Quantcast Danny Spinola poemas escolhidos - AfricaYou CV
     
     


Poemas

Escolhidos



Ainda que o dia

me ame

e me revele os segredos das

coisas;

que a solidão não seja esse silêncio de metáfora

confrangedora

aniquilando a alegria incendiada da paixão


Ainda que o luar me

beije

e me faça ter sonhos de cristal

iluminado;



que os corais todos, as conchas todas, o mar

todo

sejam sussurros de encantos eterno, cósmico e fantástico


Ainda que a pedra seja canção e

espírito

e me fale de nebulosas e de elixires mágicos inestimáveis

e me ilumine por dentro e por fora de sabedoria e clarividência

Ainda assim

Não renunciaria nunca

à voz silenciosa e queda,

plena de salitre e poesia,

da minha ilha loira e inerte


Perguntem à saudade

pelas lágrimas e pelos sonhos

que destilei longe destas algas,

destas águas que me inventaram


E direi, Ulissesdizendo:

Mais vale ser escravo nestas ilhas de sol

do que rei nas terras da Frígia”.







IV



Procuro.

Sim, procuro algo

que em mim existe e não encontro.


Sei que não será para dentro de mim

que deverei olhar para encontrá-lo,

apesar de se encontrar bem dentro de mim


A neve estremece-se

ao aperceber-se do meu sentir


Não tem pudor

nem pena de mim

Em neve se torna

A minha prece

que pelo chão tomba.


Petrifica-se súbito

Ao redor de mim

o ar.


Ao que em mim pressente

tem receio e temor

Por detrás das nuvens afugenta-se o sol,

ou melhor, as nuvens e a neve

confabularam-se

para o sol eclipsarem e poderem assim

sobre o mundo reinar com os seus véus húmidos e frios.

Chega o inverno infindo de alva e fria neve.

Sinto-me triste então e só, solitário e perdido.

O céu afigura-se-me distante

mas também um confidente

e é com ele que falo desta minha alma inquieta.


Do alto da montanha que me rodeia e me olha muda

Da extensa planície que se perde no horizonte sem fim


Vem um alvo odor de serras e de neves cinzas.

Ermo, desolado e frio; friamente frio,

um halo escarlate de pura luz

acena-me então, insistente, por dentro da alma

Paisagens outras

resplandecentes, não só de luz, mas de espíritos,

fazem-me lembrar outros momentos,

outras estações

longe desta escuridão, destas sombrias trevas

e eis que uma estonteante alegria me invade

e nela bate o coração e a alma

que é o mundo nesse momento.

os contornos das rochas amadas

Ah! Como é bom sentir presente

o distante mar

e contemplar de perto.

Bem dentro de nós

sorver o seu marulho e aroma.


Em tal desígnio, já o disse – a própria alma é o mundo

e a eternidade o seu corpo inteiro

porque a vida é um pássaro cuja alma é minha

quando a luz me inunda por dentro e transborda-se a si mesma.

Perscruto-me, atento a esses acordes infinitesimais.

Perco-me nessa fantasia louca de sonhar lembranças

e desdobro-me em viola e vida, em música lira vida

e sou, nessa hora, lírio e delírio, mel melodia, canto encanto.

Ardente ardo-me nesse instante ardente a recordação presente.

Até ao futuro – creio eu, e o instante também – a recordação

há de sempre chegar, apartando a solidão e a tristeza.


Os grandes desejos quando ao grande coração chegam

maneiras mil, engenhos tais para o contentar buscam

e não há, não haverá corda mais sensível de tanger

do que a de um ansioso coração com sonhos do mais além

E agora sim, desse algo que procuro, sei bem:

Nada mais é do que o bater do meu coração

Na corola esférica e lúcida do meu umbigo

por sobre a minha ilha

(A luz expande-se sobre o mundo,

sobrevoando neves e nuvens,

e estende-me uma ponte

que vai de mim à minha ilha

no dorso de um arco-íris alado).



V


A água, dela mesma nasce,

nela mesma se alimenta,

nela mesma se sacia,

Porque de água sou,

na água me reconheço

(não como um espelho e a sua imagem)

como uma luz que se confunde com outra luz.

Eu sou uma fonte – sei-o bem –

Não de água apenas, de sóis múltiplos também,

e, por assim dizer, digo, e direi ainda,

que em mim há um estuário absoluto

com a cor de todos os rios do mundo

onde o sol – essa luz incomensurável –

se deita, desenhando figuras geométricas

na exacta medida em que invento planetas,

flores,

Cosmos, sons idênticos

e simétricos sentimentos


Como água e como sol que sou,

de mim mesmo me alimento e procrio

e invento cascatas de luz no escuro das trevas

e concebo luares de água em inóspitos desertos

e construo pontes, jangadas, céus e paisagens mil.


Às vezes passo como um sonho

ou como um brisa pelas asas de um pássaro


Outras vezes sou um pesadelo, uma alucinação,

numa planície louca que é o outro lado de mim


E, para ser mais explícito, quero confessar aqui

que, se por dentro trago esse rio onde me bebo e me sacio,

na mesma proporção sou esse Sahel e esse sol insaciável

que me consomem inteiramente e não me deixam florescer.


Mas, assim como uma ameba dela mesma se faz

Assim eu também me completo – de água e de luz

E saio a voar, girando como uma nebulosa,

ou me quedo silencioso,

qual Oásis sedentário

povoado de conchas e de estrelas celestiais.

E assim sigo o meu caminho

Refrescando a vida,

aclamando o mundo,

Ponho melodia nos meus passos,

Encho de cantos os meus gestos

E o verbo encontra-se sempre presente,

na extensão da minha mão,

pronto para o conforto e a consolação,

esconjurando a desolação e o pranto do rosto do dia


Na verdade,

esse caminho que sigo

sou eu mesmo e, como caminho que sou,

não tenho princípio nem fim.

Sobre mim mesmo caminho incessantemente

e do pó da minha viagem

nascem asas que ao céu alcandoram

em busca de outros destinos,

que não os da água que sou.



Assim também a diferença entre a cor original

E a sua codificação terminal, resultantes do ar e da luz

E principalmente dos olhos que olham


Fui ver o mar

E deparei-me com estrelas e búzios no ar

E vi que era bom e acreditei que o mundo existe.


Com os olhos postos no horizonte, para mais perto de mim me encontrar,

Surpreendi-me a cogitar sobre o ser e o não-ser

Não propriamente para saber, mas sim para sentir, para perceber

E é forçoso dizer Tenho que dizer esse lugar comum:

O tempo mudou

O mundo mudou, tudo mudou

Tudo muda a cada instante que passa

Não porque tem que mudar ou porque de facto mudou

Mas porque o nosso olhar mudou e tem de mudar

E eu que me pretendia imutável (?!) Como sou feliz por isso

Por poder mudar sempre que a mudança não me queira.


Sei de pessoas que pensam tudo saber

E entretanto ignoram essa verdade elementar

(O que é o mesmo que não existir)

E sinto-me bem por saber que pelo menos isto sei, e existo.

Não pretendo ser rei nem Deus

Não desejo ser ave, nem ouro, nem prata

Nem quero ser sol, nem mar, nem floresta

Contento-me tão-só em ser eu mesmo e nada mais

Por isso

Fecho os olhos ao mundo

E abro-os dentro de mim

Para não me perder

No labirinto que sou.


XII


A minha língua ao redor de ti

o sol do teu corpo no sal da minha carne


Como uma espiga serena entre as minhas mãos

resvalas-te escrevendo na memória da pele

o gosto fugitivo da brisa sobre a seda


Vibram os dedos pelos acordes desse corpo

o ritmo às vezes lento, às vezes louco


Os lábios se abrem em doce água

plena de chamas e de apelos

e estremeço-me em tal espuma e delírio.

Há montes nessa terra que me provocam,

Há bosques nesse lugar que me seduzem,

Há também fendas e grutas e fogos

que me reduzem a uma ebulição sanguínea

em deslumbrada viagem carnal


Ardente e alheio a mim mesmo

por este trilho cavalgo eufórico

e pressinto nessa hora

a flecha incendiada na boca do arco

e a quilha que pelo mar navega se ilumina


Arco e flecha, mar e quilha


Tudo se mistura num abraço de cal, sal e sol

Tudo se torna em nascente e poente, ver e sentir


Salivas e suores afluem sobre os poros

e as respirações se encontram no ar.

Há uma dança de peixe no olhar

e as palavras quedam-se inúteis na soleira da voz


Não sou mais do que uma sombra

ou um relâmpago trémulo nessa paisagem de luz


Talvez seja uma estátua de marfim

levemente iluminada pelo ímpeto do luar,

ansiando, entanto, uma onda solar,

não sei bem, mas sinto, pelo menos

o silêncio da chama que se propaga

e a revolução dos pássaros em contorções pelo ocaso


Bramo e perco-me nesse sonho, nesse poço quente

sou fera, sou incêndio na corola dessa fruta lânguida


Teu corpo é uma tempestade calma

sob os meus lábios

e os teus olhos abertos

no escuro carnívoro

são duas pérolas na flor do mar vogando


Nas tuas coxas me deito e me diluo sôfrego,

Uma corrente percorre-me o ser de lés-a-lés

e jorra no centro dessa praia sedenta

que me ofereces no segredo dessa pulsação uníssona


Como o caudal de um rio maduro,

avanço por este céu que me envolve

e invado a ribeira do teu corpo numa cheia lírica


Não direi que te amo

mas sim que amamos

a música dessas folhas que tocamos

e a luz que se irradia desses cantos


Por tudo isso

e mais alguma coisa

ainda me lembro de ti

(sem querer este querer)

e aqueço-me num mar de ágatas

labirinto verde de estival pomar

Lembro-me também

(ainda que tentando esquecer)

dos olhos teus, ambrósia ardente,

Luz e esmeralda no azul da tarde,

luar ou celestial pássaro

por dentro da noite voando.

e os beijos soporíferos e quentes

que tentam esquecer-me

caem por dentro de mim

qual orvalho lúcido sobre ansiosa folha

e uma melodia de sonho

a alma e o ser todo trespassa

como uma melopeia de vinho em ambarino cristal e a magia do teu corpo quente

ante os meus olhos e as minhas ávidas mãos

fazem-me lembrar outros virginais momentos

entre os quais ao luar o teu sorriso

tal uma flor por dentro da aurora.




Na Nah Sol Xintádu


IV


Di dia ó di noti

Ku klaréza ó ku sukuru

Ku ligria ó ku tristéza

Kordádu ó na sónu

Ó kredu ó ka kredu

Ami N ta sta sénpri

NA NHA SOL XINTÁDU

Stendedu ruba nha tripa

Ku tudu nha sángi na veia sendedu

Ku nha folgu konpasádu

Na konpásu’l mundu

Y ku nha kurason

Sima un kanson

Ta bai na ar

Na biku d’un pasarinha.


Ka ten náda más dóxi y más margós

Ki tene ronku d’un vulkon na mon

Ó stribilin di tenpestádi na kabésa.


Na nha sol xintádu

N ta palpita boitas ki mundu ta da

N ta ozerba y N ta matuta

Stravagánsia di bida na ténpu.


Ka ten stréla na séu

Ki N ka purba

Ka ten kónxa na mar

Ki ka ten nha márka.


Árvis na txáda

Limárias na bársi

Pásus na séu

Y pexis na mar

Tudu dja ká sta

Na nha bilida d’odju

Y ka ten segrédu

K’es ka ta konfesa-m

Ka ten mistériu

K’es ka ta ofirise-m.


Ku txoru na pónta dédu

Ku koru na fiu di kabélu

Xintidu grándi y álbu

Odju ku fébri’l mundu

Y k’un rubera na lingua

Ali-m li

Na nha sol xintádu

Déntu’l nha imajinason sakédu

Ku nha biku na raís di mar

Y nha rispirason prindádu na bóka’l txon

Ta odja y ta xinti

Ta kre y ta toma

Spritu d’ómi na téra

Razon di lus na nha bóka.


Bonbudu

Ku forsa di distinu

N lánsa un gritu na béntu

Ki ka sai di déntu mi

Y ki bira un florésta

Spadjádu na nha sángi


Un lumi nton sende

Pa déntu mi

Ti ki tudu mi

N bira sinza na séu.


Na nha sol xintádu

N odja kuzas d’otu mundu

N obi kuzas ki ka ta fládu

N sprimenta kuzas bidjáku di konta.


Stikádu ku forsa’l karis

Konsedjádu pa spritu’l kan-kan

N murgudja na kalor di nha pensaméntu

N trása rumu nha jornáda

Ki ta kóre di krus di kaminhu

Y di tudu spinhu ki ta pirsigi-m

Pamó

Kárni d’ómi

Ka strumu lonbriga

Y álma d’ómi

Ka bonéka midju


Maldádi N ka kre:

N ka ta buska-l

N ka ta da-l

Má, si distinu

Dja kre maltrata-m

N ta seta-l,

Ka ku álma abértu,

Má ku bondádi

Na kelotu ládu di mi.


Di tudu sinza

Ki forma déntu’l mi

Nasi un rubera di lus

Ki ta skóre di tudu mi

Pa tudu kenha ki kre.


Na nha sol xintádu

N sta xintádu ta xinti-u.


V


Un ilia e un kabálu

Na lensol di mar ta pasenta

Y ami e un ilia

Na kurason di mundu ta kánta.


Múzika e un bárku

Na un spedju ta navega

Y ami N sabe

Ma bárku ku spedju

E mi mé

Na ténpu ta spéra

Y dja txiga ténpu

Di lenbránsas bira águ

Pa N murgudja n’el

Sima N ta murgudja na mar

Pamó frónta di kel muméntu li

Sta foga-m sen piedádi.


Dja N kre durmi

Ku txoru di un violinu na nha péli

Pa N pode sunha ku otus purfumu.


Dja N kre torse piskós

Di tudu sujéza ki sta rodia-m

Pa N abri armáriu di nha bida

Pa un otu nasan

Na undi sol ta brilia mé

Y lua ta sta sénpri kontenti.


Dja N kre na lixu bota

Tudu podridon des ténpu ki ka pása

Pa N pode sta linpu

Pa es vinhu d’oru

Ki sta sunha ku mi

Tudu bóka’l tárdi

Ó ki amor ta sta na ar ta festeja.


Segrédu divinu e mai di distinu

Y distinu nos bida e segrédu divinu


Ó ki nu tropesa na kaminhu

E difisil nu sabe

S’e distinu ki stába si trasádu

Ó s’e nós ki skodje mau kaminhu


Anós e sónbra di nós kaminhu

Y nós kaminhu e un pásu pa nós distinu


Má kaminhu e txeu pa kenha ki kre


Nu ka debe dizanima nunka na nós djuguta

Si nu ka pode ndreta un kaminhu

Otu kaminhu e nós distinu sigi


Sima flor di kána na madrugáda

E si k’e bida nes mundu.


VI


Ku marezia na Kósta

N txiga glória;


Ku serénu di parmanhan

Na odju

N txiga kelotu lén.


Vérbu N kre na bóka

Pa N pode xinti u ki N sa ta xinti

Y fla

Nhos odja,

Nhos ta átxa

Txuba na pédra

Y pédra na dia

Ta nase na rubera

Nhos odja

Árvi ku sonhu di ávi

Y ponba ku biku di pédra

( pamó tudu kuza n’es mundu

e sima un róda na séntru di un pórta)

Si nhos kre obi silénsiu di nha bóka

Ki sta xeiu di vérbu ngasgádu

Nhos abri nhos nérvu na béntu

Nhos pensa na nhos skelétu

Ó ki séu ben buska-l

K’un prátu di sol na se mon


Un krus sta na nha tésta

Ku sinal di vós na se róda


Sal y sángi dja mistura ku txoru

Y es sta ta arde na bóka d’un búziu

Sima lumi na pónta di un fós.


N sta obi flauta ta lenbra-m

Múzika di otu simenti

Ki na óra di nase ta pari


N tene un toru na nha petu

Y un pexi na nha álma


Ala un péna ta bua

Pa bá nkontra k’un burbuléta


Un óvu sta xintádu n’un ósu

Ta pensa na koku k’e ta ser manhan

Dj’e tene odju y áza

Y dj’e kre txiga mar


Folia di mar, folia d’amor

Kabálu di nha fantazia

Na spiga di nha dizeju

Práta bránku di son serénu


Un fonti di árvi di ligria

E mi na txuba ta bádja


Téra ó béntu

Pó ó maré-xeia

Azul na azul ki ka ten

Y pádja di kor di sinza


Tudu djunta na lásu d’un kórda

Pa bira areia na rol di mar


Nha korpu e un korbu sen lus

Má e un infinitu tanbé

Ku sángi di un eklipsi disfarsádu


Nha korpu e un ónda na lus di lua

Y nha kurason e un orbádju na fiu di txuba


Flor di mar, fómi d’amor.


Infinito Delírio


IV


Há um emaranhado de versos no emaranhado dos teus gestos que não consigo decifrar. Há uma pedra que te forma, sinto, quando vejo que tu és apenas um muro líquido sobre o horizonte invisível.

A montanha, por onde mergulho a minha prece; o vento que me leva ao início do mundo; a onda, mais forte, sobre a qual vogo, como uma balsa incandescente, até ao oceano infinito; o sol que espalha o seu manto róseo-amarelado, e que me seduz; o próprio mar que me embala e me adopta; a espuma que me beija, me acaricia, e com quem faço amor... Tudo isso, mais alguma coisa, não passa da tua presença bem dentro de mim, quando a memória é uma parcela de um tempo presente e real.

Olho-te. Os teus olhos são dois pássaros negros distanciando-se no horizonte púrpura. Gostaria de saber o que fizeste com o sol doirado que um dia te ofereci, mas vejo que o teu rosto se tornou numa esfinge milenar. Há múmias aladas povoando os teus sonhos. Uma constelação de símbolos dorme ao teu lado e eu não me atrevo a alvoraçar esse espaço e esse momento. Aliás, sinto que o teu corpo é uma cidade de arquitectura es­tranha e que o teu espírito é um satélite florescente pronto para o galope.

Como chegar-me então a ti, afagar-te a cabeleira floreada, desfalecer-me nesses teus lábios sôfregos ou penetrar-te, como uma luz invadindo o escuro (?), se já és uma crisálida ao vento ou uma imagem fugaz num espelho adormecido.

De qualquer forma, agora já nada importa, e amanhã estarei aqui novamente no cume dessa falésia para te contemplar.

Talvez um impulso mais ousado, ou um apelo mais veemente, ou uma batida mais forte do coração, ou o teu olhar insistente, bem dentro de mim, me faça oscilar nessa brisa mais guerreira, e, de braços abertos, no vácuo despenhar-me ao teu encontro, até me desfalecer de todo nos teus braços de vento. Ou, então, quiçá, eu atenda os búzios e a lua e me quede neste mesmo lugar, petrificado como uma estátua feliz, contemplando todas as auroras do mundo.

Talvez ...



VII


Falanges acaso? Dedos porventura? Ou mãos apenas sobre o rosto, sobre o corpo, sobre a água vo­gando? Um fogo que te penetra, que te inunda as vértebras e fala de coisas simples e sublimes e fala-te de sóis e espirais e de um cometa longínquo em parto?

Falanges acaso? Ou bosques espessos, perpétuos e transparentes como um cristal de luz sobre a água? Ou vozes apenas!? Sim, voas por dentro das vísceras, por dentro do escuro inominado, por dentro da noite, por dentro da vida que se espanta, por dentro de mim?

Dedos porventura? Ou imaginação apenas de um toque, de uma valsa, de uma investida silenciosa, mas indefinível: de muitos braços, de muitos lábios, de múltiplos sentidos?

Durmo por dentro da tua boca e ressuscito-me dentro de ti. Brilho-me nos teus olhos como uma estrela na periferia da noite. É preciso limpar esse pó que se assentou sobre esse medo de te deixares devorar ou de te brilhares com as monossílabas, com os segredos sussurrados ao pé do ouvido.

Eis as minhas falanges, os meus dedos, as minhas mãos e a minha voz ao redor de ti, por dentro de ti: banha-te neles. Põe de lado o temor e penetra por dentro deles e vive neles até te tornares numa rosa, num canto ou no esplendor de uma madrugada.

Não há delírios, não há êxtase mais doce do que dois olhares gémeos, ou o palpitar simultâneo de dois corações bebendo-se, um ao outro, devorando-se, um ao outro, crepitando-se, semeando-se e colhendo-se na mesma haste, na mesma flor.



VIII


Amanhece em cima e em baixo. Amanhece ao redor de mim.

Vogo numa ilha que é um pedaço de mim e não há forma de me encontrar comigo mesmo.

Há um farol postado no meu coração e um can­deeiro imóvel na minha mão. Mas a claridade que me ilumina vem de mim mesmo e não há forma de me libertar dela.

Há um jogo de punhais à volta de mim. Há uma neve líquida suspensa sobre a minha cabeça, e, no meu crânio, uma galáxia galopa fugazmente.

De lá do infinito perscruto o mar. É verde. É fluo­rescente. É um corpo inteiro, silencioso, que me envolve. Pressinto o seu diálogo comigo e deixo-me envolver até ao infinito.

Sou transparente e transponível agora, como uma lâmina de água sobre uma lamela de luz.

Há risos que me inundam. Há febres que me encharcam a voz. Há raízes que me povoam; há carícias que se atomizam num cálice roxo sobre os lábios. E há uma pérola que baila ao redor de mim com o brilho de uma ninfa.

Amanhece em cima e em baixo. Amanhece ao redor de mim. Sou uma ilha no centro de um cometa. Sou uma galáxia viajando ao sol.

Há um vulcão sonhando por debaixo das minhas pálpebras, e, bem dentro da retina, existe este canto longo ao dia que me vem visitar.

A lua e o mar, após a vertigem da noite anterior, permanecem exangues, latejando, contudo, bem dentro das minhas veias. Atearam-me um fogo inextinguível, por todo o corpo, no breve instante que se amaram.

Durmo e acordo-me nesse amanhecer sonâmbulo para te beber por inteiro, entrando-me pelas tuas vagas entreabertas como o amarelado solar afundando-se no horizonte crepuscular.

Sonho-me nesse instante: uma flor à chuva que­rendo ser abelha.

E perco-me nesse mel que me ofereces.



IX


As nuvens oscilam docemente, com os braços abertos e a boca aberta, dormindo sob a toada constante das ondas que invadem o horizonte. Uma folha estremece com a manhã despertando e esvoaça silenciosa pela neblina doirada da lua, como um barco numa espuma veloz, e vai pousar sobre o sono desperto do tempo.

Uns olhos, do tamanho do mundo, mas tão trans­parentes quanto o céu, ou a água num cântaro, espreitam o amanhecer sereno.

O mar, num embalo interminável, invade-me o coração e espraia-se por todo o meu corpo, num movi­mento de ondas, algas, conchas e búzios que põem salmos e cantos inomináveis na minha boca.

Chamo os astros e o vento; conclamo o tempo e as marés para me acompanharem nessa investida que prenuncio às coisas ditas e às estações interditas. E agora não há forma de parar esse fluxo que, num impulso de chuva branca e cristalina, molda as feições da manhã.

Deixo-me levar por essa brisa enfeitiçada e mer­gulho-me num emaranhado de vozes e de suaves ca­belos.

Há uma música que floresce desse toque breve dos meus dedos por entre essas ervas comestíveis, e enveredo-me pelo trilho dos pássaros sonoros em nidificação. Um vapor de cinza e de fábulas alevanta-se ao redor do dia.

Encontro-a: uma flor rubra numa concha de luz pronta para a viagem.

Num costado de sal, sobre o dorso de uma baleia, balouçamo-nos até à última gota de pedra da ilha arrebatada à rocha. A vida estende-se latente nesse berço flutuante.

Oiço-me através do tempo caminhando.

Das mãos nascem-me algumas montanhas e uns quantos versos que se vão postar sobre essa floresta marinha e bem à porta dessa caverna que me encanta.

Há um sopro salgado que se solidifica ao sol. Construo umas quantas escadas no ar e trepo até ao cu­me desse pomar aquático feito de ondas e de espumas galopantes sobre uma fogueira incendiada.

Sou uma pirâmide primaveril ao sabor do vento.

Sou uma maré cheia em quarto crescente sobre o jardim escancarado.

Semeio-me e colho-me num tom doirado de gota evaporando-se sobre a pele. Há um poro aberto na carne que me sorve. E sôfrego, desabo-me nesse rio que me inunda, para me tornar numa chama louca serpen­teando em uníssono com essa outra chama que se es­culpe movediça sob o meu corpo que se funde com o sol, com o mar, com a montanha, com as vagas.

E somos nessa hora a revelação, o génesis, ao pé do mar.



X


Um pássaro habita uma fruta que habita o meu ser.

Quando o pássaro canta, todas as minhas veias se inflamam e surge uma chama sobre o mundo.

Do canto desse pássaro, há ovos que se abrem numa flor donde nascem aves que voam por dentro de mim e acabam por pousar sobre a fremência do meu coração. E todas as vezes que comigo me desencontro, voo eu por dentro dos pássaros para ir dormir no colo de uma flor que está sempre à minha espera, com as pétalas todas iluminadas como uma concha transparente ao sol.

E é nesse momento que sinto o Cosmos bem dentro de mim e uma vontade de ser brisa ou espuma sobre o mundo. E como uma melodia no ar quedo-me eu, suspenso no tempo, sonhando por dentro de mim a lua e o luar que um dia fui à porta de vénus.

E sou nessa hora o gérmen de uma lembrança futura expandindo pelos quatro cantos do tempo, sobre o mundo, como uma nebulosa à luz do sol.

E não há palavras para nomear este delírio de cores que inunda o meu olhar por dentro de mim anulando assim todo o resto que permanece para além da retina sobre o mundo.



XI


Eu estou dentro de mim e o teu ventre dentro do meu coração.

Fragmento-me e olvido-me de mim mesmo.

Tudo o que existe, existe dentro de mim.

Sonho-me por dentro de mim e uma enseada verde se forma por entre as minhas costelas.

Olho a paisagem longínqua e as árvores que se alongam pelo céu e vejo-me a correr por entre brumas e uma sombra densa perseguindo-me.

Algo mais se insinua em doirado no horizonte. Não sei o que é, mas pressinto que são outros olhos florindo rente ao solo.

Alguém mais se encontra dentro de mim. Não sei quem é, mas perscruto-lhe a voz e vejo que veio de longe. Aliás, de muito tempo atrás, do Éden, ou do centro de uma maçã.

Estendo os braços, que se transformam em raízes e percorrem o dia em busca de sol, e sinto que sou, nessa hora, um rio de múltiplos afluentes bebendo o brilho das coisas.

Estou dentro de um livro e sou um anel de fogo ao redor de uma sombra viva invadindo o ocidente e o oriente; sou um gérmen no círculo de uma flauta. Há uma melodia que me atravessa o peito e transborda no meio de um relâmpago de sal povoado de trovoadas de gelo.

Há o chão. Há a luz. Há o oiro. Há a vida. Existes certamente como um fio de água que se corrompe e se perde no ar, qual luz ao sol, ou um magnésio pelo solo.

Há também essa voz que é nossa e que se tornou num só corpo habitável e apetecível. Há as estrelas ao redor dos pólos, quais cristais de neve seduzindo o dia branco e claro. Há essa reverberação cósmica que se insinua por dentro da nossa respiração e invade o nosso olhar. E, vindo não sei donde, vejo-a descendo numa cascata de espuma azul, com os seus olhos de algas e a sua boca de fruta madura. É um orvalho branco no horizonte transparente que desce sobre um Arco-Íris negro que se perde pela enseada verde, ao sol.

Vem com os braços em ondas e o corpo em dunas saltando o muro de séculos que nos separam – os cabelos em ramos e folhas esvoaçando pelo tempo.

Um castelo e uma torre surgem do nada e um im­pério inflama-se numa bolha de cristal, através dos bei­jos soltos sobre o mundo que se multiplicam em jardins.

Sei agora que me veio buscar para me levar nas asas de uma nuvem até ao reino dos sentidos. Veio do mar atravessando pinhais de estrelas douradas e punhais de ventos irados. Encontrou-me a dormir e deitou-se por dentro do meu sono povoando-o de mistérios.

E quando sonhei, ela fingiu que era um sonho também a percorrer a noite, e, lá bem no fundo de mim, me ofereceu essa maçã que sempre trago presa na garganta. E quando acordei e encontrei-a ao meu lado, com uma folha de lírio vermelho sobre o púbis, soube que estava perdido e que nunca mais voltaria aos meus sonhos marítimos por dentro de mim.



XII


Mas, os sonhos vêm-me do estômago e o medo vem de dentro de mim – das raízes subterrâneas desses sonhos que me habitam.

A noite e o vazio não são nada sem mim – não existem sem a minha invenção.

Mas, quando a noite se torna numa seta luminosa caindo no meu regaço, eu torno-me numa cascata muda entre o horizonte e o sol.

Mesmo sendo a cidade uma pirâmide de vozes ao vento, eu não deixarei de ser um círculo de luz à volta de uma fogueira, porquanto, entre o meu umbigo e o centro da cidade, existe essa cordilheira voraz de cor e de maresia que nos consome a todos.

A manhã quando se levanta ao pôr do sol nascente, o azul da memória transborda-se num cálice de pura luz que se espalha pelo infinito, em delirium de sonhos e de corais

Eis o canto solsticial da aurora:

Neve lívida sobre incandescente lava; gotas de fumo à fronte da tarde.

Sou! Sim, sou!

Chove por dentro de mim: suor, seios, sexos.

Voa ao ritmo de uma borboleta, azul, a cinza de um coração amando. Sim, tudo dentro de mim.

Há a chama de um corpo que ficou sob o tacto das mãos decepadas pela hora que passou.

Basáltico é o travo, amargo, só, do corpo apagado, e da luz que se esqueceu dos olhos.

Lírica lira é a madrugada sonhando com os teus lábios de vento e maresia consumindo-me.

se viesses agora

rasgaria a fome deste quarto

nestes dedos suados de solidão!

Um sopro, ou uma respiração no ar, é tão leve, tão ténue quanto uma gota de água que se perde na imensidão do mar.

Uma borboleta e a sua fugacidade de cores são tão efémeras quanto a beleza de uma flor ao romper da aurora.

Um vidro que se parte, uma agulha que se perde, um sorriso que se desvanece, um sonho que se acaba, ou uma ilusão que se desfaz são coisas tão simples, tão frágeis – até mesmo o bater do coração, que de repente pára; a carne que se apodrece e se desintegra em pó; os olhos que deixam de ver, as mãos que deixam de pegar, os pés que deixam de andar, a alma que deixa de viver – enfim, tudo na vida, inclusive a vida –, são frágeis seres, apesar das suas infindáveis potencialidades de serem infinitas fortalezas.

Enfim, tudo e todos somos tudo e nada e vice-versa. Uma só palavra, um só gesto, uma só atitude, tanto pode destruir-nos como salvar-nos; através de um pensamento, podemos encontrar o paraíso, o infinito, ou o inferno, ou o abismo.

Enfim...

Tudo não passa de um INFINITO DELÍRIO



Kansons pa Bó

I

Nha vós N manda-l na béntu

Ku rakumendason p’e txiga bu petu

P’e nkosta na bu ragás ku mansidon.


Nha beju gó N dexa-l na ténpu

Pa óki bu kre pa bu bai panha-l

Pa bu prova-l, k’e pa bu álma pode guarda-l

Y pa nunka más bu ka skesi di mi nes mundu


Nhas sentiméntus - tudu nha vontádi y dizeju

N dexa-s stendedu na lensól azul di mar

Pa óki lúmi di amor na korpu sende-u

Pa bu deta n’el pa bu nburdja ku-el na ar

Pa nunka más bu ka txora di amor nes mundu


Y ami, ami N sta li, pa tudu bánda spadjádu

Ta spera pa bo, ku tudu nha xintidu sendedu.


II

N djobe mar, N djobe séu

N djobe sól, N djobe lua

N odja bu odju na nha sonhu

N xinti bu bóka na nha speránsa


N sta mi só, N sta pensa na bo

N sta mi só, N sta kre sta ku bo

Na álma, un rozera di amor dja nase-m

Y un jardin di glória, nha kurason dja alegra-m


Pa nha dianti, N odja bu róstu

Na nha mon, N odja bu korpu

N pidi mar , N pidi séu

N pidi lua, N pidi strélas

P’es ka dexa-u bai bu kaminhu

P’es ka dexa-u dexa-m mi só


III

Un dia bu djobe-m ben déntu di nha odju

Un mundu kuluridu di floris disponta

Y N odja na bu odju prumésa di un beju

Ki fazi strélas y séu na sukuru límia


Má, dipos, es prumesa bu dexa-l na ténpu

Y un véu di dor ben nsombra-m nha korpu


Y agora N fika sen sabi

Pamódi ki bu odju ta ofirise-m tudu es paraízu

Má bu mon ka ta da-m ninhun karinhu

Pamódi ki bu odju ta mostra-m m’e kre-m ?

Y bu bóka ta fla-m ma bu ka meste-m ?


Si bu álma e grándi y bu spritu tamánhu

Si bu sentimentu e di verdadi y bu prumésa e sinséru

Ka bu dexa bóka y iluzón di mundu ngana-u

Longa-m bu róstu, longa-m bu mon, longa-m bu korpu

Pa bu podi xinti-m, pa N podi xinti-u

Pa nu konxi glória di un moméntu nu ser un só.

Áli nha rispirason, toma-l bu mustura-l ku di bo

Pa N pode ser di bo, pa bu podi ser di meu.


IV

Sima un punhal di sól riba nha róstu

E si k’e nha ansiedade di odja-u


La lonji, kuáji la na infinitu

N prisinti bu imájen ta ben

Má dja bu dura tantu, tantu ku txiga

Ki tudu mi dja bira sinza


Un lua kláru di orbádju riba nha bóka

E bu kurason ta bati pa dentu di di-meu

Enkuantu nos odju ta nkontra ku kunpanheru


Noti bai, dia ben

Tudu floris des mundu

Disponta na séu dianti’l mi

Y e spádja pa tudu ládu kontenti


Éra bo ki N xinti ta txiga

N’un padás di béntu suávi y dóxi

Ki kánba pa déntu di nha álma

N pensaba ma éra bo ki staba ta txiga

Má nau, e ka si mé, e só nha vontadi di odja-u

Ki staba ta brinka ku mi, ta ngana-m des manera

Ó ki dizeju e grandi dimás

Tudu kuza e pusível pa ke-m ki kre

Amor ta fika sen midida, ta kema na petu

Y xintidu ta nbrása kenha ke kre

Ku se brasu di txuba y marezia


Má ki diziluson y dizanimason

Bu kurason sta la lonji na núvens

Ta sunha ku otus strélas y lus des mundu.



V

Pruméru bes ki N odja-u

Bu éra pa mi un pasarinha

Na séu ta bua


Dipos, kantu N konxe-u

Bu bira un burbuléta perfumádu

Na lus di sol ta sunha


Gósi, óki N djobe-u

N ta odja un enkantada mimóza

Ta ri ku mi sima un sánta


Bu surizu, na nha róstu

Dja ben mora

Un padás di bo, na nha petu

Dja ben fika


Si bo e un fitisera ó un ánju

N ka sabe fla


Só N sabi ma bo e un róza floridu

Ki dja abri pa déntu di nha odju

Y ma, ami, dja N ka mi más

Na des ki bu djobe-m pa prumeru bes


VI

La na fundu di nha petu

La ben déntu di nha kurason

Ben kaládu na solidon di nha álma

Y más ben fitxadu inda na nha sentiméntu

N ten kel speránsa li

Ma un dia, un dia des mundu,

Nen ki seja un minutu, ó só un sugundu,

Bu ta dexa lus di bu odju na nha odju

Bu ta dexa-m nbrasa-u ku tudu nha ligria

Inda ki N móre di amor y di dor

Só di sabi mes ta djobe-m sen ser di meu.


Má, ami dja-m kre ten es speransa li,

(Si kre N móre di disgostu di sabi ma nunka N ta te-u),

Ma un dia N ta rasusita na flor di bu petu

Ó ki bu djobe-m ku es bus odjus serenu

Y bu dexa bu bóka abri pa mi n’un surizu divinu.

VII

Ben, nha amor, ben dja kretxeu

Dexa-m nkosta bu róstu dóxi na nha petu

Pa bu xinti es nha kurason k’e di bo

Ta solusa di dor y ta txora di sodádi.


Ó flor di séu, ó sonhu di amor

ka bu dexa glória des mundu fúji di nos

ka bu dexa-nu móre sen nu xinti filisidádi

di nu perdi di lokura un dentu’l d’otu

Ó róza divinu, ó kretxeu di nha álma

Fitxa kes bus odjus di paraízu

Bu abri bu álma

pa es sentiméntu sen midida

Óki nha bóka nkosta na bu obidu

ku palávras di kurason.