coisa e não-coisa,
e aqui os sentimentos e a intuição são soberanos
na determinação do processo e do caminho a percorrer
nessa busca do sempre imanente e transcendentes. Há um
delírio, é certo, nessa busca do infinito, desse cosmos
que me habita, visto que a minha pintura é um pouco simbólica
por representar esses universos vaporosos e quase intangíveis
do eu quer ser retratado e conviver com os outros, daí que eu
diga, também, e do todo.
É
claro que, devido ao meu conhecimento, embora modesto, da pintura,
tenho enveredado por outros caminhos, diferentes desta minha raiz,
(povoada de luz e de brilho) experimentando outros estilos e
convivendo com outras técnicas, como forma de exercício,
de oxigenação higiénica e de dinamização
estética e criativa; e tenho tentado pintar um pouco à
moda dos pintores vanguardistas e pós-modernos.
Quanto
a mim, o mais importante na pintura, e na arte em geral, é a
criatividade e a estética; é o poder de ter uma certa
imaginação que nos permita transcender o óbvio,
o palpável, o evidente, o quotidiano imediato, e construir
algo novo, diferente, único e nunca visto; é a
capacidade de criar algo que enfeitice e que subjugue, através
de uma linguagem sugestiva e de uma harmonia, ou desarmonia sedutora,
ou do jogo de cores e de luz, ou das recriações
múltiplas presentes em cada quadro.
Evidentemente
que, tendo em conta que o conceito de estética varia um pouco
com o tempo e com as correntes estético-estilistícos
que se sucedem, é difícil estabelecer os parâmetros
do que é estético ou não, para além dos
pressupostos da originalidade, da técnica e da subjectividade
mas quando se fala da pintura, estritamente, enquanto linguagem
sígnica de cor, sem levar em conta as questões
temáticas e ideológicas subjacentes (que possibilitam
dimensões várias com o jogo de pensamentos), a luz
tem-se sobressaindo como elemento primordial e fundamental da
estética, intrínseca à pintura, ao longo do
tempo.
A
história da arte em geral, quer se trate de pintura ou de
literatura, demonstra bem como a questão estética se
reveste de uma certa subjectividade, não obstante uma certa
cientificidade que existe nos princípios que determinam os
limites do artístico e não-artístico, do
estético e não estético, embora isso também
não seja infalível, porque, como se sabe esses
critérios e princípios variam muito com as épocas,
com os contextos e com a própria dinâmica dos conceitos.
Devido a essas variações, muitas obras, pinturas e
escritores já foram considerados menores em determinada época,
em que imperava uma determinada moda, enquanto que em outras épocas
foram considerados maiores e protótipos do que é arte.
As escolas artísticas também influenciaram muito esse
tipo de apreciação, pelo que apareceram, sempre,
correntes estéticas, ao longo de gerações, que
não eram, por um lado, aceites pelos existentes, e, que por
outro lado negavam as existentes proclamando-se como as melhores e
verdadeiras. Portanto, na arte não há verdades
absolutas e irrefutáveis.
Os
exemplos são vários: para além das pequenas
rupturas e dissensões havidas entre as várias
tendências, digamos, clássicas, como o barroco, o
romantismo e o realismo, encontramos ainda muitos grupos que se opõem
entre si e brigam pelos seus conceitos e manifestos do que será
a arte, consoante as suas visões e ideias, tão díspares
umas das outras, levando a que houvesse rupturas atrás de
rupturas e imposições, mais imposições -
isto em termos das artes ditas de formatividade, de expressão
e de redução. É o caso dos impressionistas que
foram rejeitados pelo salão Francês; é o caso dos
simbolistas relativamente aos impressionistas; é o caso da
Arte abstracta que se libertou de toda a tradição
anterior de pintura; são os casos do cubismo, do futurismo do
dadaismo e do surrealismo, entre outros.
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O Caso Particular
das Influências na Arte
Quanto
à influência na arte, é preciso dizer que há
sempre influência em tudo – na escrita, na pintura, na
música e na vida. Todos os escritores também têm
influência de uma coisa ou de outra porque não se cria
do nada. Há sempre um ponto de partida. Agora, as influências
são mais directas em relação a algumas coisas,
às vezes indirectas em relação a outras, e às
vezes são inconscientes, ocorrendo, neste caso, o que se chama
intertextualidade, que é a semelhança que existe entre
frases, pensamentos, ou textos. As influências podem ter
origens diversas – desde a própria vida que vivemos, até
às coisas que observamos, ou das situações em
que somos apenas testemunhos.
Tudo,
ou quase tudo na vida e no mundo ao ser criado tem influência,
e podemos constatar isso facilmente. Na Bíblia, o dilúvio,
a Torre de Babel para se chegar ao céu, por exemplo, têm
intertextualidade com as mitologias grega, egípcia, hindu e
persa, etc., assim como as leis de Moisés têm influência
dos princípios morais do antigo Egipto, ou do masdeísmo
ou do Zoroastro que influenciou também Jesus com o princípio
de pagar o mal com o bem, entregando a outra face para a segunda
bofetada; mesmo o nascimento de Jesus parece muito com o do Sidharta,
Buda, etc. A mitologia romana é toda ela influenciada pela
mitologia grega, assim como esta possui influência egípcia,
da persa e da Índia. Na pintura há exemplos vários,
começando com os renascentistas, passando por Picasso com a
influência africana, pelos impressionistas, com a influência
chinesa e pelo dos naive com o primitivismo. Na música, os
casos são incontáveis; na literatura são
diversos, e, praticamente é impossível não
haver, porque, para se escrever é preciso, antes de mais ler e
ler muito; conhecer a escrita dos considerados grandes escritores, em
que na maioria dos casos possuem obvias influências, como, por
exemplo a da Ilíada de Homero, sobre a Eneida de Virgílio,
e destas sobre a Divina Comédia de Dante, que por sua vez terá
influenciado Bocaccio, Shakespeare, Camões e tantos outros.
Mas, como se pode ver, o importante é ultrapassar essas
influências e criar, não obstante, coisas novas e
principalmente com uma linguagem e um estilo próprios.
Como
disse, é preciso ler muito para se poder escrever, e isto não
significa copiar, mas sim aprender. As leituras, mais as experiências
da vida, próprias, e testemunhadas, funcionam como um todo que
interage no momento da escrita, às vezes de forma consciente,
às vezes inconsciente.
O
importante agora, para além do estilo próprio, é
criar algo original, diferente dos demais, de forma a despertar o
interesse do leitor, pois, praticamente, tudo o que poderemos dizer
já foi dito, de muitas outras formas, pelo que poderemos não
estar dizendo nada que seja novo, mas estaremos dizendo de uma forma
nova, com nova abordagem, com novos pontos de vista e com novas
surpresas, e só assim estaremos afastando-nos verdadeiramente
de eventuais influências, criando um mundo novo,
distanciando-nos do “dejá vu”. É preciso
dizer: por mais que tudo já tenha sido dito, há sempre
algo novo a dizer e uma forma nova de dizer: assim como as pessoas se
parecem todas, enquanto ser humano, mas são tão
diferentes entre si.
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A literatura cabo-verdiana
Eu
creio que a literatura cabo-verdiana dos últimos tempos, desde
a independência nacional, sofreu uma transformação
substancial.
Abrindo-se
mais ainda ao mundo; impregnando-se de novos valores e novas
percepções da vida e das coisas, apreendendo as novas
tecnologias e os novos impulsos hodiernos, por um lado, e por outro,
acompanhando o dia-a-dia mundial, através das novas
tecnologias que tornam o planeta (como se usa dizer agora) uma aldeia
global, e sofrendo também as consequências dos inúmeros
acontecimentos planetários, tais como os conflitos vários,
as escaladas das drogas, os fenómenos de aculturação
vária e as ameaças terroristas, ecológicas,
nuclear, e epidémicas, os escritores cabo-verdianos
contemporâneo acabaram também por se ressentir desse
novo clima de vida e vivência traduzindo-o nas suas escritas
numa linguagem e roupagem, tanto estética como temática,
diferente da escrita que lhes antecede e dos Bardos da literatura
cabo-verdiana.
Houve,
sim, um avatar, uma revolução e uma inovação
na forma e na maneira de escrever, na percepção da nova
realidade cabo-verdiana e no modo de retratá-la. E essa
revolução se verifica tanto no aspecto literário
em si, nas novas imagens e metáforas, como no que concerne ao
conteúdo e abordagem das novas temáticas, que se primam
por uma certa originalidade e criatividade, em que a subjectividade e
uma certa utopia se manifestam com primor e evidência.
Neste
momento, pode-se falar de uma plêiade de escritores
cabo-verdianos que se enveredaram por rumos tão diferentes dos
seus antecessores e que atingiram uma grande maturidade
estético-literária.
O
grande mérito dessa nova geração reside na sua
heterogeneidade e particularidade. Pode-se afirmar que os escritores
dessa nova geração primam-se pela diversidade de estilo
e de abordagem temática de tal forma que se torna quase
impossível uma filiação ou uma inclusão
peremptória e espartilhada em escolas literárias e à
volta de mentores dogmáticos.
A
liberdade de escrita, do que se escreve e de como se escreve, em Cabo
Verde, é tão grande, que se pode encontrar autores da
mesma geração com obras tão individuais e
originais, tão diversas e diversificadas, tão
universais quanto telúricas, e com ressonâncias
universalista múltiplas, a se conviverem num clima de criação
e de publicação deveras impressionante, não
obstante algumas tentativas de alguns pseudo mestres em classificar e
determinar a qualidade e a importância dos seus discípulos.
Não
vou citar nomes, nem obras, mas quero ressaltar aqui que nesses
últimos tempos foram publicadas obras, tanto no domínio
da prosa, como da poesia, e do ensaio, inclusive, com um grande nível
estético, e com todas as outras qualidades, como a
criatividade, a originalidade e a artisticidade que as tornam obras
de referência em qualquer parte do mundo, e que valorizam o
património artístico-cultural e literário
cabo-verdiano.
Entretanto,
queria evidenciar ainda, uma outra grande conquista dos escritores
contemporâneos, que é a apreensão da importância
da sua língua materna – o crioulo – no contexto da
edificação de um mundo sócio-cultural e
literário cabo-verdiano.
De
facto, o estudo e a investigação à volta da
língua crioula, e a sua divulgação, e a
elaboração de uma gramática, e de normas da sua
escrita, assim como a sua crescente utilização na
escrita de obras literárias, constituem, sem dúvida
alguma, uma grande revolução na literatura
cabo-verdiana e uma conquista de primordial importância para o
futuro, não só da literatura cabo-verdiana, como também
do ensino em Cabo Verde. As obras literárias, em crioulo,
publicadas ultimamente, e a sua recepção calorosa no
seio do público cabo-verdiano falam por si.
É
claro que se me torna imprescindível falar da fertilidade
editorial cabo-verdiana, tanto no que concerne aos escritores, que
publicam regularmente, quanto no que se refere às editoras que
têm trabalhado bem e publicado muito, malgrado, o,
relativamente, exíguo número de leitores em Cabo Verde,
e a famigerada falta de verba.
Quero
ainda render aqui a minha homenagem à Claridade e a todos os
escritores seus epígonos.
De
facto, a Claridade foi um movimento, ou uma revista magistral que
marca a nossa literatura, não só pela ruptura que
provocou, relativamente aos modelos clássicos que a antecedia,
mas também pelo ideário que traçou de fincar os
pés no chão e reivindicar o que é nosso e que a
terra nos legou, por legitimidade. Esse movimento, de raiz telúrica,
vinga-se também na nossa história literária, por
ter constituído uma frente forte de contestação,
de protestos e de embate contra a situação social,
vivida no arquipélago colonial, e contra os abusos e
espezinhamentos que a nossa população sofreu nesse
tempo.
Constitui
também um espólio importante da nossa história,
porquanto se manifesta como um espelho que retrata vários
quadrantes da vida e vivência do povo cabo-verdiano.
Um
dos grandes méritos e força da Claridade é o seu
espírito e tom contestatário e de revolta, para além
de ter sido, é claro, o arauto da modernidade em Cabo Verde,
com a utilização do versilibrismo e de temáticas
nacionalistas.
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Manifesto II
A propósito dos Programas
Televisivos
Já
fiz um pouco mais de cinco programas televisivos, todos de carácter
cultural e essencialmente diferentes uns dos outros, apesar de haver,
evidentemente, muitos pontos em comum e convergentes.
Um
dos primeiros programas para a televisão que eu fiz, foi Artes
& Letras, que foi o primeiro programa da televisão
cabo-verdiana totalmente voltado para os vários géneros
artísticos ao mesmo tempo; é um dos raros do seu género
que teve uma certa autonomia em termos criativos, tendo explorado o
rico filão da poesia e da literatura, com leituras poéticas
e clips de poemas e alguma dramatização. Apostando um
pouco na diversificação de temas e de abordagem, esse
programa abarcou várias modalidades artísticas e
diversas formas de realização – desde as artes
plásticas à literatura e à música, com
entrevistas, documentários e reportagens. Foi um programa que
teve uma boa aceitação e que impulsionou e motivou os
restantes que fiz? que se lhe seguiram.
Um
outro programa televisivo que fiz e que teve um grande impacto foi
Cultura Versus Cultura que apostou essencialmente em grandes
entrevistas, também a uma diversificada modalidade artística,
tendo constituído como que um meio dos artistas em geral
(escritores, músicos, pintores, escultores, dançarinos,
etc.) divulgarem os seus projectos e veicularem as suas ideias sobre
as coisas, e a realidade que os cerca, e sobre os seus sentimentos.
Foi
um programa que tinha como objectivo fundamental criar um espaço
de diálogo e de comunicação entre os artistas,
permitindo-lhes expressar as suas visões mais profundas do
mundo e do seu meio de informação e formação.
Artistas de renome, tanto residentes em Cabo Verde como na diáspora,
contribuíram com a sua presença e a sua experiência
no enriquecimento desse programa.
Foi
um programa que teve também a preocupação de
investigar e divulgar o rico manancial do património cultural
cabo-verdiano – das tradições e manifestações
culturais e folclóricas cabo-verdiana; aliás, nessa
linha seguiu o programa Nôs Identidade que teve a
felicidade de levar ao público em geral o filão do
saber e da cultura verdadeiramente popular, e do meio rural, tais
como as festas de romaria, as músicas tradicionais e
regionais, as crenças populares, etc.
E,
enquanto isso, no outro prato da balança havia o programa
Clari(e)vidências que teve como objectivo primordial
informar e divulgar os principais eventos artístico-culturais,
dando aos artistas a possibilidade de se expressarem de forma mais
livre, mais espontânea e aprofundada sobre os seus trabalhos e
as suas ideias. Baseava-se essencialmente em reportagens e
entrevistas, mas não descurava também alguns momentos
de música e poesia, às vezes com clips.
Um
outro programa que fiz e que teve um grande impacto e muita aceitação
foi Testemunhos do Tempo que procurava estabelecer uma ponte
entre o passado e o presente, trazendo ao momento presente factos,
situações, coisas, vivências e glórias do
passado, como forma de preservar a memória do passado e de
contribuir um pouco na tarefa de levar à geração
actual o conhecimento do percurso do nosso país, da nossa
cultura, da nossa história e sociedade.
Foi
um programa concebido por outrem, que acabei assumindo,contando com
diversas personalidades idóneas e conhecidas da sociedade
cabo-verdiana.
É
de se dizer que todos esses programas que eu fiz seguiram uma linha
editorial própria totalmente da minha autoria e segundo os
meus critérios e sensibilidade.
Tendo
em conta os problemas vários que enfrentei na sua execução,
tais como a falta de verba, a precariedade de estúdios de
montagem, de câmara e de pessoal (montadores, realizadores,
investigadores, anotadores, produtores, etc., etc.) acabei por
assumir praticamente a totalidade dessas tarefas produzindo parte do
programa com o meu próprio esforço, quer utilizando o
meu telefone, quer deslocado em táxis, às minhas
custas, para os diversos contactos e para as reconfirmações;
quer editando e realizando os programas juntamente com um operador de
Câmara e um montador, apenas.
É
claro que me sinto gratificado com o resultado obtido e com as
inúmeras manifestações de reconhecimento por
parte do público em geral. Creio ainda que esses programas
atingiram o seu objectivo e conseguiram atingir o nível de
importância e de serventia sócio-cultural a que se
destinavam.
Quanto
à Comunicação social em Cabo Verde, eu acho que
tem a mesma dimensão e desenvolvimento do país. É
a imagem do país. Se se diz que o país não pode
ser comparado com outros países porque é pobre e não
possui recursos, a mesma coisa se pode dizer da comunicação
social. Entretanto, eu acho que para um país tão
pequeno e com um reduzido número de leitores, Cabo Verde
possui uma média, satisfatória, de jornais com razoável
qualidade. Ao nível da rádio também está
bem servido e o único problema maior que possui é ao
nível da televisão. Mas, quanto a isso, é
preciso dizer que o seu maior problema é a falta de verba. Não
se pode fazer televisão sem dinheiro. A televisão é
muito cara, é dispendiosa e é preciso investir
seriamente para se poder ter bons resultados. Entretanto, eu acho que
poderia estar melhor, e que tão só necessita de alguns
acertos em termos de organização, de orientação
e de um objectivo definido de programação. Creio que há
demasiados directores na televisão, quando poderia ter apenas
um e alguns chefes, o que reduziria bastante as despesas com a chefia
e possibilitaria uma maior margem de verba para o seu funcionamento,
de facto. A disciplina, a programação dos trabalhos com
objectivos claros e definidos, aliados à exigência de
eficiência e competência, quiçá com uma
certa emulação, são imprescindíveis para
o seu bom funcionamento, e, é claro, uma linha editorial e uma
programação criativa garanteria o sucesso. Com isso
quero dizer: criar programas nacionais com dinamismo e criatividade e
de forma orientada e programada, que sejam de facto programáticos.
Mas tudo isso só será possível com muito
dinheiro e não se pode fazer comparações com
outras televisões que possuem o triplo de materiais, de
pessoal e de verba (senão mais), e que, no entanto, em termos
de programas que oferecem não ultrapassam muito a televisão
cabo-verdiana. Se não vejamos: estão abertos de manhã
à noite, mas com a repetição dos mesmos
programas emitidos durante um tempo determinado e que não
ultrapassa muito o tempo de emissão da televisão
cabo-verdiana. Se esta fizesse o mesmo, com mais alguns programas,
poderia também estar aberto durante 24 horas. Agora, é
preciso, sim, apostar muito na formação, no espírito
de equipa e na responsabilização da produção.
É preciso criar o gosto de querer trabalhar, de querer inovar,
de querer trabalhar e de querer avançar, em todo o pessoal que
trabalha na televisão, e isso só será possível
com o devido estímulo, com a dedicação e
seriedade daqueles que a dirigem, mas, também, com
profissionais conhecedores do métier e com a gratificação
devida pelos trabalhos feitos.
É
preciso também que a televisão cabo-verdiana tenha
programas de fundo, com grandes entrevistas, que satisfaça o
público, que não se interessa pelo futebol, pelas
telenovelas, pelos filmes e pelos programas de diversão, e
acabar com essa mania de se querer oferecer apenas o que o grande
público quer, pensando erradamente que o público que se
interessa pelos grandes temas de conversa é uma minoria,
quando na verdade, é bastante significativo. A Televisão
tem de tentar oferecer programas que satisfaçam todos os
círculos de interesse, independentemente da audiência,
privilegiando a qualidade, e a perspectiva pedagógica e
formativa, independentemente da audiência. Tanto é que a
nossa Televisão não se rege pela lei do marketing e da
concorrência.
É
preciso oferecer o que é bom, ainda que pensemos que não
há apetências e inclinações para o seu
desfrute, pois, assim, quem não quiser ver não verá,
mas a oferta está lá e a Televisão não
poderá ser acusada de negligenciar a qualidade e de não
ser uma Televisão para todos os gostos.
E
temos de criar programas ao nosso estilo, o mais original possível,
sem imitar programas dos outros, de outros países, nem tê-los
como paradigma do que é bom, do como deverá ser. O que
é bom é o que nós criamos, e, o que deverá
ser é o que nós quisermos, não o que os outros
determinam. Devemos procurar ser inventivos e cativar as pessoas, não
pela diversão mas pelo conteúdo, pela forma e pela
genialidade (se isso for possível).
Muitas
vezes não avançamos muito porque estamos preocupados em
copiar e seguir os outros e esquecemo-nos que podemos criar coisas
fabulosas que poderão passar a ser modelos para os outros, e
ter coisas nossas, próprias, genuínas e à nossa
maneira, com qualidade e performance.
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Sobre o Crioulo, a sua oficialização
e ensino
A
questão da oficialização do crioulo e do seu
ensino é de facto delicada e, até certo ponto,
problemática, mas incontestavelmente necessária.
Urge
oficializar a língua crioula e integrá-la no curriculum
escolar para que a nova geração a saiba ler e escrever
e não a ache algo estranha e difícil. Se utilizamos o
crioulo quotidianamente como meio de comunicação oral
privilegiado porque não utilizá-lo também na
escrita.
Neste
momento, há uma certa resistência em utilizar o crioulo
como língua oficial o que é normal, porque as pessoas
não o estudaram e não o aprenderam, mas é
preciso ver que é necessário ensiná-lo e
estudá-lo para o podermos utilizá-lo, assim como
acontece com as outras línguas. Não há problema
algum em termos o crioulo como língua oficial ao lado do
português. Há exemplos vários de países
que têm duas ou mais línguas oficiais.
Há
o flamengo e o francês na Bélgica que aparecem sempre um
ao lado do outro, em anúncios, em legendas de televisão
e em jornais como opção, etc., etc.. Há o
exemplo do Luxemburguês que aparece também ao lado do
francês e do alemão, no Paraguai há o
Tupi-Guarani como língua oficial ao lado do espanhol; em
Portugal temos o Mirandês, e há diversos outros
exemplos. A questão do número de falantes do crioulo,
também, não é relevante, pois temos exemplos de
várias línguas que não são faladas por
uma grande quantidade de pessoas, mas que se impõem e que
batalham para o seu desenvolvimento e dignidade no mundo. Temos o
mirandês, o malaio (?! O euskhera basco, o galego, o bretão
etc.
Portanto,
é preciso começar a ensinar o crioulo neste momento. As
bases já estão criadas para isso. Já há
um trabalho sério e de mérito do linguista Manuel
Veiga, com uma gramática bem estruturada e elaborada; Já
temos dicionários bilingues e só nos falta um
dicionário etimológico de sinónimos para se
garantir o êxito total da sua implementação como
língua oficial.
O
único problema, de momento, tem a ver com as variantes, e a
resistência no estudo da melhor forma de a ultrapassar; mas, se
repararmos bem na gramática de Manuel Veiga, veremos que as
principais variantes faladas em Cabo Verde estão polarizadas
pela variante da ilha de Santiago e Sotavento, e pelas da ilha de São
Vicente e do barlavento. Há que de facto definir a escrita, o
que já está feito, e que é uma escrita comum,
que pode servir a todos, não obstante as diferenças
fonéticas e fonológicas de cada variante, e programar
uma forma de ensino que abranja essas variantes de forma a permitir
uma compreensão plena das duas, o que garantirá uma
compreensão e utilização mútua sem
problemas. Agora, as regras têm de ser bem estudadas e
definidas de maneira a não constituir problemas no seu
desempenho. Todas as línguas possuem variantes dialectais e
diferenças várias na sua estrutura de superfície
e no seu desempenho quotidiano que tem a ver com as diferenças
geográficas e culturais relativas aos seus utentes.
Mas,
entretanto, se se optar por uma variante apenas como veículo
principal da escrita, e, portanto, como língua oficial, eu
creio que a variante da ilha de Santiago é a mais apropriada
por diversas razões, de entre as quais destaco a linguística:
é a variante que possui um melhor desempenho fonético e
fonológico.
É
também a variante mãe das outras por ser a primeira a
se formar antes de se espalhar aos outros espaços
cabo-verdianos e sofrer as alterações que se verificam
nas outras variantes, e é ainda a mais rica em termos lexicais
e metafórico, para além do seu substrato cultural e
histórico que a caracterizam. Por outro lado, é a
variante mais próxima da matriz que a originou, e, portanto,
da qual se pode, mais facilmente, identificar o seu valor
etimológico, e a menos contagiada por outras línguas
estrangeiras que têm transformado substancialmente as outras
variantes. Há diversos estudiosos e linguistas que têm
afirmado alguns desses pressupostos, nomeadamente Baltazar Lopes, e
Gabriel Mariano.
Há
ainda mais uma razão de peso e que merece ser ponderada. Neste
momento, há uma maior publicação de obras na
variante da ilha de Santiago, de entre as quais se destacam as
recolhas das tradições orais de Tomé Varela da
Silva, que demonstram bem o quão rico é essa variante
em termos linguísticos e literários, e há vários
escritores escrevendo contos e poemas nessa variante, demonstrando
assim a sua maturidade linguística e literária. E todas
essas publicações poderão contribuir enormemente
para o curriculum escolar do ensino do crioulo ou da língua
cabo-verdiana.
Eu
creio que já está na hora de se nomear uma comissão
para a criação das condições e bases
necessárias para a viabilização do ensino do
cabo-verdiano. Não é por acaso que linguistas de várias
latitudes têm estudado e publicado trabalhos sobre essa língua.
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Sobre
a minha escrita em crioulo e português
Tenho
as mesmas facilidades e dificuldades quando escrevo, quer em
português, quer em crioulo. Nenhuma dessas línguas é
mais fácil nem mais difícil. A complexidade do acto de
criação é a mesma nos dois casos, mas, na
verdade há uma grande diferença em termos do que
escrevo, de como escrevo e do porque escrevo; relativamente as duas
línguas, isto é, os conteúdos tendem a ser
completamente diferentes nos dois casos, assim como a motivação
da escrita, as razões que me levam a escrever e a forma como
escrevo; o estilo de escrita.
De
facto, quando escrevo em português a tendência é
expressar coisas que têm muito a ver com o meu interior, com os
meus sentimentos e pensamentos mais profundos relativamente à
vida e ao mundo; algo assim místico e filosófico,
enquanto que a escrita em crioulo tende a ser mais ligada ao que me
rodeia, ao quotidiano e às tradições
cabo-verdianas, não obstante haver pontos em comum nos dois
casos.
O
que me motiva a escrever em português é um pouco a
necessidade de reflexão sobre as coisas, uma certa procura de
mim mesmo e da razão da existência e do existir e a
dúvida, as interrogações múltiplas que me
assaltam. Tanto posso provocar com os meus pensamentos e sentimentos
o estado de êxtase que me levará à escrita, como
isso pode acontecer naturalmente por qualquer situação
ou causa pertinente, e de forma inconsciente.
A
escrita em crioulo, por seu lado, é quase toda ela provocada
por uma situação, por uma causa exterior que tem a ver
com o que me rodeia, quer do momento presente ou de momentos mais
remotos, e quase sempre ligados a preocupações de ordem
antropológica e histórica e mitológica. É
uma escrita que acontece já fortemente condicionada pela
razão, e, quase toda ela, consciente e direccionada para um ou
vários objectivos. Neste caso, a tendência para uma
certa dramatização e declamação se impõem
naturalmente, de forma acutilante.
Quanto
à forma, à linguagem, nos dois casos a metáfora,
as imagem, os ícones me perseguem e me subjugam, e não
há forma de se lhes escapar, pelo que, tanto num caso como no
outro a tendência para a literariedade extrema e um certo
hermetismo se verificam, ainda que no caso da escrita em português
seja mais pertinente e imponente Uma certa sublimidade e
transcendência, também, caracterizam o meu modo de
escrita nos dois casos.
Em
suma, o que posso dizer é que quando escrevo em português
sinto que sou mais solto, mais livre, mais fluido, mais inconsciente,
mais remanescente e mais místico, e quando escrevo em crioulo,
sinto-me mais preso à terra, às minhas rochas, às
minhas costelas, às minhas entranhas e sou um pouco menos
inconsciente e subjectivo, tornando, inclusive, a minha escrita chã
e provocante, devido à forte tendência que tenho aqui de
satirizar, de desenvolver o sarcasmo, e os escarros que deverão
atingir os rostos dos sacanas.
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Acerca
da crítica e dos críticos em Cabo Verde
Em
Cabo Verde praticamente todas as pessoas são críticos;
todos criticam tudo, a torto e a direito, e, em geral negativamente.
Quase toda a gente emite juízo de valor sobre este ou aquele,
sobre isto e aquilo, às vezes de forma peremptória, tal
uma autoridade na matéria em questão. Sendo que na
maioria das vezes tais críticos estão a leste do que
criticam, bem longe mesmo, ou por não estarem informadas sobre
o assunto, ou por não terem gabarito nem nível para
tal, parece-me que tais críticas constituem uma forma de
compensação, de sublimação. Não é
raro encontrar pessoas fazendo críticas sem o mínimo de
fundamento, sem nenhum argumento, e, em geral, de forma negativa;
inclusive pessoas avisadas e pseudo críticos de Jornais
exercem, a miúdo, esse direito de forma gratuita, dizendo por
dizer, afirmando coisas sem argumentos, daí que é
preciso uma análise séria sobre essa questão, e
urge criar mecanismos e condições para suscitar a
crítica séria e abalizada nos nossos órgãos
de informação, de forma a possibilitar ao público
uma visão clarividente e idónea das coisas, ajudando
assim também a veicular os princípios e o caminho que
se deve seguir para se fazer uma crítica de facto. Urge um
exercício permanente da crítica que possibilite aos
outros uma aprendizagem, e o seu consequente exercício, de
forma concreta. Infelizmente, os nossos Jornais possuem um excedente
de colunistas cuja preocupação principal é falar
de futilidades e banalidades quotidianas. Apesar de serem
necessárias, devia também haver verba para pagar
críticos. vários, de diversas áreas, para
publicarem trabalhos constantemente nos Jornais que esclareceriam
muito determinadas coisas.
Interessando-me
falar aqui da crítica literária, o que poderei dizer é
que ela é praticamente inexistentes, salvo algumas excepções.
Entretanto, os críticos populares da literatura abundam por
aí, debitando os seus pareceres com ares doutorais, mas
infelizmente sem se atinarem com argumentos, nem nada que pareça.
Alguns dizem o que ouviram outros dizer; outros fazem determinadas
afirmações por ignorância e outros por excesso de
sapiência em áreas desencontradas.
Há
tantas medidas quantas pessoas existem para medi-las, já teria
dito o filósofo, e isso é tanto mais verdade se
considerarmos determinadas coisas que são subjectivas, como
por exemplo a arte. Mas é verdade também que
determinadas coisas possuem determinados parâmetros que as
definem e as caracterizam, pelo que deverão ser analisadas em
função desses parâmetros, e, desde logo, à
luz de uma certa objectividade e de certos princípios
orientadores e restritivas, quiçá uma certa
cientificidade. Assim sendo, só serão medidas, não
por todos que as queiram medi-las, mas apenas por aqueles que estão
a par destes parâmetros e que possuem as chaves dos códigos
sobre as quais se erigem, e, portanto, só poderão ser
medidas efectivamente, e com eficácia, por aqueles que
aprenderam e que sabem medi-las. Daí a urgência em
promover e estimular a crítica entre nós, criando
espaços e verbas para o seu exercício, pois só
assim os medidores crescerão e os objectos a serem medidos
evoluirão, e as arrogâncias egocentristas e descabidas
diminuirão.
Sendo
a crítica algo sério e exigente que leva tempo e muita
consulta, e requer inteligência e perspicácia, pode-se
até compreender a crítica de muitos que não se
preocupam em aprofundar e corroborar os seus pontos de vista e
análises, tornando-se muitas vezes bombásticos e
exteriotipados, cheios de chavões e clichés, e muito
parciais, consoante os seus interesses. Para se evitar isso é
que se requer críticas bem remuneradas e dignificadas.
Por
enquanto, apenas alguns cabo-verdianos e alguns estrangeiros têm
exercido a crítica de forma imparcial, isenta, sem amiguismos,
nem lobbys tendenciosos. Mas há um caminho longo ainda a
percorrermos até nos aproximarmos desse luar que se nos
afigura imprescindível atingir.
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A propósito da Vida, do Mundo
e das pessoas
O
mais importante para mim na Vida é a liberdade, o que é
a mesma coisa que dizer: ter os meus próprios pensamentos e
opiniões, rejeitando qualquer dependência ou sujeição
às opiniões dos outros. Isto é, não viver
em função dos outros, mas sim de mim mesmo, dos meus
sentimentos, dos meus pensamentos, dos meus princípios, das
minhas virtudes e dos meus defeitos. E isto não significa não
aceitar as opiniões dos outros, quando são justas e
coerentes e segui-las, pois, o respeito e o discernimento são
partes importantes da liberdade e que permite a convivência sã
e airosa na sociedade.
A
vida, eu vejo-a como algo, ao mesmo tempo, frágil e forte;
bela e feia; pujante e fraca, mas eu a encaro sempre de forma
positiva e optimista e procuro sempre o melhor que ela tem para
oferecer, das suas múltiplas faces contraditórias. Para
mim, a Vida é bela e deve ser desfrutada em plenitude, com
intensidade; e gosto de viver cada instante do momento presente,
sentir-me bem, pelo que tento afastar tudo que seja mau e que
prejudique o meu espírito e o meu estado de alma. Tudo o que
foi bom para mim no passado pode ser bom no presente. O futuro é
difícil de se predizer, mas espero sempre o melhor dele e para
mim é o prolongamento do presente; é o presente que
prevejo e que já vou preparando tento, no entanto, para estar
preparado para as eventualidades.
Infelizmente,
há muitas pessoas pessimistas e de corações
sombrios e negros que não sabem viver, que não sabem
procurar o melhor da vida e que tentam destruir a felicidade dos
outros, e complicar-te a vida. Como não dependemos cem por
cento de nós mesmos, e temos de conviver com os outros, porque
a vida é feita também dos outros, o que temos de fazer
é tentar minimizar esses contratempos e intensificar a busca e
o desfrutar do que é belo e bom, o que é verdadeiro, o
que é puro, ignorando, inclusive, tudo o que seja mau e
pernicioso e destrutivo.
Infelizmente,
há muitas pessoas de mau carácter, de má índole,
hipócritas e cruéis, com quem temos de conviver, mas,
felizmente, há também pessoas boas e puras que tornam a
nossa vida mais bela e doce e quente, cheia de promessas agradáveis.
Eu
tento evitar tudo o que me cheira a escravidão e escuridão,
tais como a religião, os partidos políticos,
determinados grupos e convivências, e determinados vícios,
procurando sempre a luz, ou o que é passível de
iluminar o meu caminho e a minha vida, tais como boas leituras, boas
músicas, bons entretenimentos, boas convivências e bons
momentos sozinho de paz e de silêncio, sábios e
revigorantes
Evito
ao máximo a tristeza e a depressão e ocupo a minha
mente e o meu dia a dia com coisas gratificantes que me dão
satisfação e prazer, tais como escrever, pintar, sonhar
e viver. Poderia também dizer amar, mas essa premissa é
de raiz dúbia e de essência volátil, pois a sua
dimensão é muito fluida, pelo que às vezes digo
que amo e que o amor existe sim, e sinto-o com todo o meu ser, mas
outras vezes fico atónito perante a imagem que se me apresenta
dele que me leva a pensar que não existe, ou que pelo menos
não existe com a dimensão que a idealizo e que
pressupõe a entrega total e a procura sempre, por todos os
meios, do bem do outro, da pessoa, ou da coisa amada. E isso é
muito difícil porque as pessoas, todos nós, em geral,
somos muito egoístas, e o egoísmo é o amor
próprio, é o narcisismo que existe no nosso ser e que
não nos deixa amar plenamente o outro e entregarmo-nos
completamente; e, por outro lado, há na vida, também,
muitos desencontros, e, se calhar há tendência para as
pessoas amarem sempre as pessoas erradas e daí a complicação,
ou complexidade de que se reveste o amor.
Mas,
sim, amo, amo a natureza, as montanhas, as paisagens, o mar, a
ginástica artística, amo uma boa paródia, um bom
momento de descontracção, de distracção e
lazer, amo a arte, a cultura o meu trabalho e tudo o que faço,
amo fazer amor, enfim, amo muitas coisas boas e bonitas e procuro
sempre rodear-me delas.
E
tudo o que é mau, mesmo os meus piores momentos, e as piores
coisas que me aconteceram, tento encará-los pelo lado positivo
e tento tornar o que foi negativo em positivo, tornando-os como
experiências que me poderão servir futuramente. E penso,
se me apareceram assim é porque estava para ser assim, tinha
de ser assim para que outras coisas acontecessem também como
aconteceram. Eu não me desmoralizo facilmente e tento
enfrentar as coisas com serenidade. Ainda que em determinados
momentos me sinta violentado e revoltado, e me sinta mal, frustrado,
paranóico, deprimido e imprestável, a seguir
mentalizo-me a distanciar-me dessas cruzes, desses infernos,
procurando a luz, a claridade, a felicidade. Só a felicidade,
que é algo difícil de se conseguir, salva o Homem,
porque uma pessoa feliz é meiga, é carinhosa, é
generosa e é altruísta. E quando tudo isso se converge
num punhado de pessoas, à volta dessas pessoas acontecem
coisas boas, haverá bons frutos, e as coisas crescerão,
e o progresso aparecerá e o mundo será melhor, mais
belo e radioso.
Por
isso prefiro a verdade à mentira, a simplicidade ao luxo e à
fatuidade, o amor ao ódio, a bondade à maldade, a
felicidade à infelicidade, a serenidade ao alvoraço, ao
caos.
Enfim,
prefiro um bom “grógu” de um coração
simples e puro ao mais fino e caro Whisky de um coração
sujo e hipócrita.
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