Escolhidos
Ainda
que o dia
me
ame
e
me revele os segredos das
coisas;
que
a solidão não seja esse silêncio de metáfora
confrangedora
aniquilando
a alegria incendiada da paixão
Ainda que o luar me
beije
e
me faça ter sonhos de cristal
iluminado;
que
os corais todos, as conchas todas, o mar
todo
sejam
sussurros de encantos eterno, cósmico e fantástico
Ainda
que a pedra seja canção e
espírito
e
me fale de nebulosas e de elixires mágicos inestimáveis
e
me ilumine por dentro e por fora de sabedoria e clarividência
Ainda
assim
Não
renunciaria nunca
à
voz silenciosa e queda,
plena
de salitre e poesia,
da
minha ilha loira e inerte
Perguntem
à saudade
pelas
lágrimas e pelos sonhos
que
destilei longe destas algas,
destas
águas que me inventaram
E
direi, Ulissesdizendo:
“Mais
vale ser escravo nestas ilhas de sol
do
que rei nas terras da Frígia”.
IV
Procuro.
Sim,
procuro algo
que
em mim existe e não encontro.
Sei
que não será para dentro de mim
que
deverei olhar para encontrá-lo,
apesar
de se encontrar bem dentro de mim
A
neve estremece-se
ao
aperceber-se do meu sentir
Não
tem pudor
nem
pena de mim
Em
neve se torna
A
minha prece
que
pelo chão tomba.
Petrifica-se
súbito
Ao
redor de mim
o
ar.
Ao
que em mim pressente
tem
receio e temor
Por
detrás das nuvens afugenta-se o sol,
ou
melhor, as nuvens e a neve
confabularam-se
para
o sol eclipsarem e poderem assim
sobre
o mundo reinar com os seus véus húmidos e frios.
Chega
o inverno infindo de alva e fria neve.
Sinto-me
triste então e só, solitário e perdido.
O
céu afigura-se-me distante
mas
também um confidente
e
é com ele que falo desta minha alma inquieta.
Do
alto da montanha que me rodeia e me olha muda
Da
extensa planície que se perde no horizonte sem fim
Vem
um alvo odor de serras e de neves cinzas.
Ermo,
desolado e frio; friamente frio,
um
halo escarlate de pura luz
acena-me
então, insistente, por dentro da alma
Paisagens
outras
resplandecentes,
não só de luz, mas de espíritos,
fazem-me
lembrar outros momentos,
outras
estações
longe
desta escuridão, destas sombrias trevas
e
eis que uma estonteante alegria me invade
e
nela bate o coração e a alma
que
é o mundo nesse momento.
os
contornos das rochas amadas
Ah!
Como é bom sentir presente
o
distante mar
e
contemplar de perto.
Bem
dentro de nós
sorver
o seu marulho e aroma.
Em
tal desígnio, já o disse – a própria alma
é o mundo
e
a eternidade o seu corpo inteiro
porque
a vida é um pássaro cuja alma é minha
quando
a luz me inunda por dentro e transborda-se a si mesma.
Perscruto-me,
atento a esses acordes infinitesimais.
Perco-me
nessa fantasia louca de sonhar lembranças
e
desdobro-me em viola e vida, em música lira vida
e
sou, nessa hora, lírio e delírio, mel melodia, canto
encanto.
Ardente
ardo-me nesse instante ardente a recordação presente.
Até
ao futuro – creio eu, e o instante também – a
recordação
há
de sempre chegar, apartando a solidão e a tristeza.
Os
grandes desejos quando ao grande coração chegam
maneiras
mil, engenhos tais para o contentar buscam
e
não há, não haverá corda mais sensível
de tanger
do
que a de um ansioso coração com sonhos do mais além
E
agora sim, desse algo que procuro, sei bem:
Nada
mais é do que o bater do meu coração
Na
corola esférica e lúcida do meu umbigo
por
sobre a minha ilha
(A
luz expande-se sobre o mundo,
sobrevoando neves e
nuvens,
e
estende-me uma ponte
que
vai de mim à minha ilha
no
dorso de um arco-íris alado).
V
A
água, dela mesma nasce,
nela
mesma se alimenta,
nela
mesma se sacia,
Porque
de água sou,
na
água me reconheço
(não
como um espelho e a sua imagem)
como
uma luz que se confunde com outra luz.
Eu
sou uma fonte – sei-o bem –
Não
de água apenas, de sóis múltiplos também,
e,
por assim dizer, digo, e direi ainda,
que
em mim há um estuário absoluto
com
a cor de todos os rios do mundo
onde
o sol – essa luz incomensurável –
se
deita, desenhando figuras geométricas
na
exacta medida em que invento planetas,
flores,
Cosmos,
sons idênticos
e
simétricos sentimentos
Como
água e como sol que sou,
de
mim mesmo me alimento e procrio
e
invento cascatas de luz no escuro das trevas
e
concebo luares de água em inóspitos desertos
e
construo pontes, jangadas, céus e paisagens mil.
Às
vezes passo como um sonho
ou
como um brisa pelas asas de um pássaro
Outras
vezes sou um pesadelo, uma alucinação,
numa
planície louca que é o outro lado de mim
E,
para ser mais explícito, quero confessar aqui
que,
se por dentro trago esse rio onde me bebo e me sacio,
na
mesma proporção sou esse Sahel e esse sol insaciável
que
me consomem inteiramente e não me deixam florescer.
Mas,
assim como uma ameba dela mesma se faz
Assim
eu também me completo – de água e de luz
E
saio a voar, girando como uma nebulosa,
ou
me quedo silencioso,
qual
Oásis sedentário
povoado
de conchas e de estrelas celestiais.
E
assim sigo o meu caminho
Refrescando
a vida,
aclamando
o mundo,
Ponho
melodia nos meus passos,
Encho
de cantos os meus gestos
E
o verbo encontra-se sempre presente,
na
extensão da minha mão,
pronto
para o conforto e a consolação,
esconjurando
a desolação e o pranto do rosto do dia
Na
verdade,
esse
caminho que sigo
sou
eu mesmo e, como caminho que sou,
não
tenho princípio nem fim.
Sobre
mim mesmo caminho incessantemente
e
do pó da minha viagem
nascem
asas que ao céu alcandoram
em
busca de outros destinos,
que
não os da água que sou.
Assim
também a diferença entre a cor original
E
a sua codificação terminal, resultantes do ar e da luz
E
principalmente dos olhos que olham
Fui
ver o mar
E
deparei-me com estrelas e búzios no ar
E
vi que era bom e acreditei que o mundo existe.
Com
os olhos postos no horizonte, para mais perto de mim me encontrar,
Surpreendi-me
a cogitar sobre o ser e o não-ser
Não
propriamente para saber, mas sim para sentir, para perceber
E
é forçoso dizer Tenho que dizer esse lugar comum:
O
tempo mudou
O
mundo mudou, tudo mudou
Tudo
muda a cada instante que passa
Não
porque tem que mudar ou porque de facto mudou
Mas
porque o nosso olhar mudou e tem de mudar
E
eu que me pretendia imutável (?!) Como sou feliz por isso
Por
poder mudar sempre que a mudança não me queira.
Sei
de pessoas que pensam tudo saber
E
entretanto ignoram essa verdade elementar
(O
que é o mesmo que não existir)
E
sinto-me bem por saber que pelo menos isto sei, e existo.
Não
pretendo ser rei nem Deus
Não
desejo ser ave, nem ouro, nem prata
Nem
quero ser sol, nem mar, nem floresta
Contento-me
tão-só em ser eu mesmo e nada mais
Por
isso
Fecho
os olhos ao mundo
E
abro-os dentro de mim
Para
não me perder
No
labirinto que sou.
XII
A
minha língua ao redor de ti
o
sol do teu corpo no sal da minha carne
Como
uma espiga serena entre as minhas mãos
resvalas-te
escrevendo na memória da pele
o
gosto fugitivo da brisa sobre a seda
Vibram
os dedos pelos acordes desse corpo
o
ritmo às vezes lento, às vezes louco
Os
lábios se abrem em doce água
plena
de chamas e de apelos
e
estremeço-me em tal espuma e delírio.
Há
montes nessa terra que me provocam,
Há
bosques nesse lugar que me seduzem,
Há
também fendas e grutas e fogos
que
me reduzem a uma ebulição sanguínea
em
deslumbrada viagem carnal
Ardente
e alheio a mim mesmo
por
este trilho cavalgo eufórico
e
pressinto nessa hora
a
flecha incendiada na boca do arco
e
a quilha que pelo mar navega se ilumina
Arco
e flecha, mar e quilha
Tudo
se mistura num abraço de cal, sal e sol
Tudo
se torna em nascente e poente, ver e sentir
Salivas
e suores afluem sobre os poros
e
as respirações se encontram no ar.
Há
uma dança de peixe no olhar
e
as palavras quedam-se inúteis na soleira da voz
Não
sou mais do que uma sombra
ou
um relâmpago trémulo nessa paisagem de luz
Talvez
seja uma estátua de marfim
levemente
iluminada pelo ímpeto do luar,
ansiando,
entanto, uma onda solar,
não
sei bem, mas sinto, pelo menos
o
silêncio da chama que se propaga
e
a revolução dos pássaros em contorções
pelo ocaso
Bramo
e perco-me nesse sonho, nesse poço quente
sou
fera, sou incêndio na corola dessa fruta lânguida
Teu
corpo é uma tempestade calma
sob
os meus lábios
e
os teus olhos abertos
no
escuro carnívoro
são
duas pérolas na flor do mar vogando
Nas
tuas coxas me deito e me diluo sôfrego,
Uma
corrente percorre-me o ser de lés-a-lés
e
jorra no centro dessa praia sedenta
que
me ofereces no segredo dessa pulsação uníssona
Como
o caudal de um rio maduro,
avanço
por este céu que me envolve
e
invado a ribeira do teu corpo numa cheia lírica
Não
direi que te amo
mas
sim que amamos
a
música dessas folhas que tocamos
e
a luz que se irradia desses cantos
Por
tudo isso
e
mais alguma coisa
ainda
me lembro de ti
(sem
querer este querer)
e
aqueço-me num mar de ágatas
labirinto verde de
estival pomar
Lembro-me
também
(ainda
que tentando esquecer)
dos
olhos teus, ambrósia ardente,
Luz e esmeralda no
azul da tarde,
luar ou celestial
pássaro
por dentro da noite
voando.
e
os beijos soporíferos e quentes
que
tentam esquecer-me
caem
por dentro de mim
qual
orvalho lúcido sobre ansiosa folha
e
uma melodia de sonho
a
alma e o ser todo trespassa
como
uma melopeia de vinho em ambarino cristal e a magia do teu corpo
quente
ante
os meus olhos e as minhas ávidas mãos
fazem-me
lembrar outros virginais momentos
entre
os quais ao luar o teu sorriso
tal
uma flor por dentro da aurora.
Na
Nah Sol Xintádu
IV
Di
dia ó di noti
Ku
klaréza ó ku sukuru
Ku
ligria ó ku tristéza
Kordádu
ó na sónu
Ó
kredu ó ka kredu
Ami
N ta sta sénpri
NA
NHA SOL XINTÁDU
Stendedu
ruba nha tripa
Ku
tudu nha sángi na veia sendedu
Ku
nha folgu konpasádu
Na
konpásu’l mundu
Y
ku nha kurason
Sima
un kanson
Ta
bai na ar
Na
biku d’un pasarinha.
Ka
ten náda más dóxi y más margós
Ki
tene ronku d’un vulkon na mon
Ó
stribilin di tenpestádi na kabésa.
Na
nha sol xintádu
N
ta palpita boitas ki mundu ta da
N
ta ozerba y N ta matuta
Stravagánsia
di bida na ténpu.
Ka
ten stréla na séu
Ki
N ka purba
Ka
ten kónxa na mar
Ki
ka ten nha márka.
Árvis
na txáda
Limárias
na bársi
Pásus
na séu
Y
pexis na mar
Tudu
dja ká sta
Na
nha bilida d’odju
Y
ka ten segrédu
K’es
ka ta konfesa-m
Ka
ten mistériu
K’es
ka ta ofirise-m.
Ku
txoru na pónta dédu
Ku
koru na fiu di kabélu
Xintidu
grándi y álbu
Odju
ku fébri’l mundu
Y
k’un rubera na lingua
Ali-m
li
Na
nha sol xintádu
Déntu’l
nha imajinason sakédu
Ku
nha biku na raís di mar
Y
nha rispirason prindádu na bóka’l txon
Ta
odja y ta xinti
Ta
kre y ta toma
Spritu
d’ómi na téra
Razon
di lus na nha bóka.
Bonbudu
Ku
forsa di distinu
N
lánsa un gritu na béntu
Ki
ka sai di déntu mi
Y
ki bira un florésta
Spadjádu
na nha sángi
Un
lumi nton sende
Pa
déntu mi
Ti
ki tudu mi
N
bira sinza na séu.
Na
nha sol xintádu
N
odja kuzas d’otu mundu
N
obi kuzas ki ka ta fládu
N
sprimenta kuzas bidjáku di konta.
Stikádu
ku forsa’l karis
Konsedjádu
pa spritu’l kan-kan
N
murgudja na kalor di nha pensaméntu
N
trása rumu nha jornáda
Ki
ta kóre di krus di kaminhu
Y
di tudu spinhu ki ta pirsigi-m
Pamó
Kárni
d’ómi
Ka
strumu lonbriga
Y
álma d’ómi
Ka
bonéka midju
Maldádi
N ka kre:
N
ka ta buska-l
N
ka ta da-l
Má,
si distinu
Dja
kre maltrata-m
N
ta seta-l,
Ka
ku álma abértu,
Má
ku bondádi
Na
kelotu ládu di mi.
Di
tudu sinza
Ki
forma déntu’l mi
Nasi
un rubera di lus
Ki
ta skóre di tudu mi
Pa
tudu kenha ki kre.
Na
nha sol xintádu
N
sta xintádu ta xinti-u.
V
Un
ilia e un kabálu
Na
lensol di mar ta pasenta
Y
ami e un ilia
Na
kurason di mundu ta kánta.
Múzika
e un bárku
Na
un spedju ta navega
Y
ami N sabe
Ma
bárku ku spedju
E
mi mé
Na
ténpu ta spéra
Y
dja txiga ténpu
Di
lenbránsas bira águ
Pa
N murgudja n’el
Sima
N ta murgudja na mar
Pamó
frónta di kel muméntu li
Sta
foga-m sen piedádi.
Dja
N kre durmi
Ku
txoru di un violinu na nha péli
Pa
N pode sunha ku otus purfumu.
Dja
N kre torse piskós
Di
tudu sujéza ki sta rodia-m
Pa
N abri armáriu di nha bida
Pa
un otu nasan
Na
undi sol ta brilia mé
Y
lua ta sta sénpri kontenti.
Dja
N kre na lixu bota
Tudu
podridon des ténpu ki ka pása
Pa
N pode sta linpu
Pa
es vinhu d’oru
Ki
sta sunha ku mi
Tudu
bóka’l tárdi
Ó
ki amor ta sta na ar ta festeja.
Segrédu
divinu e mai di distinu
Y
distinu nos bida e segrédu divinu
Ó
ki nu tropesa na kaminhu
E
difisil nu sabe
S’e
distinu ki stába si trasádu
Ó
s’e nós ki skodje mau kaminhu
Anós
e sónbra di nós kaminhu
Y
nós kaminhu e un pásu pa nós distinu
Má
kaminhu e txeu pa kenha ki kre
Nu
ka debe dizanima nunka na nós djuguta
Si
nu ka pode ndreta un kaminhu
Otu
kaminhu e nós distinu sigi
Sima
flor di kána na madrugáda
E
si k’e bida nes mundu.
VI
Ku
marezia na Kósta
N
txiga glória;
Ku
serénu di parmanhan
Na
odju
N
txiga kelotu lén.
Vérbu
N kre na bóka
Pa
N pode xinti u ki N sa ta xinti
Y
fla
Nhos
odja,
Nhos
ta átxa
Txuba
na pédra
Y
pédra na dia
Ta
nase na rubera
Nhos
odja
Árvi
ku sonhu di ávi
Y
ponba ku biku di pédra
(
pamó tudu kuza n’es mundu
e
sima un róda na séntru di un pórta)
Si
nhos kre obi silénsiu di nha bóka
Ki
sta xeiu di vérbu ngasgádu
Nhos
abri nhos nérvu na béntu
Nhos
pensa na nhos skelétu
Ó
ki séu ben buska-l
K’un
prátu di sol na se mon
Un
krus sta na nha tésta
Ku
sinal di vós na se róda
Sal
y sángi dja mistura ku txoru
Y
es sta ta arde na bóka d’un búziu
Sima
lumi na pónta di un fós.
N
sta obi flauta ta lenbra-m
Múzika
di otu simenti
Ki
na óra di nase ta pari
N
tene un toru na nha petu
Y
un pexi na nha álma
Ala
un péna ta bua
Pa
bá nkontra k’un burbuléta
Un
óvu sta xintádu n’un ósu
Ta
pensa na koku k’e ta ser manhan
Dj’e
tene odju y áza
Y
dj’e kre txiga mar
Folia
di mar, folia d’amor
Kabálu
di nha fantazia
Na
spiga di nha dizeju
Práta
bránku di son serénu
Un
fonti di árvi di ligria
E
mi na txuba ta bádja
Téra
ó béntu
Pó
ó maré-xeia
Azul
na azul ki ka ten
Y
pádja di kor di sinza
Tudu
djunta na lásu d’un kórda
Pa
bira areia na rol di mar
Nha
korpu e un korbu sen lus
Má
e un infinitu tanbé
Ku
sángi di un eklipsi disfarsádu
Nha
korpu e un ónda na lus di lua
Y
nha kurason e un orbádju na fiu di txuba
Flor
di mar, fómi d’amor.
Infinito
Delírio
IV
Há um
emaranhado de versos no emaranhado dos teus gestos que não
consigo decifrar. Há uma pedra que te forma, sinto, quando
vejo que tu és apenas um muro líquido sobre o horizonte
invisível.
A montanha, por onde
mergulho a minha prece; o vento que me leva ao início do
mundo; a onda, mais forte, sobre a qual vogo, como uma balsa
incandescente, até ao oceano infinito; o sol que espalha o
seu manto róseo-amarelado, e que me seduz; o próprio
mar que me embala e me adopta; a espuma que me beija, me acaricia, e
com quem faço amor... Tudo isso, mais alguma coisa, não
passa da tua presença bem dentro de mim, quando a memória
é uma parcela de um tempo presente e real.
Olho-te. Os teus olhos
são dois pássaros negros distanciando-se no horizonte
púrpura. Gostaria de saber o que fizeste com o sol doirado que
um dia te ofereci, mas vejo que o teu rosto se tornou numa esfinge
milenar. Há múmias aladas povoando os teus sonhos. Uma
constelação de símbolos dorme ao teu lado e eu
não me atrevo a alvoraçar esse espaço e esse
momento. Aliás, sinto que o teu corpo é uma cidade de
arquitectura estranha e que o teu espírito é um
satélite florescente pronto para o galope.
Como chegar-me então
a ti, afagar-te a cabeleira floreada, desfalecer-me nesses teus
lábios sôfregos ou penetrar-te, como uma luz invadindo o
escuro (?), se já és uma crisálida ao vento ou
uma imagem fugaz num espelho adormecido.
De qualquer forma,
agora já nada importa, e amanhã estarei aqui novamente
no cume dessa falésia para te contemplar.
Talvez um impulso mais
ousado, ou um apelo mais veemente, ou uma batida mais forte do
coração, ou o teu olhar insistente, bem dentro de mim,
me faça oscilar nessa brisa mais guerreira, e, de braços
abertos, no vácuo despenhar-me ao teu encontro, até me
desfalecer de todo nos teus braços de vento. Ou, então,
quiçá, eu atenda os búzios e a lua e me quede
neste mesmo lugar, petrificado como uma estátua feliz,
contemplando todas as auroras do mundo.
Talvez ...
VII
Falanges acaso? Dedos
porventura? Ou mãos apenas sobre o rosto, sobre o corpo, sobre
a água vogando? Um fogo que te penetra, que te inunda as
vértebras e fala de coisas simples e sublimes e fala-te de
sóis e espirais e de um cometa longínquo em parto?
Falanges acaso? Ou
bosques espessos, perpétuos e transparentes como um cristal de
luz sobre a água? Ou vozes apenas!? Sim, voas por dentro das
vísceras, por dentro do escuro inominado, por dentro da noite,
por dentro da vida que se espanta, por dentro de mim?
Dedos porventura? Ou
imaginação apenas de um toque, de uma valsa, de uma
investida silenciosa, mas indefinível: de muitos braços,
de muitos lábios, de múltiplos sentidos?
Durmo por dentro da
tua boca e ressuscito-me dentro de ti. Brilho-me nos teus olhos como
uma estrela na periferia da noite. É preciso limpar esse pó
que se assentou sobre esse medo de te deixares devorar ou de te
brilhares com as monossílabas, com os segredos sussurrados ao
pé do ouvido.
Eis as minhas
falanges, os meus dedos, as minhas mãos e a minha voz ao
redor de ti, por dentro de ti: banha-te neles. Põe de lado o
temor e penetra por dentro deles e vive neles até te tornares
numa rosa, num canto ou no esplendor de uma madrugada.
Não há
delírios, não há êxtase mais doce do que
dois olhares gémeos, ou o palpitar simultâneo de dois
corações bebendo-se, um ao outro, devorando-se, um ao
outro, crepitando-se, semeando-se e colhendo-se na mesma haste, na
mesma flor.
VIII
Amanhece em cima e em
baixo. Amanhece ao redor de mim.
Vogo numa ilha que é
um pedaço de mim e não há forma de me encontrar
comigo mesmo.
Há um farol
postado no meu coração e um candeeiro imóvel
na minha mão. Mas a claridade que me ilumina vem de mim mesmo
e não há forma de me libertar dela.
Há um jogo de
punhais à volta de mim. Há uma neve líquida
suspensa sobre a minha cabeça, e, no meu crânio, uma
galáxia galopa fugazmente.
De lá do
infinito perscruto o mar. É verde. É fluorescente.
É um corpo inteiro, silencioso, que me envolve. Pressinto o
seu diálogo comigo e deixo-me envolver até ao infinito.
Sou transparente e
transponível agora, como uma lâmina de água
sobre uma lamela de luz.
Há risos que me
inundam. Há febres que me encharcam a voz. Há raízes
que me povoam; há carícias que se atomizam num cálice
roxo sobre os lábios. E há uma pérola que baila
ao redor de mim com o brilho de uma ninfa.
Amanhece em cima e em
baixo. Amanhece ao redor de mim. Sou uma ilha no centro de um cometa.
Sou uma galáxia viajando ao sol.
Há um vulcão
sonhando por debaixo das minhas pálpebras, e, bem dentro da
retina, existe este canto longo ao dia que me vem visitar.
A lua e o mar, após
a vertigem da noite anterior, permanecem exangues, latejando,
contudo, bem dentro das minhas veias. Atearam-me um fogo
inextinguível, por todo o corpo, no breve instante que se
amaram.
Durmo e acordo-me
nesse amanhecer sonâmbulo para te beber por inteiro,
entrando-me pelas tuas vagas entreabertas como o amarelado solar
afundando-se no horizonte crepuscular.
Sonho-me nesse
instante: uma flor à chuva querendo ser abelha.
E perco-me nesse mel
que me ofereces.
IX
As nuvens oscilam
docemente, com os braços abertos e a boca aberta, dormindo sob
a toada constante das ondas que invadem o horizonte. Uma folha
estremece com a manhã despertando e esvoaça silenciosa
pela neblina doirada da lua, como um barco numa espuma veloz, e vai
pousar sobre o sono desperto do tempo.
Uns olhos, do tamanho
do mundo, mas tão transparentes quanto o céu, ou a
água num cântaro, espreitam o amanhecer sereno.
O mar, num embalo
interminável, invade-me o coração e espraia-se
por todo o meu corpo, num movimento de ondas, algas, conchas e
búzios que põem salmos e cantos inomináveis na
minha boca.
Chamo os astros e o
vento; conclamo o tempo e as marés para me acompanharem nessa
investida que prenuncio às coisas ditas e às estações
interditas. E agora não há forma de parar esse fluxo
que, num impulso de chuva branca e cristalina, molda as feições
da manhã.
Deixo-me levar por
essa brisa enfeitiçada e mergulho-me num emaranhado de
vozes e de suaves cabelos.
Há uma música
que floresce desse toque breve dos meus dedos por entre essas ervas
comestíveis, e enveredo-me pelo trilho dos pássaros
sonoros em nidificação. Um vapor de cinza e de fábulas
alevanta-se ao redor do dia.
Encontro-a: uma flor
rubra numa concha de luz pronta para a viagem.
Num costado de sal,
sobre o dorso de uma baleia, balouçamo-nos até à
última gota de pedra da ilha arrebatada à rocha. A vida
estende-se latente nesse berço flutuante.
Oiço-me através
do tempo caminhando.
Das mãos
nascem-me algumas montanhas e uns quantos versos que se vão
postar sobre essa floresta marinha e bem à porta dessa caverna
que me encanta.
Há um sopro
salgado que se solidifica ao sol. Construo umas quantas escadas no ar
e trepo até ao cume desse pomar aquático feito de
ondas e de espumas galopantes sobre uma fogueira incendiada.
Sou uma pirâmide
primaveril ao sabor do vento.
Sou uma maré
cheia em quarto crescente sobre o jardim escancarado.
Semeio-me e colho-me
num tom doirado de gota evaporando-se sobre a pele. Há um poro
aberto na carne que me sorve. E sôfrego, desabo-me nesse rio
que me inunda, para me tornar numa chama louca serpenteando em
uníssono com essa outra chama que se esculpe movediça
sob o meu corpo que se funde com o sol, com o mar, com a montanha,
com as vagas.
E somos nessa hora a
revelação, o génesis, ao pé do mar.
X
Um pássaro
habita uma fruta que habita o meu ser.
Quando o pássaro
canta, todas as minhas veias se inflamam e surge uma chama sobre o
mundo.
Do canto desse
pássaro, há ovos que se abrem numa flor donde nascem
aves que voam por dentro de mim e acabam por pousar sobre a fremência
do meu coração. E todas as vezes que comigo me
desencontro, voo eu por dentro dos pássaros para ir dormir no
colo de uma flor que está sempre à minha espera, com as
pétalas todas iluminadas como uma concha transparente ao sol.
E é nesse
momento que sinto o Cosmos bem dentro de mim e uma vontade de ser
brisa ou espuma sobre o mundo. E como uma melodia no ar quedo-me eu,
suspenso no tempo, sonhando por dentro de mim a lua e o luar que um
dia fui à porta de vénus.
E sou nessa hora o
gérmen de uma lembrança futura expandindo pelos quatro
cantos do tempo, sobre o mundo, como uma nebulosa à luz do
sol.
E não há
palavras para nomear este delírio de cores que inunda o meu
olhar por dentro de mim anulando assim todo o resto que permanece
para além da retina sobre o mundo.
XI
Eu estou dentro de mim
e o teu ventre dentro do meu coração.
Fragmento-me e
olvido-me de mim mesmo.
Tudo o que existe,
existe dentro de mim.
Sonho-me por dentro de
mim e uma enseada verde se forma por entre as minhas costelas.
Olho a paisagem
longínqua e as árvores que se alongam pelo céu e
vejo-me a correr por entre brumas e uma sombra densa perseguindo-me.
Algo mais se insinua
em doirado no horizonte. Não sei o que é, mas pressinto
que são outros olhos florindo rente ao solo.
Alguém mais se
encontra dentro de mim. Não sei quem é, mas
perscruto-lhe a voz e vejo que veio de longe. Aliás, de muito
tempo atrás, do Éden, ou do centro de uma maçã.
Estendo os braços,
que se transformam em raízes e percorrem o dia em busca de
sol, e sinto que sou, nessa hora, um rio de múltiplos
afluentes bebendo o brilho das coisas.
Estou dentro de um
livro e sou um anel de fogo ao redor de uma sombra viva invadindo o
ocidente e o oriente; sou um gérmen no círculo de uma
flauta. Há uma melodia que me atravessa o peito e transborda
no meio de um relâmpago de sal povoado de trovoadas de gelo.
Há o chão.
Há a luz. Há o oiro. Há a vida. Existes
certamente como um fio de água que se corrompe e se perde no
ar, qual luz ao sol, ou um magnésio pelo solo.
Há também
essa voz que é nossa e que se tornou num só corpo
habitável e apetecível. Há as estrelas ao redor
dos pólos, quais cristais de neve seduzindo o dia branco e
claro. Há essa reverberação cósmica que
se insinua por dentro da nossa respiração e invade o
nosso olhar. E, vindo não sei donde, vejo-a descendo numa
cascata de espuma azul, com os seus olhos de algas e a sua boca de
fruta madura. É um orvalho branco no horizonte transparente
que desce sobre um Arco-Íris negro que se perde pela enseada
verde, ao sol.
Vem com os braços
em ondas e o corpo em dunas saltando o muro de séculos que nos
separam – os cabelos em ramos e folhas esvoaçando pelo
tempo.
Um castelo e uma torre
surgem do nada e um império inflama-se numa bolha de
cristal, através dos beijos soltos sobre o mundo que se
multiplicam em jardins.
Sei agora que me veio
buscar para me levar nas asas de uma nuvem até ao reino dos
sentidos. Veio do mar atravessando pinhais de estrelas douradas e
punhais de ventos irados. Encontrou-me a dormir e deitou-se por
dentro do meu sono povoando-o de mistérios.
E quando sonhei, ela
fingiu que era um sonho também a percorrer a noite, e, lá
bem no fundo de mim, me ofereceu essa maçã que sempre
trago presa na garganta. E quando acordei e encontrei-a ao meu lado,
com uma folha de lírio vermelho sobre o púbis, soube
que estava perdido e que nunca mais voltaria aos meus sonhos
marítimos por dentro de mim.
XII
Mas,
os sonhos vêm-me do estômago e o medo vem de dentro de
mim – das raízes subterrâneas desses sonhos que me
habitam.
A noite e o vazio não
são nada sem mim – não existem sem a minha
invenção.
Mas, quando a noite se
torna numa seta luminosa caindo no meu regaço, eu torno-me
numa cascata muda entre o horizonte e o sol.
Mesmo sendo a cidade
uma pirâmide de vozes ao vento, eu não deixarei de ser
um círculo de luz à volta de uma fogueira, porquanto,
entre o meu umbigo e o centro da cidade, existe essa cordilheira
voraz de cor e de maresia que nos consome a todos.
A manhã quando
se levanta ao pôr do sol nascente, o azul da memória
transborda-se num cálice de pura luz que se espalha pelo
infinito, em delirium de sonhos e de corais
Eis o canto solsticial
da aurora:
Neve lívida
sobre incandescente lava; gotas de fumo à fronte da tarde.
Sou! Sim, sou!
Chove por dentro de
mim: suor, seios, sexos.
Voa ao ritmo de uma
borboleta, azul, a cinza de um coração amando. Sim,
tudo dentro de mim.
Há a chama de
um corpo que ficou sob o tacto das mãos decepadas pela hora
que passou.
Basáltico é
o travo, amargo, só, do corpo apagado, e da luz que se
esqueceu dos olhos.
Lírica lira é
a madrugada sonhando com os teus lábios de vento e maresia
consumindo-me.
se viesses agora
rasgaria a fome deste
quarto
nestes dedos suados de
solidão!
Um sopro, ou uma
respiração no ar, é tão leve, tão
ténue quanto uma gota de água que se perde na imensidão
do mar.
Uma borboleta e a sua
fugacidade de cores são tão efémeras quanto a
beleza de uma flor ao romper da aurora.
Um vidro que se parte,
uma agulha que se perde, um sorriso que se desvanece, um sonho que se
acaba, ou uma ilusão que se desfaz são coisas tão
simples, tão frágeis – até mesmo o bater
do coração, que de repente pára; a carne que se
apodrece e se desintegra em pó; os olhos que deixam de ver,
as mãos que deixam de pegar, os pés que deixam de
andar, a alma que deixa de viver – enfim, tudo na vida,
inclusive a vida –, são frágeis seres, apesar das
suas infindáveis potencialidades de serem infinitas
fortalezas.
Enfim, tudo e todos
somos tudo e nada e vice-versa. Uma só palavra, um só
gesto, uma só atitude, tanto pode destruir-nos como
salvar-nos; através de um pensamento, podemos encontrar o
paraíso, o infinito, ou o inferno, ou o abismo.
Enfim...
Tudo não passa
de um INFINITO DELÍRIO
Kansons
pa Bó
I
Nha vós N manda-l
na béntu
Ku rakumendason p’e
txiga bu petu
P’e nkosta na bu
ragás ku mansidon.
Nha beju gó N
dexa-l na ténpu
Pa óki bu kre pa
bu bai panha-l
Pa bu prova-l, k’e
pa bu álma pode guarda-l
Y pa nunka más bu
ka skesi di mi nes mundu
Nhas sentiméntus -
tudu nha vontádi y dizeju
N dexa-s stendedu na
lensól azul di mar
Pa óki lúmi
di amor na korpu sende-u
Pa bu deta n’el pa
bu nburdja ku-el na ar
Pa nunka más bu ka
txora di amor nes mundu
Y ami, ami N sta li, pa
tudu bánda spadjádu
Ta spera pa bo, ku tudu
nha xintidu sendedu.
II
N djobe mar, N djobe séu
N djobe sól, N
djobe lua
N odja bu odju na nha
sonhu
N xinti bu bóka na
nha speránsa
N sta mi só, N sta
pensa na bo
N sta mi só, N sta
kre sta ku bo
Na álma, un rozera
di amor dja nase-m
Y un jardin di glória,
nha kurason dja alegra-m
Pa nha dianti, N odja bu
róstu
Na nha mon, N odja bu
korpu
N pidi mar , N pidi séu
N pidi lua, N pidi
strélas
P’es ka dexa-u bai
bu kaminhu
P’es ka dexa-u
dexa-m mi só
III
Un dia bu djobe-m ben
déntu di nha odju
Un mundu kuluridu di
floris disponta
Y N odja na bu odju
prumésa di un beju
Ki fazi strélas y
séu na sukuru límia
Má, dipos, es
prumesa bu dexa-l na ténpu
Y un véu di dor
ben nsombra-m nha korpu
Y agora N fika sen sabi
Pamódi ki bu odju
ta ofirise-m tudu es paraízu
Má bu mon ka ta
da-m ninhun karinhu
Pamódi ki bu odju
ta mostra-m m’e kre-m ?
Y bu bóka ta fla-m
ma bu ka meste-m ?
Si bu álma e
grándi y bu spritu tamánhu
Si
bu sentimentu e di verdadi y bu prumésa e sinséru
Ka bu dexa bóka y
iluzón di mundu ngana-u
Longa-m bu róstu,
longa-m bu mon, longa-m bu korpu
Pa bu podi xinti-m, pa N
podi xinti-u
Pa nu konxi glória
di un moméntu nu ser un só.
Áli nha
rispirason, toma-l bu mustura-l ku di bo
Pa N pode ser di bo, pa
bu podi ser di meu.
IV
Sima un punhal di sól
riba nha róstu
E si k’e nha
ansiedade di odja-u
La lonji, kuáji la
na infinitu
N prisinti bu imájen
ta ben
Má dja bu dura
tantu, tantu ku txiga
Ki tudu mi dja bira sinza
Un lua kláru di
orbádju riba nha bóka
E bu kurason ta bati pa
dentu di di-meu
Enkuantu nos odju ta
nkontra ku kunpanheru
Noti bai, dia ben
Tudu floris des mundu
Disponta na séu
dianti’l mi
Y e spádja pa tudu
ládu kontenti
Éra bo ki N xinti
ta txiga
N’un padás
di béntu suávi y dóxi
Ki kánba pa déntu
di nha álma
N pensaba ma éra
bo ki staba ta txiga
Má nau, e ka si
mé, e só nha vontadi di odja-u
Ki staba ta brinka ku mi,
ta ngana-m des manera
Ó ki dizeju e
grandi dimás
Tudu kuza e pusível
pa ke-m ki kre
Amor ta fika sen midida,
ta kema na petu
Y xintidu ta nbrása
kenha ke kre
Ku se brasu di txuba y
marezia
Má ki diziluson y
dizanimason
Bu kurason sta la lonji
na núvens
Ta sunha ku otus strélas
y lus des mundu.
V
Pruméru bes ki N
odja-u
Bu éra pa mi un
pasarinha
Na séu ta bua
Dipos, kantu N konxe-u
Bu bira un burbuléta
perfumádu
Na lus di sol ta sunha
Gósi, óki N
djobe-u
N ta odja un enkantada
mimóza
Ta ri ku mi sima un sánta
Bu surizu, na nha róstu
Dja ben mora
Un padás di bo, na
nha petu
Dja ben fika
Si bo e un fitisera ó
un ánju
N ka sabe fla
Só N sabi ma bo e
un róza floridu
Ki dja abri pa déntu
di nha odju
Y ma, ami, dja N ka mi
más
Na des ki bu djobe-m pa
prumeru bes
VI
La na fundu di nha petu
La ben déntu di
nha kurason
Ben kaládu na
solidon di nha álma
Y más ben fitxadu
inda na nha sentiméntu
N ten kel speránsa
li
Ma un dia, un dia des
mundu,
Nen ki seja un minutu, ó
só un sugundu,
Bu ta dexa lus di bu odju
na nha odju
Bu ta dexa-m nbrasa-u ku
tudu nha ligria
Inda ki N móre di
amor y di dor
Só di sabi mes ta
djobe-m sen ser di meu.
Má, ami dja-m kre
ten es speransa li,
(Si kre N móre di
disgostu di sabi ma nunka N ta te-u),
Ma un dia N ta rasusita
na flor di bu petu
Ó ki bu djobe-m ku
es bus odjus serenu
Y bu dexa bu bóka
abri pa mi n’un surizu divinu.
VII
Ben,
nha amor, ben dja kretxeu
Dexa-m nkosta bu róstu
dóxi na nha petu
Pa bu xinti es nha
kurason k’e di bo
Ta solusa di dor y ta
txora di sodádi.
Ó flor di séu,
ó sonhu di amor
ka bu dexa glória
des mundu fúji di nos
ka bu dexa-nu móre
sen nu xinti filisidádi
di nu perdi di lokura un
dentu’l d’otu
Ó róza
divinu, ó kretxeu di nha álma
Fitxa kes bus odjus di
paraízu
Bu abri bu álma
pa es sentiméntu
sen midida
Óki nha bóka
nkosta na bu obidu
ku palávras di
kurason.
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