LIVROS PUBLICADOS
LIVROS
PUBLICADOS
Ali
Ben Ténpu di Ali Babá
Lagoa
Gémia
Na
Nha Sol Xintádu
Infinito
delírio
Lágrimas
de Bronze
Experimentar
e Viver a Escrita em Vagens de Sol, de Danny Spínola
Por:
Fátima Fernandes
NA
SI SOL XINTADU
UM BREVE OLHAR
SOBRE A POESIA E A PROSA DE FICÇÃO EM CRIOULO DE DANNY SPÍNOLA
Por:
José Luís Hopffer Almada
LÁGRIMAS
DE BRONZE
Por:
José Luís Hopffer Almada
Infinito
Delírio
Por:
José Luís Hopffer Almada
EVOCAÇÕES
DE DANNY SPÍNOLA
Por: César
Monteiro
Ali
Ben Ténpu di Ali Babá
É
um livro de poesia em crioulo que está dividido em duas partes: Ali Ben
Ténpu, e Kansons Pa Bó. A primeira parte é satírica
e contestatária, retratando uma determinada fase política em Cabo
Verde, e a segunda parte é lírica em que a musa cantada é
a própria terra amada, transfigurada em mulher.
A
linguagem utilizada é bastante metafórica com muitas expressões
profundas da língua cabo-verdiana, outras cruas e duras, características
de um certo desaforo santiaguense. Um ambiente de precariedade, instabilidade,
e mal-estar perpassa por esse poema, pertinente e impertinente, que critica
e satiriza de forma mordaz e contundente.
E
no outro prato da balança, a lira, a canção, se impõe
através de versos suaves e fluidos, carregados de um certo lirismo romântico,
e dramático, às vezes.
O
título é bastante sugestivo, bastando tão-só ser
completado pelo próprio leitor para se chegar ao seu significado subentendido.
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Lagoa
Gémia
É
um livro de ficção em língua cabo-verdiana, que reúne
contos de diferentes características e temáticas. Ao todo são
dezassete contos.
O
livro está dividido em duas partes: uma intitulada Piskador di
Stréla D’Alba que possui oito contos com características
semelhantes, ligada um pouco à crendice popular, a um certo mistério
oculto, ao feitiço e à feitiçaria, aos finados e a uma
certa fantasia, etc; e a outra intitula-se Lagoa Gémia
que possui contos utópicos, fantásticos e maravilhosos, e, também,
um pouco surrealistas.
Há
alguns contos recriados a partir de personagens conhecidas da mundividência
cabo-verdiana; há contos da linha do fantástico e do maravilhoso
que criam um conjunto de lendas e mitos; e há contos que são um
pouco místicos e sobrenaturais, que criam e recriam o grande filão
da crença popular cabo-verdiana, povoada de bruxas, feitiçarias
e finados (fantasmas).
A
cultura cabo-verdiana, a forma de estar e de pensar do cabo-verdiano se encontra
bem presentes nesse livro que foge bastante às normas e hábitos
de publicações em crioulo, inaugurando uma linha, de certa forma,
inédita de contar histórias, com alguns contos verdadeiramente
surpreendentes e uma linguagem artística que, às vezes, se reveste
de uma certa aura poética.
Humor,
sarcasmo e ironia povoam essas histórias, ao lado do dramático,
do trágico e de um certo terror.
Há
mesmo um conto que se sobressai como uma saga, ou repositório de alguns
aspectos importantes da história cabo-verdiana.
A
forma de escrita, ou de contar as histórias, é coloquial e fluida.
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Na
Nha Sol Xintádu
Na
Nha Sol Xintádu é um livro de poemas em crioulo com 52
páginas, reunindo 32 poemas, sem títulos, enumerados por algarismos
romanos.
O
que se pode dizer di Na Nha Sol Xintádu, em primeira mão,
é que é um dos mais moderno ou pós-moderno livro de poema
cabo-verdiano escrito em crioulo.
É
um livro que se distancia da tradição clássica e tradicional
cabo-verdiana e se enfileira, em termos de poeticidade, de linguagem e de roupagem
imagética e metafórica, na peugada de poemas universais e universalistas,
apesar de manter bem enraizada a matriz tradicional cabo-verdiana, enfatizada
pela língua.
Na
Nha Sol Xintádu é um punhado de poemas, de matiz diversificado,
com uma dinâmica de sons, de palavras e de vozes eivada de filosófica
procura do eu, da compreensão humana e da interioridade do Homem.
São
poemas que discorrem e flúem entre o sal e o sol, o salitre e a solidão,
o seio e o sexo, o fogo e a cinza, pleno de questionamento sobre o corpo e a
alma e o ser e o não-ser.
Com
imagens e metáforas audazes e veementes, Na Nha Sol Xintádu
é um espelho de múltiplas faces entre o caminhar dos homens e
dos bichos, e dos anjos e dos demónios pelas vertentes do céu,
da terra, das águas, dos dias, das noites, da luz e da sombra, mais os
testemunhos da vida, das paixões quotidianas e da mundividência
que atravessam o espírito e a alma das pessoas, tais as dificuldades,
as inconstâncias, as veredas enigmáticas, as dispersões
indefiníveis e imperceptíveis, etc.
Enfim,
é um cântico pleno de espiritualidade e resplandecente de vida
e vivência, com amor, sonho e sexo em epifonémicas transfigurações.
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Infinito
delírio
Infinito
Delírio está dividido em seis livros ou cadernos, e cada com um
desses livros está dividido por sua vez em doze partes que é,
simbolicamente, a medida de ouro, do Cosmos e da perfeição. O
livro representa assim o universo e a sua complexidade, as manifestações
cósmicas, o renascimento das coisas e a perspectiva do devir e de um
certo paraíso geométrico (isto, na linha de alguns teóricos
sobre a potência numérica).
O
seis livros já estão em sintonia com o princípio dos antagonismos
e do destino místicos; fonte de coisas temporais e intelectuais, da questão
do bem e do mal, e, potencialmente, também, de uma tendência expansiva
e perfeccionista.
Apesar
da unicidade de estilo, no todo da obra, cada livro que a constitui possui a
sua particularidade em termos formais, de linguagem e do modo de enunciação,
para além dos aspectos temáticos e da essência dos conteúdos.
Essencialmente imagético e metafórico, o livro possibilita uma
multiplicidade de leitura, com algumas passagens próximas de um hermetismo
redondo. Indo de questões ontológicas a questões metafísicas
e existenciais, os poemas ressumbram a indagações filosóficas
e místicas. O mistério das coisas e dos desígnios é
abordado de diversos ângulos.
É
um livro prenhe de simbolismo que percorre a interioridade do homem, da vida,
do mundo e do Cosmos; em busca do infinito?! Ou simplesmente dele se aproximando
e convivendo?!
Em
sintonia com as modernidades contemporâneas, Infinito Delírio é
uma obra que atinge os sentimentos dos leitores de uma forma impulsiva e profunda
pelo estetismo dos versos e pela plasticidade das palavras e que exige, contudo,
uma leitura atenta ponderada e analítica para se poder colher todo o
seu manancial proverbial, profético, messiânico e sugestivo, devido
ao seu discurso tecido de um jogo entre a luz e a sombra, o claro e o escuro,
o revelado e o oculto.
É
um livro para os sentidos, para ser apercebido e absorvido, pelo idealismo e
musicalidade da sua escrita e pela sublimidade e fantasia do seu enunciado,
às vezes idílico e lírico, às vezes etéreo,
às vezes irreverente, às vezes pertinente, às vezes necessário,
às vezes chã e exacta.
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Lágrimas
de Bronze
É
um livro de ficção que foi editado em 1990 e está sendo
reeditado agora, visto que se encontra esgotado há cerca de quatro anos.
É
um livro ímpar, relativamente a esse género em Cabo Verde, pela
sua ausência de personagens definidas, com uma amálgama entre narrador,
personagens(protagonistas e secundárias), sendo todos uma e outra coisa
ao mesmo tempo; também ao nível do enredo, da trama, não
há preocupação em seguir os modelos propostos de ficção,
com um certo fio condutor e uma linha temporal definida, subvertendo tudo com
os seus avanços e recuos e as suas reflexões e descrições
sensitivas, que a tornam uma ficção intimista e confidencial,
e da interioridade do ser; o tal “time in Mind” como já disse
alguém.
A
sua linguagem e estética está próxima da prosa poética,
com uma forma peculiar de narração e descrição.
É
um livro no qual se sente que não há a preocupação
em ser isto ou aquilo, pretendendo-se tão-só dizer e contar coisas
à sua maneira, ao sabor da pena, dos sentimentos e pensamentos que flúem
como uma corrente, segundo o seu leito, e encontrando-se com outras correntes.
É
um livro cheio de instinto, escrito com calor e com toda a alma.
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Experimentar
e Viver a Escrita em Vagens de Sol, de Danny Spínola
A
começar os sinceros agradecimentos ao autor pela escolha da apresentação
de Vagens de Sol recair sobre a nossa pessoa e igualmente uma palavra
para felicitar a iniciativa do apoio às Artes e Letras pelo Instituto
da Biblioteca Nacional e do Livro, aqui presentes. Finalmente ao público-leitor
pela simpatia e paciência que esperamos compensar com a leitura pessoal
desta obra.
A
moderna geração de escritores cabo-verdianos tem vindo a brindar
o seu público com obras de dimensão estética e filosófica
universal, reveladoras de uma consciente autonomia literária. Se é
verdade que se têm alcançado progressos significativos nas últimas
décadas em Cabo Verde em todos os campos do conhecimento, verdade também
é que a Literatura Cabo-verdiana se vem mostrando como um domínio
em franco desenvolvimento, pelas tendências artísticas múltiplas
e diversificadas, traduzindo-se em cada texto experiências de escrita
imaginativa e recreativa, diríamos, de grande qualidade e em notória
expansão, esperamos. É neste grupo que incluímos a obra
que nos convidaram a apresentar.
Começaremos
pois por dizer que Vagens de Sol é uma obra cujo pequeno volume
contradiz e desafia a imensidão do objecto que toma por referência:
o Universo contemplado em todas as suas dimensões. Este livro reúne
em dois livros, duas partes de uma vivência inquieta, melhor dizendo desassossegada,
duas sínteses de inúmeras buscas:
- a busca do prazer e da plenitude
- a busca da paz suprema e do infinito
- a busca da solidão do artista
que se fecha sobre cada palavra, cada imagem, cada símbolo que a imaginação
acrescenta e subtrai, interrompe, destrói e alimenta ao mesmo tempo.
Procurando
firmar-se entre a reflexão e a evasão, numa espécie de
prosa poética oficinal, imaginária e simbólica, Vagens
de Sol é um livro repleto de poesia pensante. Esta caracterização
inicial advém de um primeiro contacto com o texto, assinado por um autor-sujeito
que procura no trabalho poético, uma desesperada libertação
espiritual, quase conseguida pelo pensar corrido e sugestivo que cada momento
lhe proporciona e que cada “flash” testemunha.
Traçada
então a partir do mais profundo da imaginação, carregada
de símbolos, sugestões e imagens que passam e se cruzam em cada
momento das partes numeradas, com uma riqueza lexical impressionante, a escrita
de Danny Spínola emerge e extasia-se num exercício de recriação
sistemática. Assim, somos convidados a acompanhar um ser de papel que
busca incessantemente o que a realidade não lhe oferece, que vive num
espaço aéreo, de desejo e ansiedade e que nos confessa em jeito
de abertura:
“Dói-me a cabeça,
e o universo”.
Dói-me a alma, e a lágrima.
Dói-me o amor, e o seu amargo
em contraponto.
Dói-me não ser um
ingénuo e inocente feliz;/ Não ser o felizardo do SOL.”
Perguntamos,
à partida:
-
Como é possível que o universo doa??
-
Como é possível que uma lágrima doa? E se:
-
Quem pede para ser o felizardo do SOL não quer, no fundo, ser o próprio
SOL?
No
terreno das impossibilidades, auto-retratando-se, este sujeito se apresenta
pelo estado de alma, de dentro para fora e diz-nos, às tantas:
“O meu espírito expande-se pelos quatro pontos cardeais. Reconcilio-me
com o norte, aprecio o oriente, perscruto o ocidente e rendo-me ao sul que se
estende pelo sol infinito duma tarde de estivais búzios. O sul é
fascinante, qual concha entreaberta à espera de uma carícia. E
diluo-me nesse sul de flor incendiada de canto para poder ressuscitar o tempo
olvidado das acácias rubras de aves.”p.23
À
procura de uma plenitude não encontrada, Vagens de Sol,
afigura-se-nos como um trabalho de escrita inteligente, sensual e bonita na
amplitude que o mundo da literatura permite ao escritor-sujeito. Com uma presença
pessoana forte, uma leitura intertextual parece-nos desde já pertinente.
Recuperando textos filosóficos de Fernando Pessoa, é momento para
lembrar o grande poeta que se pensava pensando. Disse, melhor, escreveu Pessoa
um dia que:
“O sujeito ao ser pensado
como sujeito é objecto.
O não-ser para ser não-ser
precisa ser, isto é, ter ser;... a inversa é igualmente certa.
O ser para ser não-ser precisa não-ser.
Isto vem tudo de que não-ser
e ser são para nós ideias; nunca os podemos considerar absolutamente....
Ora o universo é pensado.
Está portanto, nas condições de ser apreciado (contingentemente)
pelos argumentos de ser e não-ser. ....
O
universo aparece-nos como ser. É-nos impossível pensá-lo
como não-ser, e temos que pensar, se pensamos. Mas, se pensamos o nosso
pensamento, o Universo passa a ser não-ser, porque antes do conhecimento
(que é o pensar o pensamento) o Universo incognoscível imediatamente,
é o não ser.”
Passando
novamente ao texto de apresentação, sentimos que o exercício
poético aparece em Vagens de Sol, na linha do pensamento filosófico
de Fernando Pessoa, aqui concretamente no limite entre aquilo que se é
e algo que se busca incessantemente ser. Senão, vejamos o que nos diz
toda a página 9.
O
texto constitui então um espaço aberto, nem o aqui ou o ali aparecem
identificados, nem o agora é mais ou menos importante do que o depois,
nem geografia, nem outros traços limitativos do espaço se fixam.
Aqui o mundo que é chamado é outro, todo ele único, porque
interrogado, imaginado e recuperado a cada recorte se numera e se sequencia.
Se
quisermos conhecer mais profundamente o texto, diremos que as paisagens de sonho,
erotismo e delírio se desenham com mais intensidade na segunda parte
da obra, num convite permanente à saída para o infinito como se
aí o homem pensante pudesse encontrar a eterna satisfação
do corpo e da mente. Atrevemo-nos a aconselhar os leitores a começarem
a leitura pelo fim. Mais difícil, mais desconcertante, sem dúvida,
mas certamente mais plena.
No
início dissemos que este livro parece-nos montado como numa OFICINA POÉTICA..
Permitam-nos, caros leitores que nos expliquemos um pouco melhor:
-
A ideia de oficina poética traduz a forma como o autor Danny Spínola
vai laborando o seu texto, pensamento a pensamento, som a som, palavra a palavra.
Esta ideia de ESCRITA COMO ACTO DE CRIAÇÂO traduz uma relação
única entre o autor e o texto, muitas vezes incompreensível ou
indecifrável para o leitor. Por isso, se ás vezes as passagens
nos parecerem sem sentido e a sequência inoportuna e enigmática,
isso acontece porque o desejo de registar aquilo que se sente ou que se vai
sentindo é mais forte do que a necessidade de traduzir uma lógica
desse sentir. Para montar o texto, o autor cria uma ordem própria, encontra
uma lógica assegurada por toda uma dimensão que é a estética.
Assim,
o texto é resultado de uma arquitectura mental, o trabalho poético
reflecte uma arte oficinal, a arquitectura mental procura por sua vez
reflectir-se no breve ou longo registo da página, num quadro onde os
elementos, as imagens se fundem num espaço que se quer perfeito. Por
exemplo – a nível de sentido, este é obtido tanto pelo significado
como pela sonoridade, pela ressonância, pelo ritmo que as palavras criam
ao ligar-se em cada frase poema mas pela riqueza lexical, pelo trabalho sinonímico,
de um eu que se experimenta através do vocabulário sensual e sugestivo.
O
nível de Perfeição - embora traduza um certo respeito e
o culto do rigor na escolha das palavras que registam o pensar - esse nível
de perfeição pode ser questionado – pois nem sempre o próprio
sujeito-ser se mostra satisfeito como se o angustiasse que a ideia, como num
poema, por estar incompleta não se fixe no papel e daí saia sem
estar completo.
Pelos
objectos, seres e elementos que evoca, pelos sentimentos que expõe e
partilha, pela presença obsessiva do feminino, do corpo, pela sensualidade
original, entenda-se genesíaca e ingénua, há nesta obra
uma recuperação algo mitológica da ESCRITA REFLEXO DA CRIAÇÂO
DO MUNDO:
-
Há
a recriação do tempo
-
Há
a recriação do espaço
-
Há uma recriação do sentir e do estar vazio, estando-se
só sem se estar só,
- Há uma necessidade de se
procurar sem se encontrar e de se encontrar numa outra metade que pode ser uma
mulher, uma cor, um fruto, um delírio, um… enfim….
Danny
Spínola é, como tantos outros, um poeta do mundo, sem ser
mundano aparenta sê-lo, no sentido de que o sujeito se submete aos prazeres
do mundo e igualmente intemporal, porque os seus referentes são
irreais.
-
é
o ouvido, a boca, a palavra, o canto, o céu, a flor
-
é
o sangue, a palavra, as pétalas
-
é
a terra, o mundo, o eu e o tu
O
Universo poético é rico pelas possibilidades de explorações
que o poeta coloca por vezes na valorização ambígua
-
quer
na recriação do presente agora, dos instantes vividos,
-
quer
pela transposição do tempo e do espaço – Porque
a criação poética é também intemporal
Numa
clara ruptura com a linguagem comum, destaca-se neste texto uma linguagem permanentemente
sugestiva, acentuando a sua DIMENSÂO POÉTICA. A poesia deve ser
aqui entendida como força criadora, espaço de identidade e de
identificação do sujeito com um mundo que é único
talvez por nem sequer existir. Por extensão a LITERATURA presta aqui
uma homenagem aos homens escritores, à emoção deles viverem
e falarem de eles próprios e de tudo dentro do texto literário.
Teoricamente
falando, a expressividade de um literário mede-se pelo seu grau de probabilidade,
isto é a informação que o texto nos dá sobre o estado
de espírito do autor, os seus sentimentos e intenções partilhadas
na mensagem poética varia muito do seu carácter inesperado. Diríamos
então que quanto mais imprevisível e inesperada for a mensagem,
mais rica de informação e alvo de questionamento ela se apresenta.
Isto constitui para cada leitor um desafio porque ao identificar os signos da
mensagem e ao transpô-los para o seu próprio código de identificação,
ele poderá enfrentar dificuldades. Esse é o desafio que esta obra
coloca.
Não
devemos encarar esse exercício como obstáculo à leitura,
ao entendimento e ao desfrute de um texto como este de que falamos. Queremos
convidar o leitor a aceitar este desafio porque é nessa dificuldade,
é na quantidade de enigmas, interrogações e convivência
emocional com o texto que reside a beleza do acto de ler.
Quando
o texto nos diz, lemos nas páginas 55 e 56…Temos aí um
convite à nossa capacidade de nos inspirarmos e imaginarmos com o texto,
fazer o que ele nos pede “voar com a imaginação”
Uma
observação a fazer é de que neste texto o ritmo, dado pelo
desequilíbrio entre os diferentes registos reflectem maior liberdade,
o estar á vontade não se sentindo restringido e a quebrar o ritmo
poético do texto.
Há
que valorizar a mensagem por si mesma e em si mesma, acompanhar o ritmo numa
íntima relação com o significado, há uma relação
directa entre o ritmo da mensagem e o sentido das palavras quando se fala na
expressividade de um texto. O segredo que anima a leitura desta obra está
numa espécie de pacto de entendimento entre o autor, criador, inventor
das ideias cuja organização e disposição no papel
ele próprio determina (voltamos à ideia de oficina poética)
e o leitor a quem cabe reconstruir posteriormente um novo sistema de significação
e dar à obra a oportunidade de “falar”, como fazemos neste
momento.
Procurámos,
caros leitores, atraídos pelo poder sugestivo da linguagem, partilhar
nestes minutos da apresentação da obra Vagens de Sol, de Danny
Spínola, interpretar ou decifrar o código estético que
o autor desenhou. Logo no título se começa a exercitar o valor
das conotações dos seus componentes. Não pretendemos transformar
esta sessão numa aula de análise de texto, mas quisemos destacar
alguns aspectos da obra que se oferecem à sua forma própria compreensão,
dar continuidade ao percurso de um autor actual e sensível às
coisas do universo, este aqui ou aquele longínquo, os das sensações,
delírios e tentações que alimentam a vontade de partilha
entre si e cada um nós e de nós com o texto que, a partir deste
momento, deixou de ser dele para ser de quem o quiser descobrir.
Boa
leitura e obrigada pela vossa atenção!
Praia,
09 de Dezembro de 2005
Fátima
Fernandes
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NA SI SOL XINTADU
UM BREVE OLHAR SOBRE A POESIA
E A PROSA DE FICÇÃO EM CRIOULO DE DANNY SPÍNOLA
1
NOTA INTRODUTÓRIA
Em
“Prifásiu” a Na Kantar di Sol (primeiro livro
de poesia - e de poesia em crioulo- de Daniel Spínola, que então
assinava Euricles Rodrigues) constatava eu que uma das características
mais interessantes e típicas das gerações literárias
reveladas depois do 25 de Abril de 1974, particularmente daquela que se afirmou
nos anos oitenta e noventa do século passado é a acrescida atenção
que ela, ou uma sua importante franja, dedica à nossa língua nacional.
Mais acrescentava que tal característica se alicerçava numa antiga
e longa tradição de escrita, a qual remonta ao século XIX
e que teve dignos, conquanto desiguais, vates em individualidades como o Cónego
Costa Teixeira, Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, José Bernardo
Alfama, Juvenal Cabral, João José Nunes, B. Lèza, Sérgio
Frusoni, Jorge Barbosa, Manuel Lopes, Mário Macedo Barbosa, Gabriel Mariano,
Luís Romano, Ovídio Martins, Jorge Pedro Barbosa, Kaoberdiano
Dambará, Corsino Fortes, Arménio Vieira, Artur Vieira, Kwame Kondé,
entre vários outros cultores bissextos da escrita em crioulo.
Ressalte-se ainda que o crioulo
merecera e vem merecendo a atenção científica, etnolinguística
ou outra de autores caboverdeanos e estrangeiros, como, entre outros, António
da Paula Brito, Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Elsie Clew-Parsons, Armando
Napoleão Fernandes, Francisco Xavier da Cruz, Baltasar Lopes da Silva,
Rodrigo de Sá Nogueira, Dulce Almada Duarte, Manuel Ferreira, Rosine
Santos, Augusto Mesquitela Lima, Donaldo Macedo, Marlyse Baptista, Manuel Veiga,
Eduardo Cardoso, John Hutchinson, João Pires, Petra Thiele, Jürgen
Lang, Dulce Pereira, Nicolas Quint-Abrial, Tomé Varela da Silva, Inês
Brito, Alice Matos, Hans-Peter Heilmair, António (Tony) Melício
Pires.
Embora comungando com as gerações
anteriores a escrita da língua materna, sobretudo no domínio da
poética e nas vertentes lírica e satírica, o gosto pela
recolha e reelaboração das tradições orais e os
esforços de dignificação do idioma crioulo mediante o seu
estudo científico e a sua descomplexada e desassombrada defesa contra
tentativas várias de repressão e/ou ostracização,
a especificidade das gerações literárias reveladas depois
do 25 de Abril de 1974 - particularmente, daquela que se afirmou nos anos oitenta
e noventa do século XX- reside na maior diversidade e na mais lata abrangência
dos géneros literários e de escrita por elas cultivados.
Com efeito, as novas gerações
cultivam desde a poesia - na qual se destacam, entre outros, Emanuel Braga Tavares,
Kaká Barboza, Danny Spínola, Xan (Alexandre Conceição),
José Luiz Tavares, Ariki Tuga (também Badiu Branku), T.V. da Silva,
Zé di Sant’ y Águ, Kaliostro Fidalgo (pseudónimo
de Pedro Freire), Canabrava (pseudónimo de Pedro Vieira), José
António Lopes, Mário Matos, César Fernandes, Dotor Azágua-,
passando pela prosa de ficção, com Manuel Veiga, Eutrópio
Lima da Cruz, T.V. da Silva, Danny Spínola, Kaká Barboza, Horácio
Santos ou Zizim Figueira, pelo teatro, com Kwame Kondé, Artur Vieira,
Donaldo Macedo, Ano Nobo e vários novos dramaturgos, tornados visíveis
por várias publicações (como as revistas “Fragmentos”
e as edições “Mindelact”) e grupos de teatro, reunidos,
desde a segunda metade dos anos noventa, no Mindelact, pelo ensaio científico,
cultural e literário, em crioulo, com Luís Romano, Manuel Veiga,
T. V. da Silva, Tuna Furtado (pseudónimo, por vezes, utilizado pelo autor
destas linhas para o ensaio literário e cultural), António Melício
Pires, entre outros, até ao discurso político, no qual Abílio
Duarte constituiu um caso exemplar. Dignos de menção são
ainda inúmeros e consagrados trovadores, os quais têm mantido a
chama, a alma e a vivacidade da língua caboverdeana, por vezes com maior
e mais incisivo talento que muitos versejadores que se têm publica e compenetradamente
apresentado como poetas de expressão crioula, como intentou fundamentar
G. T. Didial num estudo publicado como suplemento ao jornal "A Semana".
Não
obstante tais evidências, a oralidade permanece como a forma essencial
de expressão da capacidade criativa, artística e comunicacional
do crioulo, quer nos reportemos às letras dos vários géneros
musicais tradicionais e modernos, quer nos atenhamos aos géneros da oratura
(ou literatura oral), como a finason e a kurkutisan, os kontus
tradicionais, as adivinhas, os provérbios, os kontu nobu, os
konbersu sábi, quer ainda nos refiramos a essa vivência
quotidiana constatada in loco por Jorge Amado em entrevista concedida
a Danny Spínola e ao autor do presente texto para o suplemento Voz
di Letra do jornal Voz di Povo: “em Cabo Verde a vida decorre
em crioulo”.
Para além de servir de esteio
fundamental da capacidade expressiva do crioulo, a oratura tem servido de sustento
e de substrato a novas formas de expressão literária genuinamente
caboverdianas. Refiro-me quer ao português literário caboverdiano,
de invenção claridosa (particularmente de Baltazar Lopes no romance
“Chiquinho”), quer à moderna literatura em língua
caboverdeana.
No
que se refere a esta última situação, a pregnância
da oratura tem vindo a lume por, pelo menos, duas formas: quer como objecto
e matéria-prima de trabalhos de colecta, recolha e, mediatamente, de
reelaboração poética ou poético-musical, como se
constata no labor de vários literatos e trovadores, de matriz popular,
que, muitas vezes, se contentam em sistematizar o que de profundamente metafórico,
analógico e imagístico já existe nos géneros tradicionais
e na rica linguagem das falas populares. Dessa démarche emerge
uma espécie de oralitura, na feliz expressão de Dulce Almada Duarte,
quer como escritura fundada na oratura, quer, ainda, como ponto de partida para
a construção dos aliceces de uma literatura assumidamente moderna.
Literatura moderna que, não
descurando o oral e o popular, vem abrindo novas vias para a ductilização,
a maleabilização e o enriquecimento da capacidade expressiva do
crioulo, mediante um olhar estilizante, engendrador de uma linguagem fundada
essencialmente num código escrito e nas mais recentes aquisições
da modernidade e da literatura universal, e, assim, para a emergência
do idioma caboverdeano como moderna língua literária.
Paradigma
de tal via foi a poesia cultivada, no passado, por Eugénio Tavares, Pedro
Cardoso e Sérgio Frusoni, e, a partir dos anos sessenta, por um certo
Kaoberdiano Dambará bem como por Ovídio Martins, Corsino Fortes
ou Emanuel Braga Tavares. Mais recentemente, ela tem tido em Kaká Barboza,
dos livros Son di Virason e Konfison na Finata, Danny Spínola,
Xan (Alexandre Conceição) e José Luiz Tavares os seus cultores
públicos mais profícuos, também no recurso a traduções
ou a versões em crioulo de proeminentes poetas caboverdeanos (como no
caso de Gabriel Mariano, Daniel Filipe e Osvaldo Alcântara vertidos para
o crioulo por Danny Spínola) ou estrangeiros (como nos casos das versões
em crioulo de poemas de Fernando Pessoa e seus heterónimos por Guedes
Brandão (pseudónimo de Arnaldo França, que também
verteu para o crioulo poemas de David Mourão-Ferreira), José Luiz
Tavares ou Xan, de Camões por Eugénio Tavares, pelo Cónego
Teixeira ou por José Luiz Tavares, ou de poesia ou prosa de ficção
de lavra própria originariamente escrita em português e vertida
para o crioulo por Danny Spínola e José Luiz Tavares. O caso da
tradução para crioulo dos Evangelhos por Sérgio Frusoni
-a partir de uma versão em dialecto romano-foi recentemente retomado
por uma equipa religiosa que se encarregou da tradução do Evangelho
de S. Lucas, utilizando para tanto o muito funcional ALUPEC (Alfabeto Unificado
para a Escrita do Caboverdiano).
2
A POÉTICA EM CRIOULO DE DANNY
SPÍNOLA
No
que se refere à poesia de Danny Spínola, o que salta, desde logo,
à vista é a sua diversidade, a par da prolixidade do verbo. É
o que se comprova nos seguintes livros: Na Kantar di Sol (1990), Adon
y Eva y otus Puemas” (2000), Ali ben tenpu di Ali Babá…(1997
– 1998) e Na Nha Sol Xintádu (2004).
A diversidade da poesia de Danny
Spínola verifica-se tanto na temática como na linguagem utilizada,
nos seus diversos graus de aproximação à oratura, por um
lado, e de experimentação de caminhos pessoais, inovadores e modernizantes
de criação, por outro lado.
É
assim que na poesia de contundente crítica social, como “Va
ka ta va boitas di mundo”,“Pa tudu kuza un kuza”
ou “Ali ben ténpu”, denota-se uma grande inter-influência
entre a oralidade e a modernidade, entre os códigos da tradição
oral da finason, do kontu nobu e do konbersu sábi e os
códigos da poesia moderna, sustentados na elaboração oficinal
da escrita. Nessa poesia, são absorvidos muitos dos processos discursivos,
narrativos e imagísticos da finason, como a exaltação do
quase ególatra poeta, enquanto profeta, a invocação de
um interlocutor, próximo ou distante, a narração, a descrição,
a utilização de metáforas, alegorias ou comparações
como técnicas de exumação dos saberes do mundo, para além
das técnicas do konbersu sábi, enquanto desafio poético,
e do kontu nóbu, enquanto recriação e evolução
com base na tradição.
O
enraizamento nos géneros tradicionais denota-se ainda na utilização
do vocabulário, do acervo lexical e de expressões idiomáticas
típicos do crioulo fundo, isto é, da variante basilectal
de Santiago, o que, para além de contribuir para a valorização
do mesmo crioulo, testemunha um profundo amor do poeta à fala das nossas
gentes mais castiças e à sabedoria a elas subjacente, e de que
ela é depositária.
Sublinhe-se
que o olhar crítico, satírico e, por vezes, virulentamente sarcástico,
da poesia de Danny Spínola atravessa todos os livros do poeta. É
assim que os poemas “Pa kada kuza un kuza”, “Va
ka ta va boitas di mundu”, constam tanto do primeiro livro “Na
kantar di Sol”, de 1990, isto é, do período da vigência
do autismo e da pretensão (ainda que tímida) de omnisciência
do regime de Partido Único, do “desenvolvimento que arriba”,
transmutando a “revolução em evolução”
e a “evolução em corrupção”, nela enredando
os grandes e pequenos poderes, como do terceiro livro, Adon y Eva y otus
puemas, de 2000, isto é, do período da instauração
da segunda república, da democracia multipartidária e do esplendor
do capitalismo selvagem e neoliberal, numa reiteração da indagação
às causas e às expressões das mazelas quotidianas e das
desigualdades sociais. Reiteração aprofundada, em metaforismo
desvairado, no poema “Ali ben ténpu”, de forte oposição
ao estado social das coisas inaugurado com o neoliberalismo em Cabo Verde, e
a entrada em cena dos Ali-Babá e os seus próceres, como metáfora
da cleptocracia que se ia institucionalizando.
Com
“Ali ben tenpu di Ali Babá…”, tal poesia deixou
de ser simplesmente um djátu mánsu, como ainda queriam
o prefaciador de Na Kantar di Sol e o autor do mesmo livro no poema “Azul
riba di azul”, para ser um claro testemunho e um desassombrado e necessário
apelo à subversão. Poesia de subversão impregnada de oralidade,
dir-se-ia, feita para ser dita em voz alta, com muita raiva e altissonante veemência,
para ser declamada para a conclamação da indignação
(pelas urnas, pelo espírito crítico, entenda-se, e, se a tanto
se for obrigado, pela desobediência cívica).
Poesia
de subversão que, todavia, coexiste com uma poesia mais comedida, mais
despojada do peso da oratura e da rebeldia badia, mas também mais
criativa, na sua contenção, de maior invenção e
inovação, de ritmos apaziguados na incorporação
da modernidade. Referimo-nos aos poemas constantes do caderno "Orason
pa nha chintidu (Madrigal)" do livro "Na kantar di Sol",
retomados no caderno "Piskador di stréla d'Alba" do
livro "Adon y Eva y otus poemas" bem como aos poemas do caderno
"Kanson pa nha Téra di meu" do livro "Ali ben
ténpu di Ali Babá", e ainda aos poemas em prosa "Orbadju",
"Tchuba" e "Béntu", do caderno "Orason
pa nha chintidu (Madrigal)" do livro "Na kantar di Sol".
Nesses
poemas, é patente o diálogo com o lirismo amoroso de um Eugénio
Tavares, o saudosismo de um Sérgio Frusóni ou o Emanuel Braga
Tavares do poema "Gentis ó Gentis…", o djátu
mánsu de vários momentos poéticos de Kaoberdiano Dambará
ou o funaná lentu de Katxás, Zé Henrique ou Zequinha
Magra. Atente-se, por exemplo, nos poemas "Amor y sonhu", Es
bu o dju di líriu", "Kanson y poesia na alma"
ou "Na fiu di txon".
A
circunstância de serem denominados "kansons" aponta ainda
para as suas potencialidades poético-musicais ou para o desejo íntimo
do autor em ver esses poemas musicados, o que não seria de pouca valia
para o actual panorama da música caboverdiana de todos os géneros,
marcado por alguma mediocridade poética patente na pobreza e falta de
imaginação de muitos versos e letras.
Uma
outra vertente da poesia de Danny Spínola, também evidente na
sua prosa de ficção, é a indagação das raízes
míticas da ilha e do país. Tal indagação diverge,
no entanto, tanto da estratégia utilizada pelos poetas arsinários
ou hesperitanos, como José Lopes ou Pedro Cardoso, ou do vate do povo
da Macaronésia que é T. T. Tiofe (aliás, G. T. Didial),
pois que ao contrário destes autores, os quais buscaram fundar a genealogia
de Cabo Verde em mitos greco-latinos, Danny Spínola tenta perscrutar
nos sinais ecológicos ou geo-morfológicos do país, como,
por exemplo, a imponência dos seus picos e rochedos, o halo da eternidade
ou da desmesura do tempo que se petrificam e nos interpelam para o sagrado.
É o que ocorre de forma magistral na sua torrencialidade imagética
no poema "Adon y Eva", do livro "Adon y Eva y otus
puemas".
Nesse
poema, é o Adão pétreo do Pico de António e a sua
basáltica companheira que se tornam substância poética e
correnteza de um mito de amor e de tragédia, calcinadas entre as nuvens,
para sempre postadas sobre Assomada e Santiago, e a perplexidade dos seus habitantes,
perdidos entre o nevoeiro. Nevoeiro que, aliás, marcou o início
do mundo, com um soluço suave e doce de um "tóki di gaita",
antecedente da lua e de tudo o mais (o sonho, o arco-íris, o ovo, a chuva,
a flor, o balaio, o pilão e o poilão, o vaso da vida, o konbérsu,
isto é, o verbo transmutado em tudo e todos - fauna e flora, homem e
mulher no seu labor, na louvação da lua, na sagração
do mundo e de todos os seres criados, na construção dos momentos
mais altos e bíblicos da poesia genesíaca do mundo. Situada na
angra do mundo que é Santiago de Cabo Verde e na palavra do poeta Danny
Spínola, a qual exorcisma todos os pecados.
Até
que, um dia o verbo se fez dilúvio irruptivo do Fogo e as lágrimas
do Senhor alastraram sobre o mundo e este se petrificou no alto Piku Ntoni e
se fizeram estátuas de Adon y Eva, estátuas que nos observam como
ao sonho do badio na madrugada.
3
A PROSA DE FICÇÃO
EM CRIOULO DE DANNY SPÍNOLA
Creio,
no entanto, que dos maiores contributos de Danny Spínola para a dignificação
do crioulo e da moderna literatura caboverdiana em língua caboverdiana
reside no seu labor no domínio da prosa de ficção. Tal
tendência tinha-se já indiciado com os poemas em prosa "Orbadju",
"Tchuba" e "Bentu", acima referidos, e consolida-se
com os contos em crioulo do livro Piskador di stréla d'Alba, contos
retomados agora na colectânea Lagoa Gémia.
Constitui-se,
pois o livro Lagoa Gémia dos oito contos de Piskador di Stréla
d'Alba" e de nove contos inéditos, somando, ao todo, dezassete
estórias.
Digo
estórias e não por acaso. Desde logo é o próprio
autor que a tal nos induz, ao colocar no frontespício do livro a fórmula
utilizada pelos contadores de estórias tradicionais: "stória,
stária, furtuna di séu, amén".
A
estratégia narrativa, por outro lado, funda-se, em grande medida, na
técnica do kontu tradicional, na qual sobrelevam a narração
biográfica e as peripécias conducentes à vitória
do bem, objectivado na personagem-herói, sobre o mal, a intervenção
e interferência de forças ocultas, sobrenaturais e divinas, a utilização
do discurso indirecto e do monólogo interior em lugar do diálogo,
etc.
Por outro lado, as personagens e
as suas histórias alimentam-se, algumas vezes, dos traços biográficos
de pessoas reais, nossas conhecidas, nós que nascemos e crescemos nos
planaltos e ribeiras, nas vilas e cidades da grande ilha de Santiago. Quem,
das estradas de Santiago, se não lembra de Vavá Dodu e do seu
veículo (existente somente na sua imaginação) calcorreando,
quase ininterruptamente, as estradas entre a Assomada e a Cidade da Praia?
Não
nos deixemos, no entanto, induzir em erro. A invocação de pessoas
reais ou míticas, ou de alguns traços da sua personalidade, pode
desempenhar uma dupla função: a de servir de homenagem a pessoas,
a indivíduos que marcaram o nosso imaginário de crianças
e, assim, de homenagem à nossa própria infância; a de captação
de um fio condutor que leve à construção de uma narrativa
baseada fundamentalmente na imaginação, na capacidade criativa
autónoma do autor e na libertação das teias das tradições
orais e das estórias já ouvidas contar.
Creio
que terá sido esta a estratégia urdida pelo autor. Com base nessa
estratégia, liberta-se o autor e liberta o nosso imaginário. E
tornamo-nos prodigiosos. Pois que convém dizê-lo: é prodigiosa
a imaginação, a capacidade de ficcionar de Danny Spínola.
Quer quando procede à inumação das velhas estórias
de bruxas e feiticeiras, como nas estórias Nhu Séza, Abíliu
Língua Móku, Nha Donana Fitisera ou Nhu Markês,
quer quando reinventa o mito do profeta Nhu Naxu, em Ali Ben Tenpu ou
a perseguição e a deportação dos Rabelados, e do
seu líder Nhonhô Landim, em Lagoa Gémia.
Prodígio
tanto maior e fantástico, quando, partindo de um certo telurismo, com
as suas secas e ameaças de morte por inanição, atribui,
por exemplo a certos instrumentos da nossa cultura material, como a Sinboa,
poderes mágicos, como no conto Piskador di Sinboa; ou se aproxima
dos contos de fadas como em Prínsipi d'Ángra Sagradu, Piskador
di Stréla d'Alba, Nhu Markês, Mininu d'Ôru ou Ómi
- Árvi, relevando, por vezes, a busca das origens míticas
ou a sacralização de fenómenos telúrico-naturais,
como o Monte Cara, em S. Vicente, o Monte Marquês, nos Picos, ou o Adão
do Pico d'António, denominado Sant'y Águ, quiçá
em homenagem e sinal de amizade ao autor do presente texto mediante a utilização
de parte de um dos seus heterónimos (Zé di Sant’ y Águ)
para a poesia (em crioulo).
Certos
contos, por outro lado, assemelham-se a poemas em prosa ou a puras alucinações
de poeta. Tal será o caso em Kuzas Stránhu na Mundu ou
Ótu Eva que, por isso, se aparentam ao longo e único poema
constante do último livro de poesia do autor intitulado Na nha Sol
xintádu.
Sublinhe-se
que o crioulo utilizado nos contos é de uma grande versatilidade e riqueza
lexicais e imagísticas. Na verdade, o autor tanto recorre ao crioulo
fundo e castiço do interior de Santiago, como ao crioulo urbano e
erudito, isto é, à variante mesolectal utilizada pelas pessoas
escolarizadas, sem que, no entanto, caia na tentação de descrioulização,
isto é, da fuga às características morfológicas
e sintácticas e às regras de neologização e de empréstimo
linguísticos da língua caboverdiana.
A fluência da narrativa, apoiada
na clareza da escrita com base no ALUPEC permite augurar um futuro risonho para
a emergente e moderna prosa de ficção em língua caboverdiana.
Clareza do ALUPEC que não deixa, todavia, de suscitar muitas dúvidas
e algumas controvérsias, como no caso da proliferação de
acentos nas vogais abertas, a qual, alargada à vogal aberta “A”,
é defendida e profusamente praticada nas escritas de Juergen Lang, T.
V. da Silva e Danny Spínola, extravasando assim nitidamente as regras,
também parcialmente contestáveis, propugnadas nas Bases do ALUPEC.
Com a sua já vasta obra poética
e ficcional em língua caboverdiana contribui Danny Spínola de
forma assaz relevante para a introdução do crioulo e da literatura
em crioulo no ensino formal, para a materialização do desiderato
da co-oficialização paritária do crioulo, ao lado do português,
para a superação da diglossia e para a construção
de um bilinguismo efectivo em Cabo Verde, como aliás preceitua a Constituição
da República, a partir da sua revisão em 1999.
A obra de Danny Spínola,
desigualmente construída em português e em crioulo, disseminada
pela poesia e pela narrativa de ficção, amplamente ancorada na
oralidade e navegando livremente na linguagem e no imaginário da modernidade,
é prova suficiente da sensatez de tal desiderato.
Lisboa, 20 de Julho de 2007
Nota do autor: constitui o presente
texto uma versão revista e ligeiramente aumentada do texto de apresentação
do livro de contos "Lagoa Gémia", de Danny Spínola,
a qual teve lugar a 10 de Dezembro de 2005 no Auditório da RDP, em Lisboa.
José
Luís Hopffer C. Almada
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LÁGRIMAS
DE BRONZE
Por:
José Luís Hopffer Almada
A
indagação existencial constitui a substância nuclear de
Lágrimas de Bronze de Danny Spínola. Assinada na sua primeira
edição (nos princípios dos anos noventa) pelo pseudónimo
Euricles Rodrigues, Lágrimas de Bronze, na versão aumentada e
refundida agora assinada por Danny Spínola, continua a caracterizar-
se por ser uma obra romanesca com total fragmentação e dispersão
de personagens escassamente densificadas (ainda que agora encadeadas por uma
linha condutora e memorialística que as insere na genealogia biográfica
e na história pessoal da personagem narradora), numa alegoria da dispersão
do indivíduo no nosso tempo, paralelamente à auscultação
de vários tipos sociais na sua anómala inserção
na sociedade. Narrador e personagens que são um político acometido
pela loucura do poder, um poeta, de nome Arménio (em singela homenagem
à irreverência e à intransitividade da poesia desse vate
maior, como assinala Manuel Veiga), extasiado pelos sonhos que libertam e se
posiciona contra os autoritários hierarcas de um país (o seu)
chamado Mákua, um par de amantes alucinados pela paixão, uma vitima
ressuscitada e vivendo num mundo de amnésia, seres de um mundo surrealista,
que afinal é o nosso. Outras vezes o narrador é um carniceiro
ou uma voraz ninfomaníaca embrenhada na sua toxicodependência.
O mais das vezes, são corpos perdidos no onirismo da vigília e
do pesadelo. Expressão da dilaceração desses entes desvairados
que são os habitantes urbanos das nossas cidades: narcisismo, culto do
corpo como expressão de uma desmesurada egolatria em paradoxal comunhão
com a toxicomania, o alcoolismo, a absoluta paixão pelo sexo, a náusea
esparramando-se por esses intermináveis diálogos que consigo próprios
estabelecem. Porque “cada ser de uma cidade é uma silenciosa cidade
de gritos ricocheteados no próprio ser’ a obra constrói-se
na sua fragmentação afinal como a biografia do narrador autodiegético
da segunda parte do livro, ou como uma espécie de testamento de quem,
vivendo actualmente em estado de beatitude, lega altruisticamente aos outros
a lição de vida que colheu das atribulações e turbulências
passadas. Acrescente-se que Lágrimas de Bronze é, ainda, significativa
pela utilização obsidiantemente pioneira na sua versão
egotista (à dessemelhança, por exemplo, da desbravadora de caminhos
que é Orlanda Amarílis) que nela se vislumbra do monólogo
interior enquanto técnica de análise da psique e da dilacerada
interioridade do narrador e das personagens, utilização essa que
atingirá uma elevada qualidade na poesia dos cadernos do livro Infinito
Delírio, de Na Nha Sol Xintadu ou do recentemente publicado Vagens de
Sol.
Analisando
a arquitectura da obra, Manuel Veiga sublinha a dificuldade em integrá-la
nos géneros ficcionais tradicionais, preferindo, de todo o modo, o seu
enquadramento no género “diário”. Assevera o autor
de um dos textos de apresentação pública primeira edição
da obra (integrado na actual edição como posfácio):
“o
próprio autor parece não saber o género da sua obra. Será
ficção, uma proposta estética, uma história real,
um testamento existencial? Talvez um pouco de tudo isso, algo de inacabado,
como, aliás, as próprias manifestações do “ser”
cujos contornos não somos capazes de apreender em todas as suas dimensões.”
Para
Jorge Tolentino, Lágrimas de Bronze é “um texto que assume
a modernidade literária, nomeadamente no que ela tem de desfiguração,
de inquietude, de intranquilidade, maxime em termos formais, tudo sendo, quiçá,
desdobramentos da pedrada inicial de Joyce e Woolf no charco da literatura bem-comportada.
Explicitando, escreve o ensaísta e ficcionista no texto de apresentação
pública da primeira edição e prefácio à segunda
edição da obra: “Lágrimas de Bronze encerra uma escrita
intimista pontuando esse interface sempre enigmático entre o sonho e
o real. Aliás, surpreende-se como linha de força a exaltação
do EU na mira de uma ética pessoal escorada na construção
e vivenciação de um percurso próprio, autêntico.
Assim o hino à libertação das amarras sociais. Assim o
hino à libertação do corpo enquanto espaço de liberdade
e sinceridade”. Sublinhando o lugar de inovação que ocupa
a obra, não deixa Jorge Tolentino de também lhe ressaltar “a
densidade do espaço reflexivo, da laboração filosófica
e metafísica’“a intertextualidade” bem como “a
dimensão poética’ e “o lugar e o peso da palavra,
como instrumento de nominação”.
Ressalte-se,
neste contexto, a desigualdade no nível da linguagem utilizada ao
longo
da obra, num desequilíbrio que parece acompanhar os estados psicóticos
nas várias estações de delírio, alucinação
e/ou esquizofrenia da personagem narradora, omnisciente e omnipresente na segunda
parte da obra. Se, em regra, a prosa flúi fluente e escorreita, alcançando
momentos de elevado teor reflexivo e poeticidade, que permitem integrar o texto
no poema em prosa (na prosa poética ou poemática), característica
da demais escrita de Dannny Spínola, por exemplo dos livros supra- referenciados
da sua autoria, ela inocula-se, por vezes, do calão, da gíria
e, até, da linguagem reles e obscena, que certas situações
de marginalidade propiciam, mesmo que vivenciadas por personagens altamente
colocadas, o que, desde logo, serve de instrumentário de caracterização
psico-social das mesmas personagens.
A
questão torna-se mais premente, quiçá melindrosa, e, porque
não, interessante, quando uma sensação de estranheza (não
no sentido de espanto estético, mas de quase repulsa, não moral,
mas estética) nos acode ao espírito e dilacera o fascínio
da leitura face ao inusual e insólito de rimas, imagens e metáforas,
que pelo seu absurdo, carácter notoriamente tosco e medríocre
e provocadora impunidade, destoam da atmosfera estética geral do texto.
O domínio da língua e da linguagem de que o autor dá provas
ao longo da construção da narrativa monologante bem permitem perspectivar
a hipótese de que o autor faz deliberadamente uso de um estragema linguístico
para não só melhor caracterizar o estado de delírio ou
de loucura da personagem, como também para imergir nos estados quiçá
mágicos do preocesso de criação, em que como é sabido
as palavras, majestosas, absurdas, belas, monstruosas, em todo o caso livres
e indomáveis na sua aparição, mesmo na mente criativa a
mais eruditamente pejada de auto-censura estética. Acontece que as palavras
só encerram todo o seu potencial de produzir emoção e espanto,
ou até comoção, estéticos depois de passarem pelo
crivo estético-racional do mesmo criador que, desprevenido, se deixou
apanhar em estado de descuido emocional e desvigilância estética.
Nesse sentido, torna-se interessante o choque que a baixa qualidade das rimas
causa à beleza geral do texto. Na mesma óptica, representaria
uma crítica mordaz a um certo tipo de poesia que se vem fazendo ultimamente
em Cabo Verde, que, sem prejuízo da liberdade de criação
de cada um e da arquitectura barroca que cada vate entenda impetrar na poesia
da sua lavra, se caracteriza por um fraco domínio da língua de
labor poético, uma fraudulenta e tamodiana pose erudita, um falso surrealismo,
um mal-disfarçado vazio de pensamento acobertado de hermetismo e uma
necessariamente postura filosófico-metafísica. Tais vícios
e insuficiências abundam em muita da versalhada que tem sido dada a público,
e foram “doença infantil” de muitos poetas revelados nos
anos oitenta e noventa do século passado e depois cresceram para a maturidade
de uma poesia de incontestável valor. Nem o autor destas linhas, nem
o autor actual de Lágrimas de Bronze foram imunes à doença
infantil da poesia contemporânea cabo-verdiana. Tendo renunciado ao pseudónimo
Euricles Rodrigues que assinava o livro em análise, na sua primeira edição
de 1991, bem como de inúmeros livros de poesia em português, desiguais
na qualidade dos versos e dos poemas e, até, dos livros entre si, e,
por isso foram retrabalhados sob a autoria de Danny Spínola, a manutenção
do que é notoriamente mal conseguido esteticamente tem, na nossa opinião,
o significado que acima lhe atribuímos, para além de uma comprensível
postura de manutenção de uma parte controversa que, no contexto
actual, adquire outra interpretação, para além de uma aberta,
descomplexada e autocrítica em relação ao que se vai desenvolvendo.
Ressalve-se que são vários os momentos do texto em que ao leitor
é dada a oportunidade de se confrontar com questões relativas
ao processo de criação, à liberdade de criação
e à condição do criador literário. Também
nesse aspecto são de grande pertinência e actualidade as reflexões
e as alucinações metafóricas que assaltam algumas personagens
de Lágrimas de Bronze.
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Infinito
Delírio
Por:
José Luís Hopffer Almada
No
Infinito Delírio, de Danny Spínola, que, reunindo seis “livros’
sintetiza e reelabora poemas, títulos e livros em português anteriormente
dados à estampa, encaminhando-se, na senda de um XValt Whitman, para
uma assumida “egolatria’ enquanto uma, a um tempo, delirante e meditada
exaltação do eu (sujeito poético omnipresente e omnisciente),
como estratégia de louvação e de busca de uma liberdade
pessoal irrestrita, plasmada num pessoalíssimo direito à felicidade
pessoal e na ânsia de comunhão panteísta com todos os seres
da natureza e de libertação dos homens de todos os tabus e amarras
sociais. Escreve o poeta:”Na verdade, /esse caminho que sigo/sou eu mesmo
e, como caminho que sou, mão tenho princípio nem fim. !Sobre mim
mesmo caminho incessantemente/e do pó da minha viagem/nascem asas que
ao céu alcandoram /em busca de outros destinos, /que não os da
água que sou”. Infinito Delírio (e o seu correlato em crioulo
Na nha Sol Xintadu, poema e livro) evidenciam-se como sintomáticos da
idade da neve e outras experiências, também estéticas, vivenciadas
pelo autor na Europa Central e outros lugares de reflexão e meditação,
e são comprovativos da superação da obra baptismal assinada
por Eurides Rodrigues (o primeiro pseudónimo do poeta), e do conseguimento
de uma maturidade, também estética, porque alcançada no
plano da linguagem e da arte literária, que reluzem num intenso e diversificado
metaforismo alicerçado numa patente erudição e num grande
domínio do léxico, variado na sua rica e diversificada exuberância,
e que em Vagens de Sol (o qual reúne o poema em prosa homónimo
e o poema em prosa “desígnio ou delírio”, também
constante de Infinito Delírio) se confirma como estética de meditação
de um eu, que é também o lugar central de reflexão sobre
as atribulações do mundo e da humanidade. Para Fátima Fernandes
(“Experimentar e viver a escrita em Vagens de Sol”, texto de apresentação
pública do livro), Vagens de Sol reúne em dois livros, duas partes
de uma vivência inquieta, ou melhor, desassossegada, duas sínteses
de inúmeras buscas: a busca do prazer e da plenitude; a busca da paz
suprema e do infinito; a busca da solidão do artista que se fecha sobre
cada palavra, cada imagem, cada símbolo que a imaginação
acrescenta e subtrai; interrompe, destrói e alimenta ao mesmo tempo.
Procurando firmar-se entre a reflexão e a evasão, numa espécie
de prosa poética oficinal, imaginária e simbólica, Vagens
de Sol é um livro repleto de poesia pensante”. È exactamente
de uma poesia pensante, coalhada todavia de maravilhoso (no sentido que lhe
é dado pelo surrealismo de irredutível libertação
do imaginário e da palavra que o carrega), que se trata quando se fala
da poesia lusógrafa de Danny Spínola. Tal característica
já se divisava nos momentos mais amadurecidos e elaborados (por exemplo,
no longo poema “Sede de Ser Vento” de Vítreas Labaredas),
porque conjugando emoção e ductilidade metafórica num dizer
poético desenvencilhado do pastoso hermetismo visível sobremaneira
nos poemas curtos (“epigramas”), em português, assinados por
Euricles Rodrigues. Ou como diz Fátima Fernandes, num juízo que
pode ser tornado extensivo à obra poética mais significativa de
Danny Spínola: “traçada (...) a partir do mais profundo
da imaginação, carregada de símbolos, sugestões
e imagens que passam e se cruzam em cada momento (...) com uma riqueza lexical
impressionante, a escrita de Dannny Spínola extasia-se num exercício
de recriação sistemática’ em que reminiscências
de Fernando Pessoa e Walt V[hitman se conjugam na autocriação
do sujeito poético;
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EVOCAÇÕES
DE DANNY SPÍNOLA
Quis
o poeta, escritor, self maker e colega, Danny Spínola, num gesto
de amizade e deferência, privilegiar-me ao fazer recair sobre a minha
pessoa a responsabilidade da apresentação pública do seu
mais recente livro intitulado Evocações, uma colectânea
de textos, apontamentos, reportagens e entrevistas em torno da cultura cabo-verdiana
oportunamente divulgados no país, repto que aceitei com imenso prazer
e redobrado orgulho, pelos elos de simpatia, profundo respeito e admiração
que me unem ao autor pertencente, diga-se de passagem, à fila da novíssima
geração de intelectuais cabo-verdianos, em tempo de modernidade.
Obviamente, uma obra dessa envergadura, que visa, também, proceder à
divulgação de materiais de investigação cultural,
na perspectiva essencialmente jornalística e dirigida, de preferência,
a estudantes em geral, turistas e emigrantes, “que nem sempre têm
uma visão abrangente e aprofundada das várias dimensões
da cultura cabo-verdiana, bem como a estudiosos dos fenómenos culturais”,
não poderá, de forma alguma, pela sua seriedade e rigor metodológicos,
natureza e propósitos, dissociar-se da história de vida do autor
que a concebeu e a consubstanciou, das trajectórias contextualizadas,
nem tão pouco da configuração socioespacial e dos contextos
individual, sociológico ou vivencial em que ela emerge, enquanto instrumento
de análise privilegiados. Na verdade, a leitura de um texto, seja ele
literário, linguístico ou de relações sociais, não
pode consistir apenas na sua recepção passiva, mas, antes, há
que sair dele, libertar-se da posição de receptividade passiva,
como advogava alguém, e, finalmente, construir toda a realidade mental,
socorrendo-se de contextos de análise, enquanto recurso hermenêutico.
Daí, a meu ver, se impor, à partida, a caracterização
do perfil do seu criador, se bem que em traços gerais, mas na sua ligação
estreita com o meio envolvente ou entourage, isto é, na relação
dinâmica entre o seu lugar de habitat e a vida social, de resto
suporte da volumosa e agradável obra dada à estampa e que ora
tenho a honra de apresentar a esta plateia.
Nascido
em 1962, no seio de uma família média, na pacata e histórica
Ribeira da Barca, outrora porto de escoamento de produtos agrícolas e
importante delegação aduaneira, e, hoje, comunidade piscatória
por excelência, Daniel Euricles Rodrigues Spínola, mais conhecido
por Danny Spínola, ainda cedo migrou sucessivamente para Picos, Tarrafal,
Praia, Assomada, Praia, seguindo a trajectória e a mobilidade do pai
enfermeiro, ditadas, exclusivamente, por imposições profissionais,
meramente circunstanciais. Ainda que o autor irrequieto de Evocações
esteja ligado umbilicalmente a essa importante comunidade piscatória
e rural santiaguense, o certo é que a referência maior do Danny
constituem a Assomada amada, onde faz os estudos primários e o Ciclo
Preparatório, e os respectivos arredores, em especial as localidades
de Engenho, Boa Entrada e Sedeguma, zonas agrícolas caracterizadas pela
presença de uma forte identidade colectiva, bem como de uma estrutura
sociocultural frágil, de resto pouco estratificada, fortemente horizontal
e com fraca mobilidade social, diga-se de passagem, carregada de significação
simbólica. Daí que o meio rural de interconhecimento do Concelho
de Santa Catarina, com todo o seu universo simbólico e cultural e os
correspondentes padrões ou formas de sociação, na expressão
simelliana, constitua a principal fonte de inspiração do
criador da presente colectânea, com realce, em primeira mão, para
a faixa dos velhos detentores de certa sabedoria popular, bem assim o lugar
privilegiado de estruturação do quotidiano do autor, enquanto
“significante flutuante do real-social” e rota de conhecimento.
Com efeito, o espaço santacatarinense, tanto na sua vertente rural, como
urbana, constitui o principal ambiente de socialização do autor,
estrutura a sua vida quotidiana, o seu “eu social”, através,
nomeadamente, das relações interpessoais ou redes informais, do
contacto directo com o trapiche, o boi, os tanques de água, enfim, configura
o mundo rural com os seus personagens típicos, os seus mitos, as suas
ambivalências, os seus enigmas, as suas lógicas sociais e simbólicas,
ao longo de um processo de construção, numa situação
tipicamente não urbanizada, marcando decisiva e profundamente a sua adolescência,
também povoada pelas traquinices de menino da Assomada. Curiosa e contrariamente,
o espaço urbano praiense, enquanto produto social e meio e para onde
mais tarde se transfere, a despeito da sua centralidade, da sua carga simbólica,
dos seus modelos de integração, da diversidade dos papéis
sociais, da sua notória capacidade de atracção, dos seus
estilos de vida, estímulos e oportunidades vários, dos modos de
sociabilidade que oferece, bem como da sua relativa e distintiva heterogeneidade
social e cultural, dizia eu, não chega a funcionar como meio de referência
para o autor, pois, na altura, pouco ou nada lhe dizia, pelo menos do ponto
de vista afectivo, a não ser a paisagem do mar, que, mais tarde, viria,
em parte, inspirar a sua obra poética, e, numa fase posterior, a relação
laboral que, já em plena fase de socialização secundária,
passaria a manter com a cidade, mas sem, todavia, se deixar aculturar ou assimilar,
na verdadeira acepção sociológica do conceito. Com efeito,
a presença do Danny Spínola na Praia, onde acabaria por concluir
o 2º ano do Curso Complementar dos liceus, em 1982, resulta do processo
de uma migração rural para um meio urbano, com características
espaciais peculiares, mas, sem, contudo, perder de vista a sua referência
principal - a sua apaixonada Santa Catarina -, aonde, aliás, se deslocava
frequentemente e à qual se mantinha ligado em permanência, não
obstante as influências da relativa dinâmica do então processo
de urbanização. Tratava-se, a meu ver, mais bem de uma espécie
de movimento migratório pendular, sem integração efectiva
no meio urbano “móvel” praiense, cuja personalidade rejeitava,
de forma mais ou menos consciente, tanto mais que o Danny, oriundo de “outro
lugar” e já portador de uma identidade pessoal própria,
resultante da negociação constante com o seu mundo de origem rural
e semi-urbano, não investia afectivamente nesse processo de integração
na vida urbana, na sua condição ou estatuto de migrante temporário,
por razões óbvias. Assim, basicamente, a identidade individual
de Danny Spínola, construída através de uma relação
com os lugares, testemunhos, acções e memórias com os quais
se identifica desde tenra idade e também produto da dialéctica
entre o simbólico e o imaginário, é moldada pelo seu principal
mundo referencial – todo o Concelho de Santa Catarina -, onde vai criando,
pedra a pedra, o seu próprio espaço prenhe de simbologia, fantasia,
mitos, imaginação, através de uma forte relação
empática e descomplexada.
Perfeitamente
inserido numa situação não urbanizada, caracterizada, essencialmente,
pela circunstância de a vida quotidiana se organizar e decorrer à
volta do sentido positivo do enraizamento e da não valorização
da mobilidade espacial, o autor da obra constrói o seu mundo, num espaço
concreto e personalizado, no interior do qual se exprime uma vontade de viver
em conjunto, numa relação marcada por trocas internas, apropriando-se,
assim, pouco a pouco, de um imaginário fértil que consegue, com
arte e habilidade, transpor para o plano meramente da escrita. Igualmente, não
é menos certo que o ambiente familiar no seio do qual decorre o seu processo
de socialização primária, a par da escola e de outras agências,
contribui decisivamente para a estruturação do seu sistema de
personalidade, bem como para a construção do seu mundo e horizonte
próprios, sustentados em valores altruístas e ideais nobres que
só os pais em casa lhe poderiam facultar. Com efeito, oriundo de uma
família média prestigiada do meio santacatarinense, chefiada pelo
pai enfermeiro, tão bem conhecido no Concelho pelo seu humanismo, abnegação
profissional, devoção, entrega total e simplicidade, o autor da
obra acabaria por tirar proveito da sua privilegiada extracção
social e do ambiente envolvente, que, decisivamente, configuraria a sua identidade
pessoal, moldaria o seu comportamento, despertando nele, ainda cedo, a sensibilidade
para questões de índole sociocultural, reforçada, mais
tarde, durante o arco temporal que leccionaria nos liceus da Praia, Achada de
Santo António, Várzea e Santa Catarina. Todavia, o percurso cultural
desse autodidacta e homem de cultura não se confina ao aspecto meramente
pedagógico, mas abrange outras áreas afins, com realce, nomeadamente,
para a participação activa em programas radiofónicos e
televisivos direccionados sobretudo para jovens e emigrantes e visando a investigação,
bem como para a informação e a divulgação cultural
e artística. Para além dessa vertente cultural que marca a intervenção
efectiva do autor na sociedade cabo-verdiana, sobretudo no lapso de tempo que
decorre ente 1982 e 1999, Spínola viria a tornar-se membro fundador do
prestigiado, Movimento Pró-Cultura fundado, na Praia, em Março
de 1986, por Kaká Barbosa, Daniel Spencer e José Luís Hoppfer
Almada, entre outros". 3. Esperando que entendas a minha
posição, aguardo, pois, caro Dany, a tua reacção,
logo que possível. por sinal ambos radicados em Portugal, bem assim membro
da Associação de Escritores Cabo-verdianos (AEC), com colaboração
dispersa em vários meios de informação e divulgação
nos domínios da prosa, poesia, ensaios, reportagens e entrevistas e com
vários livros já publicados. Nesta linha de raciocínio,
as motivações sobre a qual assenta a colectânea de textos
prendem-se com a sua valiosa experiência vivencial, a partir de uma relação
dialéctica e não conflitual entre o espaço urbano e o rural,
aliás, bem expressa ao longo do livro em apreço de pendor essencialmente
antropológico. Extraída de um lindo quadro da autoria do jovem
praiense de nome Paulo Rosa, a capa do livro apresenta figuras desse quadro
a óleo, um pouco em jeito dos traços de Munch, que a embelezam
e representam a mundividência cabo-verdiana, isto é, a maneira
de estar e de ser do cabo-verdiano. A sensualidade e a plasticidade dos movimentos
dessa cena são sugeridas, de forma magistral, pelos traços fusiformes
e delineados como silhuetas em pinceladas vigorosas e sugestivas. O fundo azul,
representando o céu cabo-verdiano e o ocre do terreno e de algumas figuras,
dá a dimensão do quotidiano paisagístico e vivencial do
cabo-verdiano, representando as cabeças brancas, o que se poderia apelidar,
no entender de Danny Spínola, da “pureza chã da população,
nas suas manifestações culturais”. Há, aqui,
observa Danny, o retrato do lado duro da população na sua labuta
em busca do pão, mas também o lado lúdico e espiritual
do cabo-verdiano no seu dia a dia. Todavia, apesar dos traços, entre
o naive e o impressionismo, há uma dimensão expressionista nestas
figuras que representam, no fundo, a essência da alma cabo-verdiana.
Já
do ponto de vista estritamente temporal e espacial, a obra, cuja finalidade
é a de, segundo o próprio autor, se constituir “num meio
de dinamização e incentivo ao aprofundamento do conhecimento da
realidade cabo-verdiana, e das ideias relevantes sobre essa mesma realidade,
sendo ainda uma forma de contribuir para a promoção e criatividade
artísticas”, abarca o período que decorre entre 1986
e 1998 e incide fundamentalmente sobre Santiago, berço do autor e terra
de finason, batuco e funaná, de poetas e profetas, Fogo, Santo Antão,
Brava e São Vicente. Estruturado em quatro capítulos essenciais,
o livro abrange um leque diversificado de trabalhos e entrevistas apresentados
ao longo de 468 agradáveis e bem entrosadas páginas e privilegia
uma abordagem ensaística, jornalística e, se se quiser, etnográfica,
a partir da observação e da recolha documental e de uma visão
holística do país como um todo integrado por partes diferenciadas,
aliás, o princípio bem vincado ao longo da sua volumosa obra,
em que, às vezes, as dimensões antropológica e sociológica
se cruzam, de forma harmoniosa, numa linguagem sóbria e simples, ora
mais descritiva, ora mais analítica. Assim, a primeira parte do livro,
cujo título é A cultura cabo-verdiana e as suas raízes
culturais, contém uma série de valiosos materiais concernentes
a algumas festas de romaria e ensaios de cunho antropológico de interesse
relevante. A génese e a evolução dinâmica do processo
cultural cabo-verdiana marcam forte presença nesta colectânea de
textos, através de um breve apontamento do autor, destacando elementos
essenciais desse conjunto, designadamente, a privilegiada posição
geo-estratégica e a descontinuidade territorial das ilhas; a situação
histórico-social do Arquipélago e os seus reflexos sobre a mentalidade
e a identidade cultural do cabo-verdiano; o surgimento do crioulo, que resultou
do encontro da língua portuguesa e de várias línguas e
dialectos africanos, a culinária, a música e a dança, a
literatura e as artes plásticas, que acabariam, no seu conjunto, por
configurar a tão propalada cabo-verdianidade. Nesse sucinto e supracitado
ensaio, merecem referências abonatórias a origem da música
cabo-verdiana, bem como os três principais géneros musicais cabo-verdianos
– a morna, a coladeira e o funaná -, que também corporificam
três formas diferentes de dança, todas elas com alguma dose erótica.
De entre as músicas e as danças regionais, o ensaísta,
que também valoriza a língua cabo-verdiana, pela via da escrita,
realça o batuco típico da Ilha de Santiago; a tabanca, resultado
de uma miscigenação étnica e cultural e produto de um sincretismo
religioso; e os Colá, das ilhas de S. Vicente, Santo Antão,
Fogo e Brava, exemplo vivo de um certo sincretismo religioso existente no país.
Obviamente, a literatura cabo-verdiana, com as suas tradições
orais, ou poesia popular tradicional, através do finason e do
kurkutisan, ou Rodriga, também figura no referido ensaio,
a acrescer às artes plásticas e às cantigas de trabalho,
das quais faz parte o kolá-boi, tão bem analisado, em sede
de livro, pelo conhecido poeta e escritor Oswaldo Osório. Para além
desses interessantes textos que tocam os aspectos mais diversos da realidade
antropológica cabo-verdiana, tanto na sua dimensão nacional, como
regional, a obra faz alusão, por exemplo, ao ritual sincrético
da sementeira, à seca e à fome, à sociedade ou comunidade
religiosa cristã dos Rabelados de Spinhu Branku, à Tabanka di
Txan di Tánki, à descrição das festas de romaria
de San Djon na Djabraba e do Banderóna no Fogo, de São João
Baptista no Porto Novo (Santo Antão). Sendo Cabo Verde um país
arquipelágico de “pedras e poetas”, como terá
afirmado alguém, a poética virada para a emigração
está, igualmente, bem patente na obra de Danny Spínola, através
de bem conseguidos e significativos poemas de Arnaldo França, Jorge Barbosa,
António Nunes, Manuel Lopes, Oswaldo Osório e Daniel Filipe, que
simbolizam e realçam as peripécias e as vicissitudes do processo
emigratório. A segunda parte do livro consagra-se inteiramente ao processo
literário em Cabo Verde, com uma interessante análise da produção
poética de Corsino Fortes, através, em primeiro lugar, da sua
obra prima intitulada Árvore & Tambor, empresa que cativa
e motiva Danny Spínola, aliás, profundamente tocado por uma “beleza
artística e plástica do dizer, bastante original”, para
além de várias entrevistas concedidas por eminentes escritores
cabo-verdianos.
Nessa
parte inteiramente consagrada à análise literária, o autor
procede à análise dos Poemas do escritor Arménio Vieira
produzidos entre 1971 e 1979, caracterizados pelo seu “tom intimista,
confessional e coloquial”, mas, sobretudo, pelo seu impressionante
“jeito peculiar de humor, a raiar um pouco o sarcástico,
a par de uma velada ironia (às vezes auto-ironia)”, utilizado
com particular mestria, o que, no entender de Spínola, lhe confere um
“pendor encantatório e encantador de dizer que cativa o leitor”.
De igual modo, destaca-se, ainda no plano meramente literário e inserida
na linha de cifração do social escolhida pelo autor de Evocações,
a obra de Teixeira de Sousa, através, particularmente, da análise
do Ilhéu de Contenda, “romance com maior força”
que até agora diz ele ter escrito, situado num período de transição,
que procura captar a sociedade e a dinâmica da ilha do Fogo. Ora, todos
os períodos de transição, defende na entrevista o médico
e escritor foguense, “são críticos e toda a crise tem
que ter a sua força inerente própria, quase que exclusiva. Portanto,
tinha que transmitir exactamente para o papel essa força toda que estava
implícita nessa transição”, até porque
não há, conclui Teixeira de Sousa, “transição
sem movimento para frente e rasto para trás” e isso implica,
necessariamente, “uma certa dinâmica e esta dinâmica foi
transmitida exactamente no romance ‘Ilhéu de Contenda’”.
Particularmente interessante revela-se o conteúdo de uma longa e profunda
entrevista concedida ao autor da obra por José Luís Hoppfer Almada,
para quem escrever é “antes de mais, libertar a alma da simples
poeira pensante que somos, é a forma primordial da comunhão entre
a solidão e a multidão, nesta nesga de nudez que nos doou a secularidade
da ilha”. Outrossim, contém esta não menos elucidativa
parte do livro entrevistas elucidativas com Michel Laban e Mesquitela Lima,
na sua condição de críticos literários. Já
noutra dimensão cultural, dominada essencialmente pelas artes plásticas,
a terceira parte do livro em questão analisa, logo no início,
a pintura do Mito, veiculadora, no entender de Danny Spínola, de “uma
linguagem preponderantemente simbólica, iconográfica e multidimensional
conseguida através do acasalamento feliz entre as cores, a grafia e as
figurações mais os jogos do claro/escuro, das manchas e emplastros...”,
para, depois, se mergulhar no húmus da poética pictórica
de Manuel Figueira, na pintura de Nelson Lobo e de Domingos Luísa, ou
ainda na paixão do grafite de José Maria Barreto. É que,
em última instância, convenhamos, a arte, forma de consciência
total por excelência e fonte de conhecimento e nunca o produto de um comportamento
meramente contemplativo ou passivo, reflecte, fielmente, a realidade, da maneira
mais perfeita, viva e penetrante e, por isso, pretende sempre modificar a vida.
A
parte final do capítulo reserva um breve esboço consagrado exclusivamente
à pintura cabo-verdiana com menção especial a vários
nomes sonantes do meio das artes plásticas. Assim, esta penúltima
parte do livro aborda o mundo das artes plásticas, através de
ensaios críticos e reportagens sobre alguns pintores e respectivas obras,
enquanto a última se dedica essencialmente à música cabo-verdiana,
no seu aspecto mullifacetado. Nesse espaço final dedicado exclusivamente
à cultura musical, enquanto pilar ou baluarte do sistema identitário
nacional, conceituados intérpretes e compositores de renome, à
escala de Celina Pereira, Fernando Quejas, Luís Lima, Luís Morais,
Mágra, Manel d’Novas, Vasco Martins e Zezé di Nha Reinalda,
entre outros, também marcam presença, numa espécie de encontro
de culturas na música, uma das facetas mais impressionantes de realização
artística do cabo-verdiano, que incorpora um vasto leque de comportamentos
expressivos. Na realidade, a música, perspectivada como processo social,
produto cultural e elemento fundamental da complexidade cultural do sistema,
é um domínio que extravasa o mero produto sonoro ou a representação
gráfica, prestando-se, especialmente, ao estudo adequado dos múltiplos
processos engendrados pelos encontros interculturais. Daí figurar na
parte final da obra de Spínola esse contínuo transversal que cruza
os diversos grupos da sociedade cabo-verdiana, através de relevantes
depoimentos. À guisa de conclusão, poder-se-á afirmar,
em traços gerais, que as diversas manifestações culturais
contidas, de forma harmoniosa, ao longo dos aludidos capítulos da obra,
desde a cultura, à música, passando pela literatura e artes plásticas,
constituem as principais dimensões estruturantes da sociedade cabo-verdiana
e, ao mesmo tempo, traduzem a sua crescente complexificação, à
luz das graduais mudanças que se vão operando, ao nível
nacional e em vários domínios, sob o impacto da globalização.
É, pois, nessa perspectiva que se insere a obra do Danny Spínola,
concebida num estilo próprio e privilegiando uma visão sistémica
e integradora e que, seguramente, vem fornecer pistas ou balizas interessantes
para o aprofundamento da análise da sociedade cabo-verdiana, mormente
na sua dimensão cultural. Enfim, o livro ora em análise, que reúne
materiais de diversos domínios socioculturais cabo-verdianos, com uma
intenção essencialmente sócio-pedagógica, é,
a um tempo, estou em crer, uma contribuição valiosa para o maior
conhecimento dos complexos de padrões comportamentais e da dinâmica
evolutiva da sociedade cabo-verdiana, nas suas diversas manifestações
culturais, mas ainda para a afirmação gradual de uma linha de
pesquisa social crítica, objectiva, isenta, responsável e comprometida
com o processo de desenvolvimento em curso, emergida no país, pelo menos
nos últimos anos, protagonizada por um grupo relativamente homogéneo
de estudiosos e pesquisadores nacionais, tanto residentes no país, como
na diáspora, nos mais variados domínios das ciências sociais
e humanas, a partir de uma approche multidisciplinar e holística,
bem assim do domínio de ferramentas analíticas de investigação
adequadas, na perspectiva da divulgação do conhecimento e do saber
sistematizados
César
Monteiro
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