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Grupo de Dança

Raíz Di Polon


DOM QUIXOTE OF THE ISLANDS


Quixote gostava do vento. E por aqui havia dois bandos: Barlavento e Sotavento. Com os ventos vinham os gafanhotos – esses anjos do deserto. Os moinhos de vento nasciam já cansados de poços que nunca deram de mamar à terra. E na velhice tinham como única ocupação ceifar asas dos gafanhotos. Quando o vento soprava de um lado Quixote ficava magro, magro, magro. E do engenhoso fidalgo descenderam muitos meninos eternamente magros no tempo e no espaço. Quando o vento soprava do outro lado Quixote se convertia em Sancho Panza, e parecia gordo, mas não o era, estava apenas prenhe de outros tantos meninos gordos no espaço e magro no tempo.


Quixote gostava de cavalo, mas como por aqui não os havia, ele andava de burro e deixava Sancho ir a pé. Se divertiam vendo cabras a passear pelas aldeias com ravinas cravadas nas unhas. E embasbacados ficaram Quixote e Pancho quando souberam que aquelas eram as tais cabras que se alimentavam exclusivamente de papéis. E se reescrevo esta história neste século atrasado, é porque as primeiras páginas de Cervantes, as verdadeiras e originais, foram comidas por aquelas espécies de cabras insulares. Tudo o que veio depois é plágio e memória curta. Portanto, é por mero imperativo moral que reconstituo a passagem de D. Quixote pelas ilhas afortunadas. Quixote chegou às ilhas desertas por azar, esses azares que acompanham os viajantes destemidos. Depois chegou Sancho Panza, não necessariamente a convite de Quixote, nem tampouco contra a vontade deste, mas, na verdade, contra a vontade de Sancho e a convite de ninguém. O homem é também escravo da sua memória, dizia Sancho, que já não conseguia perceber onde se encontrava ele, nem onde se encontrava o mundo. A mesma frase era repetida por Quixote, que já não se lembrava de que Sancho era também gente, se verdade era que do macaco tínhamos todos descendido. Quixote viu areia, pedras, saias, sol que se punha, sol que nascia, corpos escuros, lua, ora cheia, ora vazia, telhas recentes. Quixote ouvia vozes, sons curtidos, que lhe faziam pensar no futuro. Sancho viu pó, penedos, cunhais, suor de sol a sol, corpos tingidos, e lua ora minguante ora minguada. Sancho ouvia vozes, sons carpidos, que lhe faziam pensar no presente. Ambos sentiam, entretanto, que o passado já estava sentado no futuro.


Quixote viu Sancho tornar-se mulher na dança das ancas. Viu-o santo nas romarias, máscaras nos Carnavais, valsas nos salões, pés nas marchas, barco no mar, guitarras ao peito, facas nas mãos, sombras na noite, vulto nos sonhos, autêntico nos gestos, gestos de um e de outro mundo (de bênçãos, de mantenhas, de arremessar o pau para dentro do pilão, da funda que catapulta a pedra, do tecer, do tear, das rodas dos meninos, dos meninos da roda, do ventilar o fogo), e presságios quando sonhou com pombas a voar. E Sancho viu Quixote converter-se em metade dos seus próprios corpos, abandonar a fidalguia, assumir-se escravo do amor por amor assumido de uma escrava, remar contra a maré, criar laços, dar o nó. E a vida é um andar que se cruza ao ritmo de tudo: rápido, lento, fugaz, frente a frente, lado a lado, na vertical, em cima, em baixo, com encontros, encontrões, e desencontros fatais porque o que era ódio se fez amor na parte em que o ódio é mais forte. Rasgaram-se, comeram-se mutuamente, mataram-se, sobreviveram, rebelaram, fugiram juntos e um do outro e cada um para dentro e para fora de si. Só então, e para a posteridade dos dois, soube Quixote que ele e o outro eram a mesma pessoa.

Mário Lúcio Sousa, Novembro de 2004