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LIVROS PUBLICADOS

LIVROS PUBLICADOS

 

Ali Ben Ténpu di Ali Babá

Lagoa Gémia

Na Nha Sol Xintádu

Infinito delírio

Lágrimas de Bronze

 

Experimentar e Viver a Escrita em Vagens de Sol, de Danny Spínola

Por: Fátima Fernandes

 

NA SI SOL XINTADU

UM BREVE OLHAR SOBRE A POESIA E A PROSA DE FICÇÃO EM CRIOULO DE DANNY SPÍNOLA

Por: José Luís Hopffer Almada

 

LÁGRIMAS DE BRONZE

Por: José Luís Hopffer Almada

 

Infinito Delírio

Por: José Luís Hopffer Almada

 

EVOCAÇÕES DE DANNY SPÍNOLA

Por: César Monteiro

Ali Ben Ténpu di Ali Babá


É um livro de poesia em crioulo que está dividido em duas partes: Ali Ben Ténpu, e Kansons Pa Bó. A primeira parte é satírica e contestatária, retratando uma determinada fase política em Cabo Verde, e a segunda parte é lírica em que a musa cantada é a própria terra amada, transfigurada em mulher.

A linguagem utilizada é bastante metafórica com muitas expressões profundas da língua cabo-verdiana, outras cruas e duras, características de um certo desaforo santiaguense. Um ambiente de precariedade, instabilidade, e mal-estar perpassa por esse poema, pertinente e impertinente, que critica e satiriza de forma mordaz e contundente.

E no outro prato da balança, a lira, a canção, se impõe através de versos suaves e fluidos, carregados de um certo lirismo romântico, e dramático, às vezes.

O título é bastante sugestivo, bastando tão-só ser completado pelo próprio leitor para se chegar ao seu significado subentendido.

 

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Lagoa Gémia


É um livro de ficção em língua cabo-verdiana, que reúne contos de diferentes características e temáticas. Ao todo são dezassete contos.

O livro está dividido em duas partes: uma intitulada Piskador di Stréla D’Alba que possui oito contos com características semelhantes, ligada um pouco à crendice popular, a um certo mistério oculto, ao feitiço e à feitiçaria, aos finados e a uma certa fantasia, etc; e a outra intitula-se Lagoa Gémia que possui contos utópicos, fantásticos e maravilhosos, e, também, um pouco surrealistas.

Há alguns contos recriados a partir de personagens conhecidas da mundividência cabo-verdiana; há contos da linha do fantástico e do maravilhoso que criam um conjunto de lendas e mitos; e há contos que são um pouco místicos e sobrenaturais, que criam e recriam o grande filão da crença popular cabo-verdiana, povoada de bruxas, feitiçarias e finados (fantasmas).

A cultura cabo-verdiana, a forma de estar e de pensar do cabo-verdiano se encontra bem presentes nesse livro que foge bastante às normas e hábitos de publicações em crioulo, inaugurando uma linha, de certa forma, inédita de contar histórias, com alguns contos verdadeiramente surpreendentes e uma linguagem artística que, às vezes, se reveste de uma certa aura poética.

Humor, sarcasmo e ironia povoam essas histórias, ao lado do dramático, do trágico e de um certo terror.

Há mesmo um conto que se sobressai como uma saga, ou repositório de alguns aspectos importantes da história cabo-verdiana.

A forma de escrita, ou de contar as histórias, é coloquial e fluida.

 

 

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Na Nha Sol Xintádu


Na Nha Sol Xintádu é um livro de poemas em crioulo com 52 páginas, reunindo 32 poemas, sem títulos, enumerados por algarismos romanos.

O que se pode dizer di Na Nha Sol Xintádu, em primeira mão, é que é um dos mais moderno ou pós-moderno livro de poema cabo-verdiano escrito em crioulo.

É um livro que se distancia da tradição clássica e tradicional cabo-verdiana e se enfileira, em termos de poeticidade, de linguagem e de roupagem imagética e metafórica, na peugada de poemas universais e universalistas, apesar de manter bem enraizada a matriz tradicional cabo-verdiana, enfatizada pela língua.

Na Nha Sol Xintádu é um punhado de poemas, de matiz diversificado, com uma dinâmica de sons, de palavras e de vozes eivada de filosófica procura do eu, da compreensão humana e da interioridade do Homem.

São poemas que discorrem e flúem entre o sal e o sol, o salitre e a solidão, o seio e o sexo, o fogo e a cinza, pleno de questionamento sobre o corpo e a alma e o ser e o não-ser.

Com imagens e metáforas audazes e veementes, Na Nha Sol Xintádu é um espelho de múltiplas faces entre o caminhar dos homens e dos bichos, e dos anjos e dos demónios pelas vertentes do céu, da terra, das águas, dos dias, das noites, da luz e da sombra, mais os testemunhos da vida, das paixões quotidianas e da mundividência que atravessam o espírito e a alma das pessoas, tais as dificuldades, as inconstâncias, as veredas enigmáticas, as dispersões indefiníveis e imperceptíveis, etc.

Enfim, é um cântico pleno de espiritualidade e resplandecente de vida e vivência, com amor, sonho e sexo em epifonémicas transfigurações.

 

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Infinito delírio


Infinito Delírio está dividido em seis livros ou cadernos, e cada com um desses livros está dividido por sua vez em doze partes que é, simbolicamente, a medida de ouro, do Cosmos e da perfeição. O livro representa assim o universo e a sua complexidade, as manifestações cósmicas, o renascimento das coisas e a perspectiva do devir e de um certo paraíso geométrico (isto, na linha de alguns teóricos sobre a potência numérica).

O seis livros já estão em sintonia com o princípio dos antagonismos e do destino místicos; fonte de coisas temporais e intelectuais, da questão do bem e do mal, e, potencialmente, também, de uma tendência expansiva e perfeccionista.

Apesar da unicidade de estilo, no todo da obra, cada livro que a constitui possui a sua particularidade em termos formais, de linguagem e do modo de enunciação, para além dos aspectos temáticos e da essência dos conteúdos. Essencialmente imagético e metafórico, o livro possibilita uma multiplicidade de leitura, com algumas passagens próximas de um hermetismo redondo. Indo de questões ontológicas a questões metafísicas e existenciais, os poemas ressumbram a indagações filosóficas e místicas. O mistério das coisas e dos desígnios é abordado de diversos ângulos.

É um livro prenhe de simbolismo que percorre a interioridade do homem, da vida, do mundo e do Cosmos; em busca do infinito?! Ou simplesmente dele se aproximando e convivendo?!

Em sintonia com as modernidades contemporâneas, Infinito Delírio é uma obra que atinge os sentimentos dos leitores de uma forma impulsiva e profunda pelo estetismo dos versos e pela plasticidade das palavras e que exige, contudo, uma leitura atenta ponderada e analítica para se poder colher todo o seu manancial proverbial, profético, messiânico e sugestivo, devido ao seu discurso tecido de um jogo entre a luz e a sombra, o claro e o escuro, o revelado e o oculto.

É um livro para os sentidos, para ser apercebido e absorvido, pelo idealismo e musicalidade da sua escrita e pela sublimidade e fantasia do seu enunciado, às vezes idílico e lírico, às vezes etéreo, às vezes irreverente, às vezes pertinente, às vezes necessário, às vezes chã e exacta.


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Lágrimas de Bronze


É um livro de ficção que foi editado em 1990 e está sendo reeditado agora, visto que se encontra esgotado há cerca de quatro anos.

É um livro ímpar, relativamente a esse género em Cabo Verde, pela sua ausência de personagens definidas, com uma amálgama entre narrador, personagens(protagonistas e secundárias), sendo todos uma e outra coisa ao mesmo tempo; também ao nível do enredo, da trama, não há preocupação em seguir os modelos propostos de ficção, com um certo fio condutor e uma linha temporal definida, subvertendo tudo com os seus avanços e recuos e as suas reflexões e descrições sensitivas, que a tornam uma ficção intimista e confidencial, e da interioridade do ser; o tal “time in Mind” como já disse alguém.

A sua linguagem e estética está próxima da prosa poética, com uma forma peculiar de narração e descrição.

É um livro no qual se sente que não há a preocupação em ser isto ou aquilo, pretendendo-se tão-só dizer e contar coisas à sua maneira, ao sabor da pena, dos sentimentos e pensamentos que flúem como uma corrente, segundo o seu leito, e encontrando-se com outras correntes.

É um livro cheio de instinto, escrito com calor e com toda a alma.



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Experimentar e Viver a Escrita em Vagens de Sol, de Danny Spínola




A começar os sinceros agradecimentos ao autor pela escolha da apresentação de Vagens de Sol recair sobre a nossa pessoa e igualmente uma palavra para felicitar a iniciativa do apoio às Artes e Letras pelo Instituto da Biblioteca Nacional e do Livro, aqui presentes. Finalmente ao público-leitor pela simpatia e paciência que esperamos compensar com a leitura pessoal desta obra.


A moderna geração de escritores cabo-verdianos tem vindo a brindar o seu público com obras de dimensão estética e filosófica universal, reveladoras de uma consciente autonomia literária. Se é verdade que se têm alcançado progressos significativos nas últimas décadas em Cabo Verde em todos os campos do conhecimento, verdade também é que a Literatura Cabo-verdiana se vem mostrando como um domínio em franco desenvolvimento, pelas tendências artísticas múltiplas e diversificadas, traduzindo-se em cada texto experiências de escrita imaginativa e recreativa, diríamos, de grande qualidade e em notória expansão, esperamos. É neste grupo que incluímos a obra que nos convidaram a apresentar.


Começaremos pois por dizer que Vagens de Sol é uma obra cujo pequeno volume contradiz e desafia a imensidão do objecto que toma por referência: o Universo contemplado em todas as suas dimensões. Este livro reúne em dois livros, duas partes de uma vivência inquieta, melhor dizendo desassossegada, duas sínteses de inúmeras buscas:

- a busca do prazer e da plenitude

- a busca da paz suprema e do infinito

- a busca da solidão do artista que se fecha sobre cada palavra, cada imagem, cada símbolo que a imaginação acrescenta e subtrai, interrompe, destrói e alimenta ao mesmo tempo.


Procurando firmar-se entre a reflexão e a evasão, numa espécie de prosa poética oficinal, imaginária e simbólica, Vagens de Sol é um livro repleto de poesia pensante. Esta caracterização inicial advém de um primeiro contacto com o texto, assinado por um autor-sujeito que procura no trabalho poético, uma desesperada libertação espiritual, quase conseguida pelo pensar corrido e sugestivo que cada momento lhe proporciona e que cada “flash” testemunha.


Traçada então a partir do mais profundo da imaginação, carregada de símbolos, sugestões e imagens que passam e se cruzam em cada momento das partes numeradas, com uma riqueza lexical impressionante, a escrita de Danny Spínola emerge e extasia-se num exercício de recriação sistemática. Assim, somos convidados a acompanhar um ser de papel que busca incessantemente o que a realidade não lhe oferece, que vive num espaço aéreo, de desejo e ansiedade e que nos confessa em jeito de abertura:

Dói-me a cabeça, e o universo”.

Dói-me a alma, e a lágrima.

Dói-me o amor, e o seu amargo em contraponto.

Dói-me não ser um ingénuo e inocente feliz;/ Não ser o felizardo do SOL.”


Perguntamos, à partida:

- Como é possível que o universo doa??

- Como é possível que uma lágrima doa? E se:

- Quem pede para ser o felizardo do SOL não quer, no fundo, ser o próprio SOL?


No terreno das impossibilidades, auto-retratando-se, este sujeito se apresenta pelo estado de alma, de dentro para fora e diz-nos, às tantas:
“O meu espírito expande-se pelos quatro pontos cardeais. Reconcilio-me com o norte, aprecio o oriente, perscruto o ocidente e rendo-me ao sul que se estende pelo sol infinito duma tarde de estivais búzios. O sul é fascinante, qual concha entreaberta à espera de uma carícia. E diluo-me nesse sul de flor incendiada de canto para poder ressuscitar o tempo olvidado das acácias rubras de aves.”p.23


À procura de uma plenitude não encontrada, Vagens de Sol, afigura-se-nos como um trabalho de escrita inteligente, sensual e bonita na amplitude que o mundo da literatura permite ao escritor-sujeito. Com uma presença pessoana forte, uma leitura intertextual parece-nos desde já pertinente. Recuperando textos filosóficos de Fernando Pessoa, é momento para lembrar o grande poeta que se pensava pensando. Disse, melhor, escreveu Pessoa um dia que:


O sujeito ao ser pensado como sujeito é objecto.

O não-ser para ser não-ser precisa ser, isto é, ter ser;... a inversa é igualmente certa. O ser para ser não-ser precisa não-ser.

Isto vem tudo de que não-ser e ser são para nós ideias; nunca os podemos considerar absolutamente....

Ora o universo é pensado. Está portanto, nas condições de ser apreciado (contingentemente) pelos argumentos de ser e não-ser. ....

O universo aparece-nos como ser. É-nos impossível pensá-lo como não-ser, e temos que pensar, se pensamos. Mas, se pensamos o nosso pensamento, o Universo passa a ser não-ser, porque antes do conhecimento (que é o pensar o pensamento) o Universo incognoscível imediatamente, é o não ser.”1



Passando novamente ao texto de apresentação, sentimos que o exercício poético aparece em Vagens de Sol, na linha do pensamento filosófico de Fernando Pessoa, aqui concretamente no limite entre aquilo que se é e algo que se busca incessantemente ser. Senão, vejamos o que nos diz toda a página 9.


O texto constitui então um espaço aberto, nem o aqui ou o ali aparecem identificados, nem o agora é mais ou menos importante do que o depois, nem geografia, nem outros traços limitativos do espaço se fixam. Aqui o mundo que é chamado é outro, todo ele único, porque interrogado, imaginado e recuperado a cada recorte se numera e se sequencia.


Se quisermos conhecer mais profundamente o texto, diremos que as paisagens de sonho, erotismo e delírio se desenham com mais intensidade na segunda parte da obra, num convite permanente à saída para o infinito como se aí o homem pensante pudesse encontrar a eterna satisfação do corpo e da mente. Atrevemo-nos a aconselhar os leitores a começarem a leitura pelo fim. Mais difícil, mais desconcertante, sem dúvida, mas certamente mais plena.


No início dissemos que este livro parece-nos montado como numa OFICINA POÉTICA.. Permitam-nos, caros leitores que nos expliquemos um pouco melhor:

- A ideia de oficina poética traduz a forma como o autor Danny Spínola vai laborando o seu texto, pensamento a pensamento, som a som, palavra a palavra. Esta ideia de ESCRITA COMO ACTO DE CRIAÇÂO traduz uma relação única entre o autor e o texto, muitas vezes incompreensível ou indecifrável para o leitor. Por isso, se ás vezes as passagens nos parecerem sem sentido e a sequência inoportuna e enigmática, isso acontece porque o desejo de registar aquilo que se sente ou que se vai sentindo é mais forte do que a necessidade de traduzir uma lógica desse sentir. Para montar o texto, o autor cria uma ordem própria, encontra uma lógica assegurada por toda uma dimensão que é a estética.


Assim, o texto é resultado de uma arquitectura mental, o trabalho poético reflecte uma arte oficinal, a arquitectura mental procura por sua vez reflectir-se no breve ou longo registo da página, num quadro onde os elementos, as imagens se fundem num espaço que se quer perfeito. Por exemplo – a nível de sentido, este é obtido tanto pelo significado como pela sonoridade, pela ressonância, pelo ritmo que as palavras criam ao ligar-se em cada frase poema mas pela riqueza lexical, pelo trabalho sinonímico, de um eu que se experimenta através do vocabulário sensual e sugestivo.


O nível de Perfeição - embora traduza um certo respeito e o culto do rigor na escolha das palavras que registam o pensar - esse nível de perfeição pode ser questionado – pois nem sempre o próprio sujeito-ser se mostra satisfeito como se o angustiasse que a ideia, como num poema, por estar incompleta não se fixe no papel e daí saia sem estar completo.


Pelos objectos, seres e elementos que evoca, pelos sentimentos que expõe e partilha, pela presença obsessiva do feminino, do corpo, pela sensualidade original, entenda-se genesíaca e ingénua, há nesta obra uma recuperação algo mitológica da ESCRITA REFLEXO DA CRIAÇÂO DO MUNDO:

  • Há a recriação do tempo

  • Há a recriação do espaço

- Há uma recriação do sentir e do estar vazio, estando-se só sem se estar só,

- Há uma necessidade de se procurar sem se encontrar e de se encontrar numa outra metade que pode ser uma mulher, uma cor, um fruto, um delírio, um… enfim….


Danny Spínola é, como tantos outros, um poeta do mundo, sem ser mundano aparenta sê-lo, no sentido de que o sujeito se submete aos prazeres do mundo e igualmente intemporal, porque os seus referentes são irreais.


  • é o ouvido, a boca, a palavra, o canto, o céu, a flor

  • é o sangue, a palavra, as pétalas

  • é a terra, o mundo, o eu e o tu


O Universo poético é rico pelas possibilidades de explorações que o poeta coloca por vezes na valorização ambígua

  • quer na recriação do presente agora, dos instantes vividos,

  • quer pela transposição do tempo e do espaço – Porque a criação poética é também intemporal


Numa clara ruptura com a linguagem comum, destaca-se neste texto uma linguagem permanentemente sugestiva, acentuando a sua DIMENSÂO POÉTICA. A poesia deve ser aqui entendida como força criadora, espaço de identidade e de identificação do sujeito com um mundo que é único talvez por nem sequer existir. Por extensão a LITERATURA presta aqui uma homenagem aos homens escritores, à emoção deles viverem e falarem de eles próprios e de tudo dentro do texto literário.

Teoricamente falando, a expressividade de um literário mede-se pelo seu grau de probabilidade, isto é a informação que o texto nos dá sobre o estado de espírito do autor, os seus sentimentos e intenções partilhadas na mensagem poética varia muito do seu carácter inesperado. Diríamos então que quanto mais imprevisível e inesperada for a mensagem, mais rica de informação e alvo de questionamento ela se apresenta. Isto constitui para cada leitor um desafio porque ao identificar os signos da mensagem e ao transpô-los para o seu próprio código de identificação, ele poderá enfrentar dificuldades. Esse é o desafio que esta obra coloca.


Não devemos encarar esse exercício como obstáculo à leitura, ao entendimento e ao desfrute de um texto como este de que falamos. Queremos convidar o leitor a aceitar este desafio porque é nessa dificuldade, é na quantidade de enigmas, interrogações e convivência emocional com o texto que reside a beleza do acto de ler.

Quando o texto nos diz, lemos nas páginas 55 e 56…Temos aí um convite à nossa capacidade de nos inspirarmos e imaginarmos com o texto, fazer o que ele nos pede “voar com a imaginação”


Uma observação a fazer é de que neste texto o ritmo, dado pelo desequilíbrio entre os diferentes registos reflectem maior liberdade, o estar á vontade não se sentindo restringido e a quebrar o ritmo poético do texto.


Há que valorizar a mensagem por si mesma e em si mesma, acompanhar o ritmo numa íntima relação com o significado, há uma relação directa entre o ritmo da mensagem e o sentido das palavras quando se fala na expressividade de um texto. O segredo que anima a leitura desta obra está numa espécie de pacto de entendimento entre o autor, criador, inventor das ideias cuja organização e disposição no papel ele próprio determina (voltamos à ideia de oficina poética) e o leitor a quem cabe reconstruir posteriormente um novo sistema de significação e dar à obra a oportunidade de “falar”, como fazemos neste momento.


Procurámos, caros leitores, atraídos pelo poder sugestivo da linguagem, partilhar nestes minutos da apresentação da obra Vagens de Sol, de Danny Spínola, interpretar ou decifrar o código estético que o autor desenhou. Logo no título se começa a exercitar o valor das conotações dos seus componentes. Não pretendemos transformar esta sessão numa aula de análise de texto, mas quisemos destacar alguns aspectos da obra que se oferecem à sua forma própria compreensão, dar continuidade ao percurso de um autor actual e sensível às coisas do universo, este aqui ou aquele longínquo, os das sensações, delírios e tentações que alimentam a vontade de partilha entre si e cada um nós e de nós com o texto que, a partir deste momento, deixou de ser dele para ser de quem o quiser descobrir.


Boa leitura e obrigada pela vossa atenção!


Praia, 09 de Dezembro de 2005

Fátima Fernandes

 

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NA SI SOL XINTADU

UM BREVE OLHAR SOBRE A POESIA E A PROSA DE FICÇÃO EM CRIOULO DE DANNY SPÍNOLA

1

NOTA INTRODUTÓRIA

Em “Prifásiua Na Kantar di Sol (primeiro livro de poesia - e de poesia em crioulo- de Daniel Spínola, que então assinava Euricles Rodrigues) constatava eu que uma das características mais interessantes e típicas das gerações literárias reveladas depois do 25 de Abril de 1974, particularmente daquela que se afirmou nos anos oitenta e noventa do século passado é a acrescida atenção que ela, ou uma sua importante franja, dedica à nossa língua nacional. Mais acrescentava que tal característica se alicerçava numa antiga e longa tradição de escrita, a qual remonta ao século XIX e que teve dignos, conquanto desiguais, vates em individualidades como o Cónego Costa Teixeira, Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, José Bernardo Alfama, Juvenal Cabral, João José Nunes, B. Lèza, Sérgio Frusoni, Jorge Barbosa, Manuel Lopes, Mário Macedo Barbosa, Gabriel Mariano, Luís Romano, Ovídio Martins, Jorge Pedro Barbosa, Kaoberdiano Dambará, Corsino Fortes, Arménio Vieira, Artur Vieira, Kwame Kondé, entre vários outros cultores bissextos da escrita em crioulo.

Ressalte-se ainda que o crioulo merecera e vem merecendo a atenção científica, etnolinguística ou outra de autores caboverdeanos e estrangeiros, como, entre outros, António da Paula Brito, Eugénio Tavares, Pedro Cardoso, Elsie Clew-Parsons, Armando Napoleão Fernandes, Francisco Xavier da Cruz, Baltasar Lopes da Silva, Rodrigo de Sá Nogueira, Dulce Almada Duarte, Manuel Ferreira, Rosine Santos, Augusto Mesquitela Lima, Donaldo Macedo, Marlyse Baptista, Manuel Veiga, Eduardo Cardoso, John Hutchinson, João Pires, Petra Thiele, Jürgen Lang, Dulce Pereira, Nicolas Quint-Abrial, Tomé Varela da Silva, Inês Brito, Alice Matos, Hans-Peter Heilmair, António (Tony) Melício Pires.

Embora comungando com as gerações anteriores a escrita da língua materna, sobretudo no domínio da poética e nas vertentes lírica e satírica, o gosto pela recolha e reelaboração das tradições orais e os esforços de dignificação do idioma crioulo mediante o seu estudo científico e a sua descomplexada e desassombrada defesa contra tentativas várias de repressão e/ou ostracização, a especificidade das gerações literárias reveladas depois do 25 de Abril de 1974 - particularmente, daquela que se afirmou nos anos oitenta e noventa do século XX- reside na maior diversidade e na mais lata abrangência dos géneros literários e de escrita por elas cultivados.

Com efeito, as novas gerações cultivam desde a poesia - na qual se destacam, entre outros, Emanuel Braga Tavares, Kaká Barboza, Danny Spínola, Xan (Alexandre Conceição), José Luiz Tavares, Ariki Tuga (também Badiu Branku), T.V. da Silva, Zé di Sant’ y Águ, Kaliostro Fidalgo (pseudónimo de Pedro Freire), Canabrava (pseudónimo de Pedro Vieira), José António Lopes, Mário Matos, César Fernandes, Dotor Azágua-, passando pela prosa de ficção, com Manuel Veiga, Eutrópio Lima da Cruz, T.V. da Silva, Danny Spínola, Kaká Barboza, Horácio Santos ou Zizim Figueira, pelo teatro, com Kwame Kondé, Artur Vieira, Donaldo Macedo, Ano Nobo e vários novos dramaturgos, tornados visíveis por várias publicações (como as revistas “Fragmentos” e as edições “Mindelact”) e grupos de teatro, reunidos, desde a segunda metade dos anos noventa, no Mindelact, pelo ensaio científico, cultural e literário, em crioulo, com Luís Romano, Manuel Veiga, T. V. da Silva, Tuna Furtado (pseudónimo, por vezes, utilizado pelo autor destas linhas para o ensaio literário e cultural), António Melício Pires, entre outros, até ao discurso político, no qual Abílio Duarte constituiu um caso exemplar. Dignos de menção são ainda inúmeros e consagrados trovadores, os quais têm mantido a chama, a alma e a vivacidade da língua caboverdeana, por vezes com maior e mais incisivo talento que muitos versejadores que se têm publica e compenetradamente apresentado como poetas de expressão crioula, como intentou fundamentar G. T. Didial num estudo publicado como suplemento ao jornal "A Semana".

Não obstante tais evidências, a oralidade permanece como a forma essencial de expressão da capacidade criativa, artística e comunicacional do crioulo, quer nos reportemos às letras dos vários géneros musicais tradicionais e modernos, quer nos atenhamos aos géneros da oratura (ou literatura oral), como a finason e a kurkutisan, os kontus tradicionais, as adivinhas, os provérbios, os kontu nobu, os konbersu sábi, quer ainda nos refiramos a essa vivência quotidiana constatada in loco por Jorge Amado em entrevista concedida a Danny Spínola e ao autor do presente texto para o suplemento Voz di Letra do jornal Voz di Povo: “em Cabo Verde a vida decorre em crioulo”.

Para além de servir de esteio fundamental da capacidade expressiva do crioulo, a oratura tem servido de sustento e de substrato a novas formas de expressão literária genuinamente caboverdianas. Refiro-me quer ao português literário caboverdiano, de invenção claridosa (particularmente de Baltazar Lopes no romance “Chiquinho”), quer à moderna literatura em língua caboverdeana.

No que se refere a esta última situação, a pregnância da oratura tem vindo a lume por, pelo menos, duas formas: quer como objecto e matéria-prima de trabalhos de colecta, recolha e, mediatamente, de reelaboração poética ou poético-musical, como se constata no labor de vários literatos e trovadores, de matriz popular, que, muitas vezes, se contentam em sistematizar o que de profundamente metafórico, analógico e imagístico já existe nos géneros tradicionais e na rica linguagem das falas populares. Dessa démarche emerge uma espécie de oralitura, na feliz expressão de Dulce Almada Duarte, quer como escritura fundada na oratura, quer, ainda, como ponto de partida para a construção dos aliceces de uma literatura assumidamente moderna.

Literatura moderna que, não descurando o oral e o popular, vem abrindo novas vias para a ductilização, a maleabilização e o enriquecimento da capacidade expressiva do crioulo, mediante um olhar estilizante, engendrador de uma linguagem fundada essencialmente num código escrito e nas mais recentes aquisições da modernidade e da literatura universal, e, assim, para a emergência do idioma caboverdeano como moderna língua literária.

Paradigma de tal via foi a poesia cultivada, no passado, por Eugénio Tavares, Pedro Cardoso e Sérgio Frusoni, e, a partir dos anos sessenta, por um certo Kaoberdiano Dambará bem como por Ovídio Martins, Corsino Fortes ou Emanuel Braga Tavares. Mais recentemente, ela tem tido em Kaká Barboza, dos livros Son di Virason e Konfison na Finata, Danny Spínola, Xan (Alexandre Conceição) e José Luiz Tavares os seus cultores públicos mais profícuos, também no recurso a traduções ou a versões em crioulo de proeminentes poetas caboverdeanos (como no caso de Gabriel Mariano, Daniel Filipe e Osvaldo Alcântara vertidos para o crioulo por Danny Spínola) ou estrangeiros (como nos casos das versões em crioulo de poemas de Fernando Pessoa e seus heterónimos por Guedes Brandão (pseudónimo de Arnaldo França, que também verteu para o crioulo poemas de David Mourão-Ferreira), José Luiz Tavares ou Xan, de Camões por Eugénio Tavares, pelo Cónego Teixeira ou por José Luiz Tavares, ou de poesia ou prosa de ficção de lavra própria originariamente escrita em português e vertida para o crioulo por Danny Spínola e José Luiz Tavares. O caso da tradução para crioulo dos Evangelhos por Sérgio Frusoni -a partir de uma versão em dialecto romano-foi recentemente retomado por uma equipa religiosa que se encarregou da tradução do Evangelho de S. Lucas, utilizando para tanto o muito funcional ALUPEC (Alfabeto Unificado para a Escrita do Caboverdiano).

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A POÉTICA EM CRIOULO DE DANNY SPÍNOLA

No que se refere à poesia de Danny Spínola, o que salta, desde logo, à vista é a sua diversidade, a par da prolixidade do verbo. É o que se comprova nos seguintes livros: Na Kantar di Sol (1990), Adon y Eva y otus Puemas” (2000), Ali ben tenpu di Ali Babá…(1997 – 1998) e Na Nha Sol Xintádu (2004).

A diversidade da poesia de Danny Spínola verifica-se tanto na temática como na linguagem utilizada, nos seus diversos graus de aproximação à oratura, por um lado, e de experimentação de caminhos pessoais, inovadores e modernizantes de criação, por outro lado.

É assim que na poesia de contundente crítica social, como “Va ka ta va boitas di mundo”,“Pa tudu kuza un kuza” ou “Ali ben ténpu”, denota-se uma grande inter-influência entre a oralidade e a modernidade, entre os códigos da tradição oral da finason, do kontu nobu e do konbersu sábi e os códigos da poesia moderna, sustentados na elaboração oficinal da escrita. Nessa poesia, são absorvidos muitos dos processos discursivos, narrativos e imagísticos da finason, como a exaltação do quase ególatra poeta, enquanto profeta, a invocação de um interlocutor, próximo ou distante, a narração, a descrição, a utilização de metáforas, alegorias ou comparações como técnicas de exumação dos saberes do mundo, para além das técnicas do konbersu sábi, enquanto desafio poético, e do kontu nóbu, enquanto recriação e evolução com base na tradição.

O enraizamento nos géneros tradicionais denota-se ainda na utilização do vocabulário, do acervo lexical e de expressões idiomáticas típicos do crioulo fundo, isto é, da variante basilectal de Santiago, o que, para além de contribuir para a valorização do mesmo crioulo, testemunha um profundo amor do poeta à fala das nossas gentes mais castiças e à sabedoria a elas subjacente, e de que ela é depositária.

Sublinhe-se que o olhar crítico, satírico e, por vezes, virulentamente sarcástico, da poesia de Danny Spínola atravessa todos os livros do poeta. É assim que os poemas “Pa kada kuza un kuza”, “Va ka ta va boitas di mundu”, constam tanto do primeiro livro “Na kantar di Sol”, de 1990, isto é, do período da vigência do autismo e da pretensão (ainda que tímida) de omnisciência do regime de Partido Único, do “desenvolvimento que arriba”, transmutando a “revolução em evolução” e a “evolução em corrupção”, nela enredando os grandes e pequenos poderes, como do terceiro livro, Adon y Eva y otus puemas, de 2000, isto é, do período da instauração da segunda república, da democracia multipartidária e do esplendor do capitalismo selvagem e neoliberal, numa reiteração da indagação às causas e às expressões das mazelas quotidianas e das desigualdades sociais. Reiteração aprofundada, em metaforismo desvairado, no poema “Ali ben ténpu”, de forte oposição ao estado social das coisas inaugurado com o neoliberalismo em Cabo Verde, e a entrada em cena dos Ali-Babá e os seus próceres, como metáfora da cleptocracia que se ia institucionalizando.

Com “Ali ben tenpu di Ali Babá…”, tal poesia deixou de ser simplesmente um djátu mánsu, como ainda queriam o prefaciador de Na Kantar di Sol e o autor do mesmo livro no poema “Azul riba di azul”, para ser um claro testemunho e um desassombrado e necessário apelo à subversão. Poesia de subversão impregnada de oralidade, dir-se-ia, feita para ser dita em voz alta, com muita raiva e altissonante veemência, para ser declamada para a conclamação da indignação (pelas urnas, pelo espírito crítico, entenda-se, e, se a tanto se for obrigado, pela desobediência cívica).

Poesia de subversão que, todavia, coexiste com uma poesia mais comedida, mais despojada do peso da oratura e da rebeldia badia, mas também mais criativa, na sua contenção, de maior invenção e inovação, de ritmos apaziguados na incorporação da modernidade. Referimo-nos aos poemas constantes do caderno "Orason pa nha chintidu (Madrigal)" do livro "Na kantar di Sol", retomados no caderno "Piskador di stréla d'Alba" do livro "Adon y Eva y otus poemas" bem como aos poemas do caderno "Kanson pa nha Téra di meu" do livro "Ali ben ténpu di Ali Babá", e ainda aos poemas em prosa "Orbadju", "Tchuba" e "Béntu", do caderno "Orason pa nha chintidu (Madrigal)" do livro "Na kantar di Sol".

Nesses poemas, é patente o diálogo com o lirismo amoroso de um Eugénio Tavares, o saudosismo de um Sérgio Frusóni ou o Emanuel Braga Tavares do poema "Gentis ó Gentis…", o djátu mánsu de vários momentos poéticos de Kaoberdiano Dambará ou o funaná lentu de Katxás, Zé Henrique ou Zequinha Magra. Atente-se, por exemplo, nos poemas "Amor y sonhu", Es bu o dju di líriu", "Kanson y poesia na alma" ou "Na fiu di txon".

A circunstância de serem denominados "kansons" aponta ainda para as suas potencialidades poético-musicais ou para o desejo íntimo do autor em ver esses poemas musicados, o que não seria de pouca valia para o actual panorama da música caboverdiana de todos os géneros, marcado por alguma mediocridade poética patente na pobreza e falta de imaginação de muitos versos e letras.

Uma outra vertente da poesia de Danny Spínola, também evidente na sua prosa de ficção, é a indagação das raízes míticas da ilha e do país. Tal indagação diverge, no entanto, tanto da estratégia utilizada pelos poetas arsinários ou hesperitanos, como José Lopes ou Pedro Cardoso, ou do vate do povo da Macaronésia que é T. T. Tiofe (aliás, G. T. Didial), pois que ao contrário destes autores, os quais buscaram fundar a genealogia de Cabo Verde em mitos greco-latinos, Danny Spínola tenta perscrutar nos sinais ecológicos ou geo-morfológicos do país, como, por exemplo, a imponência dos seus picos e rochedos, o halo da eternidade ou da desmesura do tempo que se petrificam e nos interpelam para o sagrado. É o que ocorre de forma magistral na sua torrencialidade imagética no poema "Adon y Eva", do livro "Adon y Eva y otus puemas".

Nesse poema, é o Adão pétreo do Pico de António e a sua basáltica companheira que se tornam substância poética e correnteza de um mito de amor e de tragédia, calcinadas entre as nuvens, para sempre postadas sobre Assomada e Santiago, e a perplexidade dos seus habitantes, perdidos entre o nevoeiro. Nevoeiro que, aliás, marcou o início do mundo, com um soluço suave e doce de um "tóki di gaita", antecedente da lua e de tudo o mais (o sonho, o arco-íris, o ovo, a chuva, a flor, o balaio, o pilão e o poilão, o vaso da vida, o konbérsu, isto é, o verbo transmutado em tudo e todos - fauna e flora, homem e mulher no seu labor, na louvação da lua, na sagração do mundo e de todos os seres criados, na construção dos momentos mais altos e bíblicos da poesia genesíaca do mundo. Situada na angra do mundo que é Santiago de Cabo Verde e na palavra do poeta Danny Spínola, a qual exorcisma todos os pecados.

Até que, um dia o verbo se fez dilúvio irruptivo do Fogo e as lágrimas do Senhor alastraram sobre o mundo e este se petrificou no alto Piku Ntoni e se fizeram estátuas de Adon y Eva, estátuas que nos observam como ao sonho do badio na madrugada.

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A PROSA DE FICÇÃO EM CRIOULO DE DANNY SPÍNOLA

Creio, no entanto, que dos maiores contributos de Danny Spínola para a dignificação do crioulo e da moderna literatura caboverdiana em língua caboverdiana reside no seu labor no domínio da prosa de ficção. Tal tendência tinha-se já indiciado com os poemas em prosa "Orbadju", "Tchuba" e "Bentu", acima referidos, e consolida-se com os contos em crioulo do livro Piskador di stréla d'Alba, contos retomados agora na colectânea Lagoa Gémia.

Constitui-se, pois o livro Lagoa Gémia dos oito contos de Piskador di Stréla d'Alba" e de nove contos inéditos, somando, ao todo, dezassete estórias.

Digo estórias e não por acaso. Desde logo é o próprio autor que a tal nos induz, ao colocar no frontespício do livro a fórmula utilizada pelos contadores de estórias tradicionais: "stória, stária, furtuna di séu, amén".

A estratégia narrativa, por outro lado, funda-se, em grande medida, na técnica do kontu tradicional, na qual sobrelevam a narração biográfica e as peripécias conducentes à vitória do bem, objectivado na personagem-herói, sobre o mal, a intervenção e interferência de forças ocultas, sobrenaturais e divinas, a utilização do discurso indirecto e do monólogo interior em lugar do diálogo, etc.

Por outro lado, as personagens e as suas histórias alimentam-se, algumas vezes, dos traços biográficos de pessoas reais, nossas conhecidas, nós que nascemos e crescemos nos planaltos e ribeiras, nas vilas e cidades da grande ilha de Santiago. Quem, das estradas de Santiago, se não lembra de Vavá Dodu e do seu veículo (existente somente na sua imaginação) calcorreando, quase ininterruptamente, as estradas entre a Assomada e a Cidade da Praia?

Não nos deixemos, no entanto, induzir em erro. A invocação de pessoas reais ou míticas, ou de alguns traços da sua personalidade, pode desempenhar uma dupla função: a de servir de homenagem a pessoas, a indivíduos que marcaram o nosso imaginário de crianças e, assim, de homenagem à nossa própria infância; a de captação de um fio condutor que leve à construção de uma narrativa baseada fundamentalmente na imaginação, na capacidade criativa autónoma do autor e na libertação das teias das tradições orais e das estórias já ouvidas contar.

Creio que terá sido esta a estratégia urdida pelo autor. Com base nessa estratégia, liberta-se o autor e liberta o nosso imaginário. E tornamo-nos prodigiosos. Pois que convém dizê-lo: é prodigiosa a imaginação, a capacidade de ficcionar de Danny Spínola. Quer quando procede à inumação das velhas estórias de bruxas e feiticeiras, como nas estórias Nhu Séza, Abíliu Língua Móku, Nha Donana Fitisera ou Nhu Markês, quer quando reinventa o mito do profeta Nhu Naxu, em Ali Ben Tenpu ou a perseguição e a deportação dos Rabelados, e do seu líder Nhonhô Landim, em Lagoa Gémia.

Prodígio tanto maior e fantástico, quando, partindo de um certo telurismo, com as suas secas e ameaças de morte por inanição, atribui, por exemplo a certos instrumentos da nossa cultura material, como a Sinboa, poderes mágicos, como no conto Piskador di Sinboa; ou se aproxima dos contos de fadas como em Prínsipi d'Ángra Sagradu, Piskador di Stréla d'Alba, Nhu Markês, Mininu d'Ôru ou Ómi - Árvi, relevando, por vezes, a busca das origens míticas ou a sacralização de fenómenos telúrico-naturais, como o Monte Cara, em S. Vicente, o Monte Marquês, nos Picos, ou o Adão do Pico d'António, denominado Sant'y Águ, quiçá em homenagem e sinal de amizade ao autor do presente texto mediante a utilização de parte de um dos seus heterónimos (Zé di Sant’ y Águ) para a poesia (em crioulo).

Certos contos, por outro lado, assemelham-se a poemas em prosa ou a puras alucinações de poeta. Tal será o caso em Kuzas Stránhu na Mundu ou Ótu Eva que, por isso, se aparentam ao longo e único poema constante do último livro de poesia do autor intitulado Na nha Sol xintádu.

Sublinhe-se que o crioulo utilizado nos contos é de uma grande versatilidade e riqueza lexicais e imagísticas. Na verdade, o autor tanto recorre ao crioulo fundo e castiço do interior de Santiago, como ao crioulo urbano e erudito, isto é, à variante mesolectal utilizada pelas pessoas escolarizadas, sem que, no entanto, caia na tentação de descrioulização, isto é, da fuga às características morfológicas e sintácticas e às regras de neologização e de empréstimo linguísticos da língua caboverdiana.

A fluência da narrativa, apoiada na clareza da escrita com base no ALUPEC permite augurar um futuro risonho para a emergente e moderna prosa de ficção em língua caboverdiana. Clareza do ALUPEC que não deixa, todavia, de suscitar muitas dúvidas e algumas controvérsias, como no caso da proliferação de acentos nas vogais abertas, a qual, alargada à vogal aberta “A”, é defendida e profusamente praticada nas escritas de Juergen Lang, T. V. da Silva e Danny Spínola, extravasando assim nitidamente as regras, também parcialmente contestáveis, propugnadas nas Bases do ALUPEC.

Com a sua já vasta obra poética e ficcional em língua caboverdiana contribui Danny Spínola de forma assaz relevante para a introdução do crioulo e da literatura em crioulo no ensino formal, para a materialização do desiderato da co-oficialização paritária do crioulo, ao lado do português, para a superação da diglossia e para a construção de um bilinguismo efectivo em Cabo Verde, como aliás preceitua a Constituição da República, a partir da sua revisão em 1999.

A obra de Danny Spínola, desigualmente construída em português e em crioulo, disseminada pela poesia e pela narrativa de ficção, amplamente ancorada na oralidade e navegando livremente na linguagem e no imaginário da modernidade, é prova suficiente da sensatez de tal desiderato.

Lisboa, 20 de Julho de 2007

Nota do autor: constitui o presente texto uma versão revista e ligeiramente aumentada do texto de apresentação do livro de contos "Lagoa Gémia", de Danny Spínola, a qual teve lugar a 10 de Dezembro de 2005 no Auditório da RDP, em Lisboa.


José Luís Hopffer C. Almada


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LÁGRIMAS DE BRONZE


Por: José Luís Hopffer Almada


A indagação existencial constitui a substância nuclear de Lágrimas de Bronze de Danny Spínola. Assinada na sua primeira edição (nos princípios dos anos noventa) pelo pseudónimo Euricles Rodrigues, Lágrimas de Bronze, na versão aumentada e refundida agora assinada por Danny Spínola, continua a caracterizar- se por ser uma obra romanesca com total fragmentação e dispersão de personagens escassamente densificadas (ainda que agora encadeadas por uma linha condutora e memorialística que as insere na genealogia biográfica e na história pessoal da personagem narradora), numa alegoria da dispersão do indivíduo no nosso tempo, paralelamente à auscultação de vários tipos sociais na sua anómala inserção na sociedade. Narrador e personagens que são um político acometido pela loucura do poder, um poeta, de nome Arménio (em singela homenagem à irreverência e à intransitividade da poesia desse vate maior, como assinala Manuel Veiga), extasiado pelos sonhos que libertam e se posiciona contra os autoritários hierarcas de um país (o seu) chamado Mákua, um par de amantes alucinados pela paixão, uma vitima ressuscitada e vivendo num mundo de amnésia, seres de um mundo surrealista, que afinal é o nosso. Outras vezes o narrador é um carniceiro ou uma voraz ninfomaníaca embrenhada na sua toxicodependência. O mais das vezes, são corpos perdidos no onirismo da vigília e do pesadelo. Expressão da dilaceração desses entes desvairados que são os habitantes urbanos das nossas cidades: narcisismo, culto do corpo como expressão de uma desmesurada egolatria em paradoxal comunhão com a toxicomania, o alcoolismo, a absoluta paixão pelo sexo, a náusea esparramando-se por esses intermináveis diálogos que consigo próprios estabelecem. Porque “cada ser de uma cidade é uma silenciosa cidade de gritos ricocheteados no próprio ser’ a obra constrói-se na sua fragmentação afinal como a biografia do narrador autodiegético da segunda parte do livro, ou como uma espécie de testamento de quem, vivendo actualmente em estado de beatitude, lega altruisticamente aos outros a lição de vida que colheu das atribulações e turbulências passadas. Acrescente-se que Lágrimas de Bronze é, ainda, significativa pela utilização obsidiantemente pioneira na sua versão egotista (à dessemelhança, por exemplo, da desbravadora de caminhos que é Orlanda Amarílis) que nela se vislumbra do monólogo interior enquanto técnica de análise da psique e da dilacerada interioridade do narrador e das personagens, utilização essa que atingirá uma elevada qualidade na poesia dos cadernos do livro Infinito Delírio, de Na Nha Sol Xintadu ou do recentemente publicado Vagens de Sol.

Analisando a arquitectura da obra, Manuel Veiga sublinha a dificuldade em integrá-la nos géneros ficcionais tradicionais, preferindo, de todo o modo, o seu enquadramento no género “diário”. Assevera o autor de um dos textos de apresentação pública primeira edição da obra (integrado na actual edição como posfácio):

o próprio autor parece não saber o género da sua obra. Será ficção, uma proposta estética, uma história real, um testamento existencial? Talvez um pouco de tudo isso, algo de inacabado, como, aliás, as próprias manifestações do “ser” cujos contornos não somos capazes de apreender em todas as suas dimensões.”

Para Jorge Tolentino, Lágrimas de Bronze é “um texto que assume a modernidade literária, nomeadamente no que ela tem de desfiguração, de inquietude, de intranquilidade, maxime em termos formais, tudo sendo, quiçá, desdobramentos da pedrada inicial de Joyce e Woolf no charco da literatura bem-comportada. Explicitando, escreve o ensaísta e ficcionista no texto de apresentação pública da primeira edição e prefácio à segunda edição da obra: “Lágrimas de Bronze encerra uma escrita intimista pontuando esse interface sempre enigmático entre o sonho e o real. Aliás, surpreende-se como linha de força a exaltação do EU na mira de uma ética pessoal escorada na construção e vivenciação de um percurso próprio, autêntico. Assim o hino à libertação das amarras sociais. Assim o hino à libertação do corpo enquanto espaço de liberdade e sinceridade”. Sublinhando o lugar de inovação que ocupa a obra, não deixa Jorge Tolentino de também lhe ressaltar “a densidade do espaço reflexivo, da laboração filosófica e metafísica’“a intertextualidade” bem como “a dimensão poética’ e “o lugar e o peso da palavra, como instrumento de nominação”.

Ressalte-se, neste contexto, a desigualdade no nível da linguagem utilizada ao

longo da obra, num desequilíbrio que parece acompanhar os estados psicóticos nas várias estações de delírio, alucinação e/ou esquizofrenia da personagem narradora, omnisciente e omnipresente na segunda parte da obra. Se, em regra, a prosa flúi fluente e escorreita, alcançando momentos de elevado teor reflexivo e poeticidade, que permitem integrar o texto no poema em prosa (na prosa poética ou poemática), característica da demais escrita de Dannny Spínola, por exemplo dos livros supra- referenciados da sua autoria, ela inocula-se, por vezes, do calão, da gíria e, até, da linguagem reles e obscena, que certas situações de marginalidade propiciam, mesmo que vivenciadas por personagens altamente colocadas, o que, desde logo, serve de instrumentário de caracterização psico-social das mesmas personagens.

A questão torna-se mais premente, quiçá melindrosa, e, porque não, interessante, quando uma sensação de estranheza (não no sentido de espanto estético, mas de quase repulsa, não moral, mas estética) nos acode ao espírito e dilacera o fascínio da leitura face ao inusual e insólito de rimas, imagens e metáforas, que pelo seu absurdo, carácter notoriamente tosco e medríocre e provocadora impunidade, destoam da atmosfera estética geral do texto. O domínio da língua e da linguagem de que o autor dá provas ao longo da construção da narrativa monologante bem permitem perspectivar a hipótese de que o autor faz deliberadamente uso de um estragema linguístico para não só melhor caracterizar o estado de delírio ou de loucura da personagem, como também para imergir nos estados quiçá mágicos do preocesso de criação, em que como é sabido as palavras, majestosas, absurdas, belas, monstruosas, em todo o caso livres e indomáveis na sua aparição, mesmo na mente criativa a mais eruditamente pejada de auto-censura estética. Acontece que as palavras só encerram todo o seu potencial de produzir emoção e espanto, ou até comoção, estéticos depois de passarem pelo crivo estético-racional do mesmo criador que, desprevenido, se deixou apanhar em estado de descuido emocional e desvigilância estética. Nesse sentido, torna-se interessante o choque que a baixa qualidade das rimas causa à beleza geral do texto. Na mesma óptica, representaria uma crítica mordaz a um certo tipo de poesia que se vem fazendo ultimamente em Cabo Verde, que, sem prejuízo da liberdade de criação de cada um e da arquitectura barroca que cada vate entenda impetrar na poesia da sua lavra, se caracteriza por um fraco domínio da língua de labor poético, uma fraudulenta e tamodiana pose erudita, um falso surrealismo, um mal-disfarçado vazio de pensamento acobertado de hermetismo e uma necessariamente postura filosófico-metafísica. Tais vícios e insuficiências abundam em muita da versalhada que tem sido dada a público, e foram “doença infantil” de muitos poetas revelados nos anos oitenta e noventa do século passado e depois cresceram para a maturidade de uma poesia de incontestável valor. Nem o autor destas linhas, nem o autor actual de Lágrimas de Bronze foram imunes à doença infantil da poesia contemporânea cabo-verdiana. Tendo renunciado ao pseudónimo Euricles Rodrigues que assinava o livro em análise, na sua primeira edição de 1991, bem como de inúmeros livros de poesia em português, desiguais na qualidade dos versos e dos poemas e, até, dos livros entre si, e, por isso foram retrabalhados sob a autoria de Danny Spínola, a manutenção do que é notoriamente mal conseguido esteticamente tem, na nossa opinião, o significado que acima lhe atribuímos, para além de uma comprensível postura de manutenção de uma parte controversa que, no contexto actual, adquire outra interpretação, para além de uma aberta, descomplexada e autocrítica em relação ao que se vai desenvolvendo. Ressalve-se que são vários os momentos do texto em que ao leitor é dada a oportunidade de se confrontar com questões relativas ao processo de criação, à liberdade de criação e à condição do criador literário. Também nesse aspecto são de grande pertinência e actualidade as reflexões e as alucinações metafóricas que assaltam algumas personagens de Lágrimas de Bronze.



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Infinito Delírio


Por: José Luís Hopffer Almada



No Infinito Delírio, de Danny Spínola, que, reunindo seis “livros’ sintetiza e reelabora poemas, títulos e livros em português anteriormente dados à estampa, encaminhando-se, na senda de um XValt Whitman, para uma assumida “egolatria’ enquanto uma, a um tempo, delirante e meditada exaltação do eu (sujeito poético omnipresente e omnisciente), como estratégia de louvação e de busca de uma liberdade pessoal irrestrita, plasmada num pessoalíssimo direito à felicidade pessoal e na ânsia de comunhão panteísta com todos os seres da natureza e de libertação dos homens de todos os tabus e amarras sociais. Escreve o poeta:”Na verdade, /esse caminho que sigo/sou eu mesmo e, como caminho que sou, mão tenho princípio nem fim. !Sobre mim mesmo caminho incessantemente/e do pó da minha viagem/nascem asas que ao céu alcandoram /em busca de outros destinos, /que não os da água que sou”. Infinito Delírio (e o seu correlato em crioulo Na nha Sol Xintadu, poema e livro) evidenciam-se como sintomáticos da idade da neve e outras experiências, também estéticas, vivenciadas pelo autor na Europa Central e outros lugares de reflexão e meditação, e são comprovativos da superação da obra baptismal assinada por Eurides Rodrigues (o primeiro pseudónimo do poeta), e do conseguimento de uma maturidade, também estética, porque alcançada no plano da linguagem e da arte literária, que reluzem num intenso e diversificado metaforismo alicerçado numa patente erudição e num grande domínio do léxico, variado na sua rica e diversificada exuberância, e que em Vagens de Sol (o qual reúne o poema em prosa homónimo e o poema em prosa “desígnio ou delírio”, também constante de Infinito Delírio) se confirma como estética de meditação de um eu, que é também o lugar central de reflexão sobre as atribulações do mundo e da humanidade. Para Fátima Fernandes (“Experimentar e viver a escrita em Vagens de Sol”, texto de apresentação pública do livro), Vagens de Sol reúne em dois livros, duas partes de uma vivência inquieta, ou melhor, desassossegada, duas sínteses de inúmeras buscas: a busca do prazer e da plenitude; a busca da paz suprema e do infinito; a busca da solidão do artista que se fecha sobre cada palavra, cada imagem, cada símbolo que a imaginação acrescenta e subtrai; interrompe, destrói e alimenta ao mesmo tempo. Procurando firmar-se entre a reflexão e a evasão, numa espécie de prosa poética oficinal, imaginária e simbólica, Vagens de Sol é um livro repleto de poesia pensante”. È exactamente de uma poesia pensante, coalhada todavia de maravilhoso (no sentido que lhe é dado pelo surrealismo de irredutível libertação do imaginário e da palavra que o carrega), que se trata quando se fala da poesia lusógrafa de Danny Spínola. Tal característica já se divisava nos momentos mais amadurecidos e elaborados (por exemplo, no longo poema “Sede de Ser Vento” de Vítreas Labaredas), porque conjugando emoção e ductilidade metafórica num dizer poético desenvencilhado do pastoso hermetismo visível sobremaneira nos poemas curtos (“epigramas”), em português, assinados por Euricles Rodrigues. Ou como diz Fátima Fernandes, num juízo que pode ser tornado extensivo à obra poética mais significativa de Danny Spínola: “traçada (...) a partir do mais profundo da imaginação, carregada de símbolos, sugestões e imagens que passam e se cruzam em cada momento (...) com uma riqueza lexical impressionante, a escrita de Dannny Spínola extasia-se num exercício de recriação sistemática’ em que reminiscências de Fernando Pessoa e Walt V[hitman se conjugam na autocriação do sujeito poético;


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EVOCAÇÕES DE DANNY SPÍNOLA

 

Quis o poeta, escritor, self maker e colega, Danny Spínola, num gesto de amizade e deferência, privilegiar-me ao fazer recair sobre a minha pessoa a responsabilidade da apresentação pública do seu mais recente livro intitulado Evocações, uma colectânea de textos, apontamentos, reportagens e entrevistas em torno da cultura cabo-verdiana oportunamente divulgados no país, repto que aceitei com imenso prazer e redobrado orgulho, pelos elos de simpatia, profundo respeito e admiração que me unem ao autor pertencente, diga-se de passagem, à fila da novíssima geração de intelectuais cabo-verdianos, em tempo de modernidade. Obviamente, uma obra dessa envergadura, que visa, também, proceder à divulgação de materiais de investigação cultural, na perspectiva essencialmente jornalística e dirigida, de preferência, a estudantes em geral, turistas e emigrantes, “que nem sempre têm uma visão abrangente e aprofundada das várias dimensões da cultura cabo-verdiana, bem como a estudiosos dos fenómenos culturais”, não poderá, de forma alguma, pela sua seriedade e rigor metodológicos, natureza e propósitos, dissociar-se da história de vida do autor que a concebeu e a consubstanciou, das trajectórias contextualizadas, nem tão pouco da configuração socioespacial e dos contextos individual, sociológico ou vivencial em que ela emerge, enquanto instrumento de análise privilegiados. Na verdade, a leitura de um texto, seja ele literário, linguístico ou de relações sociais, não pode consistir apenas na sua recepção passiva, mas, antes, há que sair dele, libertar-se da posição de receptividade passiva, como advogava alguém, e, finalmente, construir toda a realidade mental, socorrendo-se de contextos de análise, enquanto recurso hermenêutico. Daí, a meu ver, se impor, à partida, a caracterização do perfil do seu criador, se bem que em traços gerais, mas na sua ligação estreita com o meio envolvente ou entourage, isto é, na relação dinâmica entre o seu lugar de habitat e a vida social, de resto suporte da volumosa e agradável obra dada à estampa e que ora tenho a honra de apresentar a esta plateia.

Nascido em 1962, no seio de uma família média, na pacata e histórica Ribeira da Barca, outrora porto de escoamento de produtos agrícolas e importante delegação aduaneira, e, hoje, comunidade piscatória por excelência, Daniel Euricles Rodrigues Spínola, mais conhecido por Danny Spínola, ainda cedo migrou sucessivamente para Picos, Tarrafal, Praia, Assomada, Praia, seguindo a trajectória e a mobilidade do pai enfermeiro, ditadas, exclusivamente, por imposições profissionais, meramente circunstanciais. Ainda que o autor irrequieto de Evocações esteja ligado umbilicalmente a essa importante comunidade piscatória e rural santiaguense, o certo é que a referência maior do Danny constituem a Assomada amada, onde faz os estudos primários e o Ciclo Preparatório, e os respectivos arredores, em especial as localidades de Engenho, Boa Entrada e Sedeguma, zonas agrícolas caracterizadas pela presença de uma forte identidade colectiva, bem como de uma estrutura sociocultural frágil, de resto pouco estratificada, fortemente horizontal e com fraca mobilidade social, diga-se de passagem, carregada de significação simbólica. Daí que o meio rural de interconhecimento do Concelho de Santa Catarina, com todo o seu universo simbólico e cultural e os correspondentes padrões ou formas de sociação, na expressão simelliana, constitua a principal fonte de inspiração do criador da presente colectânea, com realce, em primeira mão, para a faixa dos velhos detentores de certa sabedoria popular, bem assim o lugar privilegiado de estruturação do quotidiano do autor, enquanto “significante flutuante do real-social” e rota de conhecimento. Com efeito, o espaço santacatarinense, tanto na sua vertente rural, como urbana, constitui o principal ambiente de socialização do autor, estrutura a sua vida quotidiana, o seu “eu social”, através, nomeadamente, das relações interpessoais ou redes informais, do contacto directo com o trapiche, o boi, os tanques de água, enfim, configura o mundo rural com os seus personagens típicos, os seus mitos, as suas ambivalências, os seus enigmas, as suas lógicas sociais e simbólicas, ao longo de um processo de construção, numa situação tipicamente não urbanizada, marcando decisiva e profundamente a sua adolescência, também povoada pelas traquinices de menino da Assomada. Curiosa e contrariamente, o espaço urbano praiense, enquanto produto social e meio e para onde mais tarde se transfere, a despeito da sua centralidade, da sua carga simbólica, dos seus modelos de integração, da diversidade dos papéis sociais, da sua notória capacidade de atracção, dos seus estilos de vida, estímulos e oportunidades vários, dos modos de sociabilidade que oferece, bem como da sua relativa e distintiva heterogeneidade social e cultural, dizia eu, não chega a funcionar como meio de referência para o autor, pois, na altura, pouco ou nada lhe dizia, pelo menos do ponto de vista afectivo, a não ser a paisagem do mar, que, mais tarde, viria, em parte, inspirar a sua obra poética, e, numa fase posterior, a relação laboral que, já em plena fase de socialização secundária, passaria a manter com a cidade, mas sem, todavia, se deixar aculturar ou assimilar, na verdadeira acepção sociológica do conceito. Com efeito, a presença do Danny Spínola na Praia, onde acabaria por concluir o 2º ano do Curso Complementar dos liceus, em 1982, resulta do processo de uma migração rural para um meio urbano, com características espaciais peculiares, mas, sem, contudo, perder de vista a sua referência principal - a sua apaixonada Santa Catarina -, aonde, aliás, se deslocava frequentemente e à qual se mantinha ligado em permanência, não obstante as influências da relativa dinâmica do então processo de urbanização. Tratava-se, a meu ver, mais bem de uma espécie de movimento migratório pendular, sem integração efectiva no meio urbano “móvel” praiense, cuja personalidade rejeitava, de forma mais ou menos consciente, tanto mais que o Danny, oriundo de “outro lugar” e já portador de uma identidade pessoal própria, resultante da negociação constante com o seu mundo de origem rural e semi-urbano, não investia afectivamente nesse processo de integração na vida urbana, na sua condição ou estatuto de migrante temporário, por razões óbvias. Assim, basicamente, a identidade individual de Danny Spínola, construída através de uma relação com os lugares, testemunhos, acções e memórias com os quais se identifica desde tenra idade e também produto da dialéctica entre o simbólico e o imaginário, é moldada pelo seu principal mundo referencial – todo o Concelho de Santa Catarina -, onde vai criando, pedra a pedra, o seu próprio espaço prenhe de simbologia, fantasia, mitos, imaginação, através de uma forte relação empática e descomplexada.

Perfeitamente inserido numa situação não urbanizada, caracterizada, essencialmente, pela circunstância de a vida quotidiana se organizar e decorrer à volta do sentido positivo do enraizamento e da não valorização da mobilidade espacial, o autor da obra constrói o seu mundo, num espaço concreto e personalizado, no interior do qual se exprime uma vontade de viver em conjunto, numa relação marcada por trocas internas, apropriando-se, assim, pouco a pouco, de um imaginário fértil que consegue, com arte e habilidade, transpor para o plano meramente da escrita. Igualmente, não é menos certo que o ambiente familiar no seio do qual decorre o seu processo de socialização primária, a par da escola e de outras agências, contribui decisivamente para a estruturação do seu sistema de personalidade, bem como para a construção do seu mundo e horizonte próprios, sustentados em valores altruístas e ideais nobres que só os pais em casa lhe poderiam facultar. Com efeito, oriundo de uma família média prestigiada do meio santacatarinense, chefiada pelo pai enfermeiro, tão bem conhecido no Concelho pelo seu humanismo, abnegação profissional, devoção, entrega total e simplicidade, o autor da obra acabaria por tirar proveito da sua privilegiada extracção social e do ambiente envolvente, que, decisivamente, configuraria a sua identidade pessoal, moldaria o seu comportamento, despertando nele, ainda cedo, a sensibilidade para questões de índole sociocultural, reforçada, mais tarde, durante o arco temporal que leccionaria nos liceus da Praia, Achada de Santo António, Várzea e Santa Catarina. Todavia, o percurso cultural desse autodidacta e homem de cultura não se confina ao aspecto meramente pedagógico, mas abrange outras áreas afins, com realce, nomeadamente, para a participação activa em programas radiofónicos e televisivos direccionados sobretudo para jovens e emigrantes e visando a investigação, bem como para a informação e a divulgação cultural e artística. Para além dessa vertente cultural que marca a intervenção efectiva do autor na sociedade cabo-verdiana, sobretudo no lapso de tempo que decorre ente 1982 e 1999, Spínola viria a tornar-se membro fundador do prestigiado, Movimento Pró-Cultura fundado, na Praia, em Março de 1986, por Kaká Barbosa, Daniel Spencer e José Luís Hoppfer Almada, entre outros".     3. Esperando que entendas a minha posição, aguardo, pois, caro Dany, a tua reacção, logo que possível. por sinal ambos radicados em Portugal, bem assim membro da Associação de Escritores Cabo-verdianos (AEC), com colaboração dispersa em vários meios de informação e divulgação nos domínios da prosa, poesia, ensaios, reportagens e entrevistas e com vários livros já publicados. Nesta linha de raciocínio, as motivações sobre a qual assenta a colectânea de textos prendem-se com a sua valiosa experiência vivencial, a partir de uma relação dialéctica e não conflitual entre o espaço urbano e o rural, aliás, bem expressa ao longo do livro em apreço de pendor essencialmente antropológico. Extraída de um lindo quadro da autoria do jovem praiense de nome Paulo Rosa, a capa do livro apresenta figuras desse quadro a óleo, um pouco em jeito dos traços de Munch, que a embelezam e representam a mundividência cabo-verdiana, isto é, a maneira de estar e de ser do cabo-verdiano. A sensualidade e a plasticidade dos movimentos dessa cena são sugeridas, de forma magistral, pelos traços fusiformes e delineados como silhuetas em pinceladas vigorosas e sugestivas. O fundo azul, representando o céu cabo-verdiano e o ocre do terreno e de algumas figuras, dá a dimensão do quotidiano paisagístico e vivencial do cabo-verdiano, representando as cabeças brancas, o que se poderia apelidar, no entender de Danny Spínola, da “pureza chã da população, nas suas manifestações culturais”. Há, aqui, observa Danny, o retrato do lado duro da população na sua labuta em busca do pão, mas também o lado lúdico e espiritual do cabo-verdiano no seu dia a dia. Todavia, apesar dos traços, entre o naive e o impressionismo, há uma dimensão expressionista nestas figuras que representam, no fundo, a essência da alma cabo-verdiana.

            Já do ponto de vista estritamente temporal e espacial, a obra, cuja finalidade é a de, segundo o próprio autor, se constituir “num meio de dinamização e incentivo ao aprofundamento do conhecimento da realidade cabo-verdiana, e das ideias relevantes sobre essa mesma realidade, sendo ainda uma forma de contribuir para a promoção e criatividade artísticas”, abarca o período que decorre entre 1986 e 1998 e incide fundamentalmente sobre Santiago, berço do autor e terra de finason, batuco e funaná, de poetas e profetas, Fogo, Santo Antão, Brava e São Vicente. Estruturado em quatro capítulos essenciais, o livro abrange um leque diversificado de trabalhos e entrevistas apresentados ao longo de 468 agradáveis e bem entrosadas páginas e privilegia uma abordagem ensaística, jornalística e, se se quiser, etnográfica, a partir da observação e da recolha documental e de uma visão holística do país como um todo integrado por partes diferenciadas, aliás, o princípio bem vincado ao longo da sua volumosa obra, em que, às vezes, as dimensões antropológica e sociológica se cruzam, de forma harmoniosa, numa linguagem sóbria e simples, ora mais descritiva, ora mais analítica. Assim, a primeira parte do livro, cujo título é A cultura cabo-verdiana e as suas raízes culturais, contém uma série de valiosos materiais concernentes a algumas festas de romaria e ensaios de cunho antropológico de interesse relevante. A génese e a evolução dinâmica do processo cultural cabo-verdiana marcam forte presença nesta colectânea de textos, através de um breve apontamento do autor, destacando elementos essenciais desse conjunto, designadamente, a privilegiada posição geo-estratégica e a descontinuidade territorial das ilhas; a situação histórico-social do Arquipélago e os seus reflexos sobre a mentalidade e a identidade cultural do cabo-verdiano; o surgimento do crioulo, que resultou do encontro da língua portuguesa e de várias línguas e dialectos africanos, a culinária, a música e a dança, a literatura e as artes plásticas, que acabariam, no seu conjunto, por configurar a tão propalada cabo-verdianidade. Nesse sucinto e supracitado ensaio, merecem referências abonatórias a origem da música cabo-verdiana, bem como os três principais géneros musicais cabo-verdianos – a morna, a coladeira e o funaná -, que também corporificam três formas diferentes de dança, todas elas com alguma dose erótica. De entre as músicas e as danças regionais, o ensaísta, que também valoriza a língua cabo-verdiana, pela via da escrita, realça o batuco típico da Ilha de Santiago; a tabanca, resultado de uma miscigenação étnica e cultural e produto de um sincretismo religioso; e os Colá, das ilhas de S. Vicente, Santo Antão, Fogo e Brava, exemplo vivo de um certo sincretismo religioso existente no país. Obviamente, a literatura cabo-verdiana, com as suas tradições orais, ou poesia popular tradicional, através do finason e do kurkutisan, ou Rodriga, também figura no referido ensaio, a acrescer às artes plásticas e às cantigas de trabalho, das quais faz parte o kolá-boi, tão bem analisado, em sede de livro, pelo conhecido poeta e escritor Oswaldo Osório. Para além desses interessantes textos que tocam os aspectos mais diversos da realidade antropológica cabo-verdiana, tanto na sua dimensão nacional, como regional, a obra faz alusão, por exemplo, ao ritual sincrético da sementeira, à seca e à fome, à sociedade ou comunidade religiosa cristã dos Rabelados de Spinhu Branku, à Tabanka di Txan di Tánki, à descrição das festas de romaria de San Djon na Djabraba e do Banderóna no Fogo, de São João Baptista no Porto Novo (Santo Antão). Sendo Cabo Verde um país arquipelágico de “pedras e poetas”, como terá afirmado alguém, a poética virada para a emigração está, igualmente, bem patente na obra de Danny Spínola, através de bem conseguidos e significativos poemas de Arnaldo França, Jorge Barbosa, António Nunes, Manuel Lopes, Oswaldo Osório e Daniel Filipe, que simbolizam e realçam as peripécias e as vicissitudes do processo emigratório. A segunda parte do livro consagra-se inteiramente ao processo literário em Cabo Verde, com uma interessante análise da produção poética de Corsino Fortes, através, em primeiro lugar, da sua obra prima intitulada Árvore & Tambor, empresa que cativa e motiva Danny Spínola, aliás, profundamente tocado por uma “beleza artística e plástica do dizer, bastante original”, para além de várias entrevistas concedidas por eminentes escritores cabo-verdianos.

            Nessa parte inteiramente consagrada à análise literária, o autor procede à análise dos Poemas do escritor Arménio Vieira produzidos entre 1971 e 1979, caracterizados pelo seu tom intimista, confessional e coloquial, mas, sobretudo, pelo seu impressionante jeito peculiar de humor, a raiar um pouco o sarcástico, a par de uma velada ironia (às vezes auto-ironia)”, utilizado com particular mestria, o que, no entender de Spínola, lhe confere um “pendor encantatório e encantador de dizer que cativa o leitor”. De igual modo, destaca-se, ainda no plano meramente literário e inserida na linha de cifração do social escolhida pelo autor de Evocações, a obra de Teixeira de Sousa, através, particularmente, da análise do Ilhéu de Contenda, “romance com maior força” que até agora diz ele ter escrito, situado num período de transição, que procura captar a sociedade e a dinâmica da ilha do Fogo. Ora, todos os períodos de transição, defende na entrevista o médico e escritor foguense, “são críticos e toda a crise tem que ter a sua força inerente própria, quase que exclusiva. Portanto, tinha que transmitir exactamente para o papel essa força toda que estava implícita nessa transição”, até porque não há, conclui Teixeira de Sousa, “transição sem movimento para frente e rasto para trás” e isso implica, necessariamente, “uma certa dinâmica e esta dinâmica foi transmitida exactamente no romance ‘Ilhéu de Contenda’”. Particularmente interessante revela-se o conteúdo de uma longa e profunda entrevista concedida ao autor da obra por José Luís Hoppfer Almada, para quem escrever é “antes de mais, libertar a alma da simples poeira pensante que somos, é a forma primordial da comunhão entre a solidão e a multidão, nesta nesga de nudez que nos doou a secularidade da ilha”. Outrossim, contém esta não menos elucidativa parte do livro entrevistas elucidativas com Michel Laban e Mesquitela Lima, na sua condição de críticos literários. Já noutra dimensão cultural, dominada essencialmente pelas artes plásticas, a terceira parte do livro em questão analisa, logo no início, a pintura do Mito, veiculadora, no entender de Danny Spínola, de “uma linguagem preponderantemente simbólica, iconográfica e multidimensional conseguida através do acasalamento feliz entre as cores, a grafia e as figurações mais os jogos do claro/escuro, das manchas e emplastros...”, para, depois, se mergulhar no húmus da poética pictórica de Manuel Figueira, na pintura de Nelson Lobo e de Domingos Luísa, ou ainda na paixão do grafite de José Maria Barreto. É que, em última instância, convenhamos, a arte, forma de consciência total por excelência e fonte de conhecimento e nunca o produto de um comportamento meramente contemplativo ou passivo, reflecte, fielmente, a realidade, da maneira mais perfeita, viva e penetrante e, por isso, pretende sempre modificar a vida.

A parte final do capítulo reserva um breve esboço consagrado exclusivamente à pintura cabo-verdiana com menção especial a vários nomes sonantes do meio das artes plásticas. Assim, esta penúltima parte do livro aborda o mundo das artes plásticas, através de ensaios críticos e reportagens sobre alguns pintores e respectivas obras, enquanto a última se dedica essencialmente à música cabo-verdiana, no seu aspecto mullifacetado. Nesse espaço final dedicado exclusivamente à cultura musical, enquanto pilar ou baluarte do sistema identitário nacional, conceituados intérpretes e compositores de renome, à escala de Celina Pereira, Fernando Quejas, Luís Lima, Luís Morais, Mágra, Manel d’Novas, Vasco Martins e Zezé di Nha Reinalda, entre outros, também marcam presença, numa espécie de encontro de culturas na música, uma das facetas mais impressionantes de realização artística do cabo-verdiano, que incorpora um vasto leque de comportamentos expressivos. Na realidade, a música, perspectivada como processo social, produto cultural e elemento fundamental da complexidade cultural do sistema, é um domínio que extravasa o mero produto sonoro ou a representação gráfica, prestando-se, especialmente, ao estudo adequado dos múltiplos processos engendrados pelos encontros interculturais. Daí figurar na parte final da obra de Spínola esse contínuo transversal que cruza os diversos grupos da sociedade cabo-verdiana, através de relevantes depoimentos. À guisa de conclusão, poder-se-á afirmar, em traços gerais, que as diversas manifestações culturais contidas, de forma harmoniosa, ao longo dos aludidos capítulos da obra, desde a cultura, à música, passando pela literatura e artes plásticas, constituem as principais dimensões estruturantes da sociedade cabo-verdiana e, ao mesmo tempo, traduzem a sua crescente complexificação, à luz das graduais mudanças que se vão operando, ao nível nacional e em vários domínios, sob o impacto da globalização. É, pois, nessa perspectiva que se insere a obra do Danny Spínola, concebida num estilo próprio e privilegiando uma visão sistémica e integradora e que, seguramente, vem fornecer pistas ou balizas interessantes para o aprofundamento da análise da sociedade cabo-verdiana, mormente na sua dimensão cultural. Enfim, o livro ora em análise, que reúne materiais de diversos domínios socioculturais cabo-verdianos, com uma intenção essencialmente sócio-pedagógica, é, a um tempo, estou em crer, uma contribuição valiosa para o maior conhecimento dos complexos de padrões comportamentais e da dinâmica evolutiva da sociedade cabo-verdiana, nas suas diversas manifestações culturais, mas ainda para a afirmação gradual de uma linha de pesquisa social crítica, objectiva, isenta, responsável e comprometida com o processo de desenvolvimento em curso, emergida no país, pelo menos nos últimos anos, protagonizada por um grupo relativamente homogéneo de estudiosos e pesquisadores nacionais, tanto residentes no país, como na diáspora, nos mais variados domínios das ciências sociais e humanas, a partir de uma approche multidisciplinar e holística, bem assim do domínio de ferramentas analíticas de investigação adequadas, na perspectiva da divulgação do conhecimento e do saber sistematizados

 César Monteiro




 








1 In Textos filosóficos, Ed. Ática, 1988


 


 





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