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Breves referências sobre as pinturas de Da

Breves referências sobre as pinturas de Danny Spínola



Proposições e Variações em Sonatas de Sol


A primeira coisa que se pode dizer da pintura de Danny Spínola é que ela é ecléctica e de performance dialéctica. Com predominância de uma linguagem de cores numa cosmogonia abstraccionista, a sua pintura caracteriza-se, no entanto, por uma variedade de temas, de técnicas e de estilos, indo desde a captação da interioridade do ser, através de uma linguagem puramente abstracta e emocional, passando por um abstraccionismo figurativo e racional, até chegar a um universo de temática variada, ligada ao húmus cultural da caboverdianidade, mas também a uma temática mais fluida, mais subtil, ligada já à forma particular como vê e capta o mundo que o rodeia, retratando-o, consequentemente, de uma forma muito própria e particular, em que se denota uma tendência para a reflexão metafísica e, desde logo, uma necessidade de criar e recriar um mundo novo.

Pressente-se, e, praticamente, impõe-se-nos, quando nos detemos atentamente na galaria dos seus quadros, a convicção de um estilo próprio, diversificando em experimentalismos, sui generis, aflorando tangencialmente diversas correntes pictóricas e estilos, com tónica especial no abstraccionismo, surrelaista, pelo automatismo, pelos sonhos e erotismo presentes.

Já dizia o Director do Centro Cultural Francês, Didier Baumlé, aquando da sua 1º exposição nesse centro cultural, em 1998 que: Danny Spínola “…nous dévoile à present sa fibre picturale qui ne manque pás d’audace. Diluition et fusion des colouers qui s’épanouisent par une savante alchimie créative empruntée au rêve avec un style qui ne s’apparente á aucun autre et révèle une sensibilité à fleur de peau.”

De facto, a forma como ele manipula as cores na tela, numa performance de interpenetração cromática, em que o pincel é um mero acessório, reflecte bem, indubitavelmente, uma técnica própria e especial de pintar cujo objectivo fundamental é retratar o mundo – o cosmos incomensurável, e o cosmos atómico da essência das coisas, através de uma linguagem de cores e emoções.

Para além da explosão e reverberação de cores quentes e vivas, que dão a impressão de mundo e coisas estilhaçadas e reorganizadas; dispersas e reunidas, há todo um universo de interioridade e de intuição e uma sugestão cósmica, enquanto fulcro de algo invisível e incomensurável; mais fluido, menos perceptível.

Há um espaço onírico de encantamento e de sedução no entrelaçamento das cores, das linhas e das fusões líricas dessa pintura luminosa e sugestiva.

É evidente que ele procura pintar de forma a desafiar a percepção das pessoas em descobrir, e, principalmente, em sentir o palpitante mundo existente por detrás das emaranhadas e imbricadas cores e imagens.

Não há dúvida que a pintura de Danny Spínola é uma pintura de emoção e sensação, de um ‘’delírio e equilíbrio em pleno voo.’’

Delírio e equilíbrio em pleno voo” que acaba numa explosão de cores, plena de convivência entre o vermelho, o verde, o amarelo, o azul e o laranja, pontuadas aqui e ali de caracteres enigmáticas que revelam a imaginação e a poesia destes quadros.

É uma pintura de referências plúrimas que flúi ao sabor do coração; poesia de cores em esplendor de vida e do mundo.

É uma pintura sem fronteira, nem peias, livre, com a “liberdade do gesto, do olhar, da imaginação e da interpretação; fugaz e perene a um tempo, e em diapasão de música e de luz;

É uma pintura do âmago do Ser e do Cosmos total; da atomização e do infinito pleno; dos sentidos todos e do sentir inteiro, à imagem de um relâmpago ou das ondas do mar em maré de lua cheia.

Descendo um pouco aos pormenores dos experimentalismos deste estilo único e impar de pintar, podemos encontrar veredas várias, inusitadas, e desafiantes.

A galeria de pintura de Danny Spínola caracteriza-se por uma tripla dimensão, nomeadamente: do real, do abstracto onírico e do esotérico místico, situando esta nas imediações do oculto das coisas, ou na dimensão subjacente à realidade, e, portanto, num corolário enigmático de confabulação e utopia.

Pode-se falar também, neste caso, de uma pintura metafórica e imagética, que precisa de um código para ser, não decifrada, mas intuída, na medida em que não tenta explicar, mas sim sugerir, e, por conseguinte, pode-se falar de uma pintura poética, com as cores em versos, numa alquimia de fusão e configuração, tecendo uma rede subjectiva de figurados sentidos.

Aliás, é o próprio que diz: “Eu sou um Poeta de cores. Os meus quadros são essencialmente poéticos, assim como os meus poemas são verdadeiras pinturas em forma de palavras e de versos. Eu os concebo e idealizo como artes supremas em que o subjectivismo, o êxtase, a relatividade e uma certa fugacidade eterna se manifestam.

Tanto a minha escrita como a minha pintura são para serem sentidas, antes de serem entendidas.

Relativamente aos temas dos meus quadros, eu defino a minha pintura como pintura cósmica, que tem muito a ver com a minha intuição, na medida em que, para além do incomensurável universo da minha interioridade, que expresso em pintura, há também uma grande procura da parte invisível das coisas, e do mundo, enquanto fulcro de algo mais vasto, menos preciso, mais fluído, menos perceptível, e que, no entanto, pressentimos, possui uma ordem e uma lei precisas. É assim algo onírico, mas latente, enquanto forma e não-forma, coisa e não-coisa; e aqui os sentimentos e a intuição são soberanos na determinação do processo e do caminho a percorrer nessa busca do sempre emanente e transcendente. Há um delírio, é certo, nessa busca do infinito, desse Cosmos que me habita. É que a minha pintura é um pouco simbólica por representar esses universos vaporosos e quase intangíveis do eu.”

Tanto pinta figurativos em perspectivas dimensionais, como não se preocupa com isso e justapõe as figurações consoante a intenção ou a visão que quer imprimir aos seus quadros. É de se referir, também, ao jogo de cores e de sombra e luz que ele cria, a partir da utilização de cores contrastantes, imbricadas, e muitas vezes em fusões complexas e subtis, erigindo, metamorficamente, campos de profundidade e de multiplicidade dimensional.

A pintura dele é como se fosse uma música pura. A linguagem das cores assemelha-se à linguagem dos acordes e das melodias da música pura, sem o canto, sem a preocupação da letra (que é para ser ouvida e apreciada) - ou, no caso da pintura, para ser vista e sentida - sem a preocupação da imagem ou figuração.

Daí que se possa dizer que essa pintura constitui abstracções emocionais; uma sinfonia exótica de cores, linhas, traços e figuras.

Danny Spínola pinta, às vezes, utilizando o action painting, à semelhança de Pollock, e recorrendo-se à alquimia mística e subtil, misturando o abstracto virtual com o real, aproximando-se da filosofia reflexiva subjacente à pintura Kandinskiana.

Ele pinta, meditando, a meditação sonâmbula e automática, tão fluida e espontânea como o sonho ou o ars do nirvana.

A variedade de temas e de assuntos: históricos, sociais, políticos, filosóficos e metafísicos, e até realista, sem ser folclórico ou panfletário, dão a dimensão de uma preocupação, permanente, numa demanda de criatividade e estética.

Proposições e Variações constitui um título apropriado para o conjunto da pintura de Danny Spínola, na medida em que se pode aperceber, facilmente, das variações e nuances que os temas escolhidos vão sofrendo, em metamorfoses subtis e sinestésicas, mas dinâmicas e lapidares, na sua essência, em franca sedução.

Sonatas de Sol, por outro lado, poderá ser o título complementar, poético e místico, que traduz e consubstancia a essência dessa pintura feita de acordes e sinfonia de cores num universo genésico de fecundação e luz (celeste e espiritual), num cosmos criador de dimensão figurativa e simbólica




R. S.


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